Colunista

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Por: Félix Valois

22/07/2016 | 12:40

Questão de gênero

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Temos como certa a lição dialética de que “uma coisa é ela mesma e o seu contrário”, resultando a evolução do permanente atrito entre esses opostos, sempre na busca da superação do velho pelo novo. É assim na vida de relação e tem sido assim na História, coisa que aprendemos a partir dos ensinamentos daquele judeu barbudo que nasceu na Alemanha no século 19. Não há, pois, como negar as diferenças. Elas existem e estão aí aos olhos de todos, até porque sem elas não haveria possibilidade de ter sido formulada a teoria da “luta dos contrários”. Se assim é, imperioso também é respeitar essas diferenças. Desconhecê-las já seria atitude censurável, eis que não se pode ter como positiva a postura do avestruz. Negá-las, chegaria bem perto dos domínios da insensatez, pois a ninguém é dado desconhecer o óbvio. Combatê-las, como se perniciosas fossem, revelaria altíssimo grau de periculosidade, a exigir, cuido, intervenção psiquiátrica.


Estou apenas querendo me situar, talvez de maneira pretensamente filosófica, no quadro que se nos depara no mundo atual. A todo momento, surgem bandeiras de luta contra as variadíssimas formas de discriminação. Aqui, levanta-se uma voz contra o racismo, esse câncer capaz de destruir qualquer sociedade, mesmo, e talvez principalmente, aquelas que se pretendem civilizadas. Acolá, o grito que se faz ouvir é contra a homofobia, palavra com a qual a modernidade quer significar a “rejeição ou aversão a homossexual ou à homossexualidade”. Tudo, no final, podendo ser traduzido na singela compreensão de que ser diferente não exige juízo de valor. Quero dizer: por ser diferente, alguém ou alguma coisa não é necessariamente melhor nem pior. É apenas diferente. E pronto.


Talvez bem por isso, o Sistema Integrado de Gestão Acadêmica da Universidade Federal do Rio de Janeiro fez realizar, no dia 11 deste mês, um “ato pelo reconhecimento de nossa diversidade”. Foi a academia mandando seu recado contra a discriminação, com esta ponderação inicial muito sensata: “Nossa universidade é maior do que muitas cidades. E como toda cidade, ela é feita de gente. Gente que tem muito em comum. Gente que guarda muitas diferenças. Diferenças que são a nossa riqueza. Mas que nem sempre são reconhecidas ou valorizadas como deveriam”. Bom começo, seguido da advertência: “Nossa universidade mudou. E continua mudando. Se tornando mais democrática, mais plural. Mais negros, mais estudantes de escola pública, mais moradores da periferia, gente de todo o Brasil chegando pra fazer da UFRJ a sua casa”. No meu modesto sentir, não precisaria mudar tanto a ponto de iniciar um claro desrespeito a norma elementar de linguagem, já que o vernáculo agradeceria o não início de uma frase como pronome pessoal do caso oblíquo. “Tornando-se mais democrática”, não feriria em nada a ânsia de igualdade. E estaria correto.


O bom combate da UFRJ contra a discriminação parece disposto a não dar trégua a qualquer deslize. Prova disso é a visível transposição da incógnita “x” para linguagem escrita, como forma de deixar induvidoso o desejo de que cada um receba como bem entender a mensagem. É a matemática a serviço dos novos tempos. Assim é que o direcionamento da mensagem a que aludo está grafado desta forma muito original: “Prezadxs”. Viram só que avanço? Quem quiser que substitua incógnita pela vogal adequada a seu caso, transformando a palavra em masculina ou feminina a seu bel prazer. Nada da ultrapassada fórmula de usar parênteses para expressar a mesma intenção. Por que? Ora por que. Porque se você escrever, como se fazia antigamente “Caro (a) amigo (a)”, estará dando prioridade ao gênero masculino, o que é inadmissível, já que não lhe seria possível explicar a razão de ter colocado o “a” e não o “o” entre parênteses. Que sutileza genial! Reiterada na afirmativa de que transformar a universidade “em um lugar de todxs é um compromisso institucional”. Perceberam? “Todos” já não tem o condão de englobar o gênero humano. Seria criminosa discriminação com “todas”.

 

Aceito (e quem sou eu para não aceitar) o avanço radical nas normas da linguagem escrita. Suponho que a esta se restrinja, já que “todxs” é impronunciável. Mas, se o aceito, em mim pessoalmente a novidade causou profunda (e acho que justificável) apreensão. Explico-me: o meu nome próprio é grafado como “Felix”. Com essa nova nomenclatura (digamos assim), será que isso significa que, daqui por diante, eu estarei livre para trocar o “x”? Quero dizer: se eu amanhecer como uma carga exagerada de testosterona terei que me assinar como “Felio”? E se (égua!) eu desmunhecar estarei autorizado a usar “Felia”? Vai azarar outro (ou eu deveria ter escrito “outrx?). Arrenego-te. Aqui mesmo essa inovação não vai vingar. 

 

(Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída pelo Senado Federal para elaborar a proposta de reforma do Código de Processo Penal)

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