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A Entrevista

06/01/2017

‘Precisamos conjugar ações contra a zika’, diz nova presidente da Fiocruz em entrevista

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Foto: Reprodução O Globo

Nísia Trindade adota postura conciliadora após imbróglio com o Palácio do Planalto em torno de sua nomeação

Para a pesquisadora Nísia Trindade Lima, a virada de ano foi marcada por incerteza. Escolhida em eleição interna para a presidência da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com 59,7% dos votos, derrotando a médica Tania Cremonini de Araújo-Jorge, a socióloga foi surpreendida, no final de 2016, ao saber que o Palácio do Planalto não acataria o resultado do pleito e nomearia a segunda colocada como presidente.

 

Os dias seguintes trouxeram debate intenso na comunidade científica, levando a protestos e a uma petição on-line em seu favor que angariou quase 10 mil assinaturas. Finalmente, após reuniões em Brasília, seu mandato foi confirmado na última quarta-feira. Aos 58 anos, Nísia, que ficará à frente da instituição até 2020, deixa claro que o imbróglio foi superado e que vai trabalhar para integrar a cadeia de conhecimento da Fiocruz, aprofundando-se, também, nos trabalhos para conter a epidemia de zika e das outras doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti.

 

Como recebeu a notícia de que o Planalto nomearia Tania Cremonini como presidente da Fiocruz?

 

Com perplexidade, porque, até então, não havia indicativo disso por informações do Ministério da Saúde. A questão deixou de ser só da Fiocruz e traz um ponto de reflexão para que processos semelhantes não gerem essa instabilidade: os mecanismos de lista tríplice foram instituídos para haver um equilíbrio entre as comunidades e governos, mas cada vez mais, inclusive nas universidades, há a visão de que se deva encaminhar o nome do primeiro colocado na votação. Hoje, escrevi uma carta à comunidade da Fiocruz afirmando que a campanha acabou e que minha nomeação significa que vamos falar para a instituição como um todo.

 

Como foram as reuniões em Brasília? A senhora conversou com o presidente Michel Temer?

 

Na terça-feira, fui chamada para uma reunião na Casa Civil, coordenada pelo ministro Eliseu Padilha, com o ministro Ricardo Barros (Saúde), além do Moreira Franco (secretário-executivo do Programa de Parceria de Investimentos). O ministro Padilha expressou preocupação com a dimensão que a sucessão na Fiocruz tomou. Foi mencionada até mesmo a apreensão de que a instituição estivesse em uma conflagração. Mas não acho que a Fiocruz esteja conflagrada. Conversei com o presidente no mesmo dia. Ele sugeriu um acordo em que a representatividade da eleição fosse considerada e que a partir de indicações feitas pela Tânia, eu pudesse formar a minha equipe. Esse tipo de acordo acontece, muitas vezes, entre candidatos em uma disputa. Agora nós temos que cumprir com o nosso programa, quero trabalhar pela unidade institucional — de forma a não exacerbar conflitos, sem que isso signifique não haver espaço para o contraditório.

 

Segundo rumores, o governo resistiu à sua nomeação, entre outros motivos, porque a senhora se manifestou, no ano passado, contra a posse de Temer como presidente da República...

 

Na reunião na Casa Civil, não foi mencionada a questão de posicionamentos políticos, o que é o correto e saudável. O país está passando por crises econômica, política, institucional, que nos chamam uma responsabilidade enorme. A discussão política sempre deve ser feita, mas não estamos falando de composição de governo, e sim de uma instituição de ciência e tecnologia. Então, o presidente da instituição pode ter suas convicções, mas, no cargo, deve se pautar por sua missão e pelo diálogo. Ao longo da vida, manifestei muitas vezes minhas convicções, mas minha posição central é pela democracia, pela inclusão social, pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e por uma política de ciência e tecnologia a serviço do desenvolvimento.

 

A senhora assume em meio a um verão que preocupa pela disseminação das doenças transmitidas pelo mosquito “Aedes aegypti”. Como pretende se posicionar nesse cenário?

 

Será no sentido de aprofundar, no campo da vigilância, as ações do comitê de emergência que a Fiocruz já constituiu, e de integrar mais as ações de controle de vetores, as discussões sobre os fatores ambientais, entre outros. Recentemente, na linha de diagnóstico, tivemos a aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de um kit que permite o discernimento entre zika, dengue e chicungunha. Estamos aguardando o ministério fazer os acertos finais para que ele possa ser produzido e distribuído. Precisamos de muitas ações conjugadas para dar conta de uma epidemia da gravidade da zika.

 

Sendo socióloga, como a leitura das ciências sociais pode contribuir para entender estas epidemias?

 

Eu coordeno a Rede de Ciências Sociais e Zika da Fiocruz, que envolve várias unidades da fundação, e discutimos todas as dimensões sociais envolvidas. Há toda uma discussão sobre o impacto da epidemia no SUS, uma vez que ela atingiu duramente não só o Nordeste, mas as mulheres em situação muito vulnerável. A Fiocruz teve 11 projetos aprovados em um grande edital do governo federal, em dezembro, e eu coordeno dois deles voltados para a importação da educação na prevenção e na promoção da saúde no caso dessas doenças, particularmente a zika.

 

Cientistas do país criticam cortes de verbas para pesquisa. Como a crise está afetando a Fiocruz?

 

Tivemos uma redução do orçamento em 2016 em relação a 2015. Mas conseguimos desenvolver nossos programas, mesmo tendo áreas com necessidade de reforço. A instituição não vive uma crise orçamentária. Mas vamos trabalhar no sentido de otimização dos resultados e na captação externa.

 

A senhora é a primeira mulher na presidência da Fiocruz. O que isto significa para a instituição?

 

Para mim é motivo de muito orgulho, e é também um fato valorizado por toda a comunidade. Somos hoje 56% dos servidores da Fiocruz, e 60% dos pesquisadores. Portanto, já era hora. Além disso, acho muito importante que a agenda de gênero e saúde seja bastante enfatizada na instituição.

 

Quais serão as suas prioridades à frente da fundação?

 

Passará por integrar toda a cadeia do conhecimento da Fiocruz com os desafios da saúde, da ciência e da tecnologia; no campo da vigilância, dar um salto de qualidade; trabalharemos também no desenvolvimento dos institutos nacionais de saúde. Além disso, um dos grandes compromissos é com a prospecção, preparando a Fiocruz para os grandes desafios do futuro.

 

 

O Globo 

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