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09/09/2021

OPINIÃO: A escolha por Bolsonaro foi uma empreitada política e histórica cruel demais para o Brasil

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Foto: Reprodução

*Por Lúcio Carril - Bolsonaro é uma experiência que o Brasil poderia ter evitado não fosse tamanha a irresponsabilidade das suas elites - um amontoado de grupos herdeiros das oligarquias da terra, do escravismo e do processo perverso de industrialização.

 

Estamos vivendo um total desgoverno, com indicadores sociais e econômicos que põem o país no caminho fatídico da violência e da anomia social, com o aumento da fome, do desemprego e da instabilidade política. Isto tudo seria evitável, mas foi o trilho escolhido pelos poderosos para se sentirem donos do Estado e de todo o patrimônio público. São as elites patrimonialistas em ação, filhas do coronelismo e das oligarquias industriais.

 

A escolha por Bolsonaro foi uma empreitada política e histórica cruel demais para o Brasil. Não houve um mínimo de lucidez e sobriedade. Foi só mais um ímpeto de mostrar força diante de um Estado que sequer chegou a cumprir seu papel histórico de operar conflitos. Essas elites políticas e econômicas tiveram medo de perder seu espaço de corrupção e de benesses. Um engano. Isto nunca teve em jogo. As cartas só indicavam para construção de um país menos injusto socialmente e para um capitalismo desenvolvido, onde o mais-valia não precisaria tirar o sangue do trabalhador. Deveria se contentar em se apropriar apenas do suor.

 

A jogada por Bolsonaro foi cruel e burra. Ele está respondendo bem aos interesses estúpidos do capital e dos seus grupos de dominação, mas o faz num clima de instabilidade. E somente as elites mais tacanhas comemoram e apoiam sua política entreguista e anti-nacional, sem entender que numa economia globalizada o isolamento e o caos terminam por fazer vítimas de todos os lados.

 

A quem interessa o horror da violência e da fome? No primeiro momento, as elites políticas e econômicas podem achar que se beneficiarão, mas não pensam no país que deixarão às suas futuras gerações herdeiras da exploração. Como diz o poeta Dori Carvalho:

 

"fiquem aí os senhores
mamando nas tetas
do povo
enquanto o povo
mama nas tetas
das pedras

 

cuidado muito cuidado senhores
qualquer dia
as pedras viram armas
qualquer dia
a fome vira raiva
qualquer dia
a casa cai"

 

Alguém já disse que a fome é péssima conselheira. E ouso dizer: se ela se juntar à falta de esperança em dias melhores, a reação será imprevisível. Poderá descambar para uma grave anomia social, sem controle do Estado e com domínio de grupos criminosos. Me parece que o desgoverno Bolsonaro faz um avant-première desse drama.

 

*Lúcio Carril é sociólogo, ex-secretário executivo da Secretaria de Política Fundiária do Estado do Amazonas, ex-delegado federal do Ministério do Desenvolvimento Agrário e especialista em gestão e políticas públicas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

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