NOTÍCIAS
Manchete
'SEGREDOS DE BASTIDORES': A ATLAS ESTÁ CERTA E TODO MUNDO ERRADO? POR QUE SUA PESQUISA MOSTRA UM AMAZONAS TÃO DIFERENTE?
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

*Por Antônio Zacarias - Minha gente, saiu mais uma pesquisa sobre a sucessão estadual no Amazonas.

 

Desta vez, os números da AtlasIntel, divulgados na sexta-feira, 4 de setembro, me levam a fazer uma pergunta que, na minha opinião, é mais do que legítima:

 

Afinal, por que as pesquisas da Atlas mostram uma eleição tão diferente daquela mostrada pelos demais institutos?

 

Antes que alguém se apresse em tirar conclusões, deixemos uma coisa muito clara: não estou dizendo que a pesquisa está errada. Muito menos fazendo qualquer acusação contra o instituto.

 

Estou fazendo o que o jornalismo deve fazer — perguntar. E perguntar muito — diante de números que destoam significativamente dos demais:

 

OMAR NA FRENTE, MARIA ENXOFRE COLADA. DÁ PRA ACREDITAR?

 

Vamos começar pelos números. Segundo a AtlasIntel, o Omar Aziz aparece com 31% das intenções de voto, a Maria Enxofre do Carmo vem logo atrás, com 27,4%, o Roberto Cidade tem 18,8% e o David Almeida aparece com apenas 8,7%.

 

Leu direito, caro leitor, caríssima leitora?

 

O David, segundo a pesquisa da AtlasIntel, tem apenas oito vírgula sete por cento das intenções de voto em todo o Amazonas,

 

É justamente aí que começa a ficar interessante.

 

DAVID TINHA 19,9%. AGORA TEM 8,7%?

 

Uma semana antes, na pesquisa do Instituto Eficaz, o David Almeida aparecia com 19,9%. Agora, na Atlas, tem 8,7%.

 

A diferença é de nada menos que 11,2 pontos percentuais. Evidentemente, ninguém está dizendo que o David perdeu onze pontos em uma semana.

 

Aliás, seria difícil imaginar uma movimentação eleitoral dessa magnitude sem que tivesse ocorrido algum terremoto político no Amazonas.

 

Como não ocorreu nenhum terremoto político, surge a pergunta inevitável: O que explica tamanha diferença?

 

COM MARIA ENXOFRE ACONTECE O CONTRÁRIO

 

Se o David despenca na pesquisa da Atlas, com a Maria Enxofre acontece exatamente o contrário. Estranho, né?

 

Na Quaest, ela apareceu com 16%; no Real Time Big Data, com 21%; no Direto ao Ponto, 19%; na Eficaz, 18,4%. Agora, na AtlasIntel, salta para 27,4%.

 

É uma diferença considerável, não é mesmo?

 

Não estamos falando de dois ou três pontos para cima ou para baixo. Estamos falando de uma pesquisa que muda substancialmente a posição de dois dos principais candidatos.

 

AS OUTRAS PESQUISAS MOSTRAVAM OUTRA CORRIDA

 

Vamos refrescar a memória. Na Quaest, o Omar apareceu com 26%, o Roberto Cidade com 18%, a Maria Enxofre com 16% e o David Almeida com 15%.

 

No Real Time Big Data, o Omar tinha 34%, o Cidade 22%, a Maria Enxofre 21% e o David 14%.

 

No Direto ao Ponto, o Omar marcou 26%, Cidade 23%, Maria Enxofre 19% e David 17%.

 

Na Eficaz, o Omar apareceu com 24,3%, o David com 19,9%, o Cidade com 19,7% e a Maria Enxofre com 18,4%.

 

Perceberam? Há diferenças entre essas pesquisas, evidentemente. Mas existe uma espécie de desenho geral da eleição.

 

O Omar na liderança e o Cidade, o David e a Maria Enxofre disputando a segunda vaga.

 

Aí vem a Atlas e muda completamente esse desenho.

 

NA ATLAS, A ELEIÇÃO É OUTRA

 

Na pesquisa da AtlasIntel, já não temos três candidatos brigando em condições relativamente próximas pela segunda colocação. Temos o Omar e a Maria Enxofre formando praticamente um pelotão de frente. Depois aparece o Roberto Cidade e, muito atrás, o David Almeida.

 

Trocando em miúdos: não estamos diante apenas de percentuais diferentes, estamos diante de uma arquitetura eleitoral diferente.

 

Tô certo ou tô errado?

 

ENTÃO A ATLAS ESTÁ ERRADA?

 

É possível. Possível, viu?

 

Eu seria irresponsável se afirmasse isso.

 

Pesquisa eleitoral não funciona dessa maneira.

 

Institutos diferentes utilizam metodologias diferentes e podem chegar a resultados diferentes. Isso não é novidade pra ninguém, não é mesmo?

 

A AtlasIntel possui uma metodologia própria e realiza levantamentos no Brasil e em vários outros países. E — cumpre ressaltar — já errou feio em várias pesquisas.

 

A Atlas ouviu 1.185 eleitores e apresenta margem de erro declarada de três pontos percentuais. Portanto, a pergunta interessante não é acusar a Atlas de estar errada. A pergunta é outra: por que ela está encontrando um eleitorado tão diferente?

 

Seria esse eleitorado de outro planeta? kkkkkkk

 

TALVEZ A EXPLICAÇÃO ESTEJA NA METODOLOGIA

 

Brincadeira à parte, aqui está um ponto que merece atenção.

 

A Atlas não realiza suas entrevistas da mesma maneira que muitos institutos tradicionais.

 

Sua metodologia é baseada no chamado Random Digital Recruitment, conhecido pela sigla RDR.

 

Traduzindo para o português nosso de cada dia: o recrutamento dos entrevistados acontece pela internet.

 

As pessoas são convidadas a participar da pesquisa durante sua navegação digital e respondem ao questionário por dispositivos como celular, computador ou tablet.

 

Depois, a Atlas utiliza técnicas estatísticas para ajustar a amostra ao perfil da população pesquisada.

 

Nada há de irregular nisso, é bom que se diga. É uma metodologia, mas é uma metodologia diferente. E talvez esteja justamente aí uma parte da explicação para resultados tão diferentes.

 

O AMAZONAS TEM UMA PARTICULARIDADE ENORME

 

Agora vamos colocar essa metodologia dentro da realidade amazonense.

 

O Amazonas não é um estado qualquer quando o assunto é pesquisa eleitoral. São 62 municípios espalhados por uma extensão territorial gigantesca.

 

Temos Manaus, com enorme concentração populacional, e temos municípios, comunidades e regiões do interior com características completamente diferentes da capital.

 

Há diferenças de renda, escolaridade, acesso à informação e, evidentemente, de conectividade. Por isso, uma pergunta precisa ser feita: Como uma pesquisa baseada em recrutamento digital consegue reproduzir fielmente o eleitorado do interior do Amazonas?

 

E O ELEITOR DO INTERIOR?

 

Essa, para mim, é uma das perguntas centrais.

 

A Atlas precisa dizer quantas entrevistas foram realizadas em Manaus, quantas no interior, de quais municípios vieram esses entrevistados, qual era o peso original de Manaus na amostra, qual era o peso do interior e quanto esses pesos foram modificados depois dos ajustes estatísticos.

 

São perguntas absolutamente pertinentes. E necessárias. Aliás, deveriam ser feitas a qualquer instituto.

 

Pesquisa eleitoral influencia cobertura jornalística, estratégia de campanha, discurso político, formação de alianças e até a percepção do chamado voto útil. Portanto, quanto maior a transparência, melhor.

 

A INTERNET PODE ESTAR ENXERGANDO UM ELEITOR DIFERENTE

 

Existe também outra hipótese que não pode ser descartada. Se a Atlas estiver captando uma mudança que os demais institutos ainda não perceberam? Sim, isso também é possível.

 

O eleitor que responde sozinho a uma pesquisa pela internet pode se comportar de maneira diferente daquele abordado pessoalmente ou por telefone.

 

Tô falando besteira, minha gente? Claro que não, né?

 

Nesse tipo de pesquisa o eleitor pode ainda sentir menos constrangimento para revelar determinadas escolhas; pode responder de maneira mais espontânea.

 

A própria Atlas aponta a ausência de interação direta com entrevistadores como uma das vantagens de sua metodologia.

 

Ela pode estar errada? Evidente que pode.

 

E TEM MAIS: MARIA ENXOFRE VENCE OMAR NO SEGUNDO TURNO

 

Existe outro número da Atlas que certamente vai provocar muito barulho nos comitês eleitorais.

 

Na simulação de segundo turno entre o Omar Aziz e a Maria Enxofre, a candidata aparece com 53,3% dos votos válidos. O Omar tem 46,7%.

 

A Maria Enxofre, portanto, aparece 6,6 pontos à frente.

 

Convenhamos: pesquisa estranha essa, não é mesmo?

 

MARIA ENXOFRE GANHOU UM DISCURSO PRONTO

 

A campanha dA Maria Enxofre recebeu da Atlas um argumento poderoso.

 

Ela pode dizer ao eleitor: “Além de estar disputando a liderança do primeiro turno, sou capaz de derrotar o Omar no segundo.”

 

Acho que nem ela mesma acredita em tal disparate!

 

Mesmo assim, não tenho dúvida de ela repetirá esse número em entrevistas, redes sociais, programas eleitorais e discursos.

 

OS OUTROS INSTITUTOS VÃO CONFIRMAR?

 

Finalmente chegamos ao ponto decisivo.

 

Não precisamos esperar até 4 de outubro para começar a testar a pesquisa da Atlas. As próximas pesquisas serão importantíssimas.

 

Se Quaest, Real Time Big Data, Eficaz e outros institutos começarem a registrar crescimento expressivo da Maria Enxofre e queda acentuada do David Almeida, teremos um sinal de que a Atlas pode ter detectado antes uma movimentação verdadeira do eleitorado.

 

Mas, se os próximos levantamentos continuarem mostrando a Maria Enxofre e o David próximos dos patamares anteriores, a discrepância da Atlas ficará ainda mais intrigante.

 

Aí a discussão metodológica ganhará ainda mais importância.

 

NÃO SE ESCOLHE PESQUISA COMO SE ESCOLHE TIME

 

Existe uma mania antiga na política: pesquisa boa é aquela em que meu candidato aparece bem. Pesquisa ruim é aquela em que meu candidato aparece mal.

 

Quem leva eleição a sério precisa olhar séries históricas, metodologias, tamanho e composição das amostras, margens de erro e, sobretudo, a repetição das tendências.

 

Uma pesquisa isolada é uma fotografia. Várias pesquisas ao longo do tempo começam a formar um filme. E é o filme que interessa.

 

CONCLUSÃO DE BASTIDOR

 

Minha gente, a AtlasIntel colocou um belo ingrediente nesta reta final da eleição amazonense.

 

Ela não apenas apresentou números diferentes, apresentou uma eleição diferente.

 

Nas pesquisas anteriores, o Omar liderava enquanto o Cidade, o David e a Maria Enxofre disputavam, mais ou menos embolados, a segunda vaga.

 

Na Atlas, não. O Omar e a Maria Enxofre aparecem praticamente juntos na dianteira, o Cidade fica num segundo pelotão e o David — tadinho dele — despenca para menos de 10%.

 

É uma mudança completa do desenho da disputa.

 

A Atlas está errada? Não podemos afirmar. Suspeitar podemos, claro. Até porque motivos não faltam.

 

A Atlas está certa? Também não podemos afirmar.

 

Mas podemos — e devemos — perguntar por que seus números destoam tanto dos demais.

 

É metodologia? É o recrutamento pela internet? É a maneira como a amostra é ponderada? É a distribuição entre Manaus e interior? Ou será que a Atlas conseguiu detectar antes dos outros uma mudança silenciosa que está acontecendo no eleitorado?

 

As próximas pesquisas ajudarão a responder.

 

Quem viver verá, como diria o saudoso e polêmico Paulo Frâncis.

 

*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.


Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.


Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.


Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.

LEIA MAIS
DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Mensagem:

Copyright © 2013 - 2026. Portal do Zacarias - Todos os direitos reservados.