Colunista

Compartilhar Imprimir

Por: Leão Alves

23/01/2016 | 12:52

Guetos do multiculturalismo

Compartilhar:

Enquanto acusações de racismo e xenofobia são lançadas contra resistências nacionais ao projeto comunista-neoliberal que está solapando democracias e escancarando as fronteiras européias, dos EUA e também do Brasil à imigração em massa, muitas pessoas, especialmente fora da América Latina, desconhecem os sistemas de apartheid implantados em países da região e que, promovidos quase sempre pelos mesmos grupos anti-mestiços multiculturalistas, vêm sendo ampliados à base de limpeza étnica, segregação racial, imigrantismo, indigenismo e guetização.
A antropóloga Vesna Vučinić-Nešković, professora da Universidade de Belgrado, Sérvia, e ‘chair’ (poderia ser traduzido por presidente) do World Council of Anthropological Associations (WCAA), escreveu em nome da rede uma carta –http://www.wcaanet.org/downloads/submissions/WCAA letter on Guarani situation.pdf – à governante do Brasil, Dilma Rousseff, em apoio aos protestos da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) contra o tratamento que guaranis estariam recebendo do Estado brasileiro:
“Estou escrevendo em nome do World Council of Anthropological Associations (WCAA), uma rede global de cinqüenta e duas associações antropológicas profissionais nacionais, regionais e internacionais. Estou escrevendo para endossar a declaração formal de protesto da Associação Brasileira de Antropologia contra o tratamento dos Povos Indígenas Guarani Kayowá e Guarani Ñandeva, no estado de Mato Grosso do Sul, pelo Estado Nacional brasileiro.”


Embora alguns estejam sendo mais mal tratados do que outros no Brasil, com exceção do PT, partidos aliados e apoiadores, todos estão sendo muito mal tratados pelo Governo Federal e mesmo dentre os governistas, nem sempre pelos motivos mais elogiáveis, também há queixas e murmúrios.


A carta da antropóloga ricocheteia as pressões destes segmentos apoiadores: grupos que não divergem ideologicamente da política racial do governo, mas o criticam enquanto colaboram pressionando para acelerar a implantação do multiculturalismo no Brasil.


“Como se sabe, estas comunidades estão empenhados em garantir e proteger suas terras tradicionais, e como resultado, têm estado sob ataque armado grave, em última análise, apoiadas por interesses do agronegócio e outros, o que equivale a uma guerra contra esses grupos étnicos. O Governo Federal do Brasil, de acordo com a Constituição do Brasil de 1988, é obrigado a proteger e salvaguardar as terras indígenas. Apesar dessa obrigação constitucionalmente determinada, essa proteção por parte do governo parece ser praticamente inexistente “.


É importante destacar, especialmente para leitores de fora da América Latina, que o indigenismo não é um movimento índio, mas um movimento branco, não se assumindo, porém, como tal. Tanto em sua origem quanto em suas lideranças, intelectuais e fontes de financiamento locais há uma marcante predominância de brancos, imigrantes e descendentes. Uma visita aos grandes sites indigenistas permite mostrar que o mesmo pode ser dito de seus patrocinadores e apoiadores de fora da América Latina.


No Brasil e em outros países da América Latina que receberam um grande número de imigrantes europeus, estes e seus descendentes tiveram duas posturas principais: a de integração e mestiçagem e a de isolamento étnico e hostilidade aos locais, especialmente os não-brancos. Com a ascensão do multiculturalismo, os isolacionistas ascenderam em poder e ganharam novo fôlego para suas ambições. Enquanto na Europa vão se ampliando os guetos étnicos, no Brasil já há até projeto do Partido dos Trabalhadores para a criação de “territórios brancos” sob a cândida alegação de defesa da preservação da cultura de comunidades de descendentes de imigrantes e o revelador princípio da preservação da “identidade racial”.


A propaganda indigenista, porém, coloca como opositores preferenciais do seu projeto os “homens brancos” e os grandes produtores rurais. Na verdade, não se tem visto o ruralismo fazer uma oposição ao indigenismo em si; suas críticas são mais freqüentemente reclamações contra o tamanho e o número dos territórios convertidos em “territórios indígenas”. O caráter racista do indigenismo é raramente citado por ruralistas. Há um indigenismo ruralista; uma das sua principais lideranças é a atual ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do governo Dilma Rousseff.


O que não aparece na propaganda indigenista é o fato das populações pobres e mestiças serem as principais vítimas das limpezas étnicas, tanto no Brasil quanto em outros países latino-americanos. Na Nicarágua, p. ex., chegam a usar o term “saneamiento” para a expulsão dos mestiços; no Brasil usam o termo também ofensivo “desintrusão”.


O apartheid foi transformado em norma constitucional no Brasil por ação do lobby indigenista; dentre os lobistas, antropólogos europeus e políticos de esquerda. Similar às homelands do apartheid sul-africano, os “territórios indígenas” no Brasil são pertencentes à União e exclusivos. Dessa forma, a União se encarrega de escorraçar as populações não índias a fim de evitar a mestiçagem e promover a diversidade.


“O Brasil é conhecido por sua história longa e notável do reconhecimento e respeito pelos direitos de sua população indígena, que, juntos, constituem um patrimônio único da diversidade humana sob um único Estado-nação em todo o mundo (mais de 305 diferentes povos indígenas falando em torno de 274 línguas diferentes). Dado este registro, estamos profundamente preocupados com o silêncio do governo brasileiro e seu fracasso até agora para honrar essa tradição de garantir os direitos dos povos indígenas brasileiros. As ameaças contra os povos indígenas são diferentes, mas as que afetam os guaranis estão agora entre o mais agressivas e extremadas”.


A diversidade manteve-se por séculos sem a existência de fronteiras oficiais étnicas, mas para o indigenismo não é possível preservar os povos índios sem isolá-los, um argumento típico do verwoerdismo. Vai além, inspirado no homem branco Lévi-Strauss, quase uma entidade sagrada na antropologia indigenista e uma referência de instituições como a UNESCO. Para o antropólogo francês, que deixou registros de seu desencanto com a mestiçagem quando viajando pelo Brasil, a diversidade em si é superior à homogeneidade e esta seria estagnadora – ou seja, mestiçagem conduziria à estagnação. Este discurso, obviamente vem ao agrado dos que desejam, pela promoção da diversidade, preservar a raça branca contra mestiçagem. Neste sentido, o indigenismo renova o imperialismo europeu nas Américas, criando obstáculos legais com o fim de evitar o espontâneo processo de mestiçagem, que foi também uma construção voluntária de povos nativos.


Inventivo, o indigenismo tem conseguido até o “ressurgimento” de povos índios, em regra pela mudança identitária de populações mestiças.
O Governo Federal, para ampliar a diversidade, vem incentivando a imigração – com especial atenção para a européia dirigida a funções especializadas e para a haitiana, que tem recebido maior atenção da mídia -, ao mesmo tempo que tenta reduzir a fecundidade e fertilidade na população mestiça num dos países com menor densidade demográfica do mundo.


“Como os antropólogos que se dedicam à compreensão e proteção dos direitos indígenas apelamos ao governo brasileiro a rever as suas atuais políticas e agir de acordo com os princípios estabelecidos pela legislação brasileira e as convenções internacionais.”


Uma dessas, a Convenção Internacional Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, diz em seu art. III:


“Os Estados Partes especialmente condenam a segregação racial e o apartheid e comprometem-se a proibir e a eliminar nos territórios sob sua jurisdição todas as práticas dessa natureza”.


As convenções contra o racismo em regra defendem a integração das minorias na cultura e sociedade nacionais e a igualdade de direitos dos cidadãos diante do Estado. O movimento multiculturalista, porém, tem buscado aprovar convenções, como a 169 da OIT, que vão no sentido contrário, ou seja, no da fragmentação da sociedade, do isolamento dos grupos e da distinção de direitos entre cidadãos. O objetivo é a ocupação pelas ONGs (e seus senhores) de funções do Estado, conquistando a influência e poder deste sobre a população.


O incentivo à imigração não visa, como racistas afirmam na Europa, a promover a mestiçagem. Mestiçagem é homogeneizadora, gera identidade de grupo, e o multiculturalismo não deseja isso, mas a fragmentação da sociedade. Por isto incentiva a miscigenação desde que ela sirva para produzir indivíduos com frágil ou nenhum sentimento de grupo, o que não é o caso da maioria das nações latino-americanas nas quais a mestiçagem é elemento fundamental da identidade nacional.


Em dezembro de 2015, aproveitando outra vez o período natalino, a senhora Dilma Rousseff criou quatro novos bantustões no Estado do Amazonas, que já tem mais de um terço de seu território ocupado por outros similares. Ficam próximos aos municípios de Autazes e Careiro da Várzea, territórios mestiços oficialmente reconhecidos pela ação da resistência do povo mestiço. Bantustões significam novas expulsões de populações mestiças, sistematicamente, inclusive de crianças. As ameaças de ficar sem terra e sem teto (de verdade) são um incentivo para que muitos “virem” índios. Uma marginalização programada, planejada, cuidadosamente desenhada pelos novos arquitetos do apartheid.


(Leão Alves é médico e ex-presidente do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro, conhecido como Movimento Nação Mestiça).

publicidade

Copyright © 2013 - 2019. Portal do Zacarias - Todos os direitos reservados.