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'SEGREDOS DE BASTIDORES': A ESTRATÉGIA DOS ADVERSÁRIOS PARA TRAVAR A MÁQUINA DO GOVERNO
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

SEGREDOS DE BASTIDORES

 

*Por Antônio Zacarias - O Roberto Cidade entrou na campanha com uma vantagem que nenhum adversário possui: ele é governador, controla a agenda administrativa e pode aparecer diariamente inaugurando, visitando, anunciando e entregando alguma coisa.

 

Entretanto, a mesma máquina que ajuda também pode atropelar.Em poucos dias, a Justiça Eleitoral mandou retirar vídeos gravados em estruturas públicas, proibiu novas filmagens eleitorais nesses locais e suspendeu a utilização de bonés, camisas e leques personalizados ligados à campanha do governador.

 

A situação coloca o Cidade diante de um problema delicado: como mostrar o que faz o governo sem transformar repartição, escola, hospital, obra e servidor público em cenário eleitoral?

 

Essa linha é fina, e a Justiça Eleitoral parece disposta a conferir — sem dó nem piedade — onde termina o governador e onde começa o candidato.

 

UMA LIMINAR ATRÁS DA OUTRA

 

No dia 18 de agosto, a Justiça Eleitoral determinou a retirada de um vídeo gravado durante visita a uma obra pública conhecida como Casa de Passagem.

 

Dois dias depois, nova decisão mandou apagar conteúdo produzido dentro da Escola Estadual Dorval Porto, no bairro do Crespo.

 

Em 27 de agosto, outra liminar determinou a retirada de seis publicações gravadas no Hospital Público Veterinário do Amazonas. A decisão também alcançou a deputada estadual Joana Darc e o vereador Aldenor Lima.

 

Segundo a magistrada responsável pelo caso do hospital, os vídeos apresentavam linguagem publicitária e poderiam caracterizar utilização de estrutura pública em benefício eleitoral. As publicações, conforme a representação, somavam mais de 202 mil visualizações.

 

A Secretaria de Estado de Proteção Animal foi chamada a explicar quem autorizou a entrada das equipes e a fornecer registros de acesso à unidade e à obra.

 

No mesmo período, outra juíza suspendeu a confecção, a distribuição, o porte e a utilização de bonés, camisas e leques personalizados relacionados à campanha do Cidade.

 

A campanha ainda terá direito de apresentar defesa, e o mérito das representações não foi julgado definitivamente.

 

Esse ponto precisa ser destacado: são decisões liminares, não condenações finais.

 

Mas, politicamente, o estrago de uma liminar começa antes do julgamento do mérito.

 

O BONÉ VIROU DOR DE CABEÇA

 

A decisão sobre os materiais personalizados determinou que o estoque remanescente fosse depositado em juízo e que os representados informassem tiragem, quantidade distribuída, contratos, notas fiscais, valores pagos e origem dos recursos.

 

Também foi fixada multa diária individual de R$ 10 mil em caso de descumprimento.

 

A legislação eleitoral proíbe que campanhas confeccionem ou distribuam camisetas, chaveiros, bonés, canetas e outros brindes capazes de proporcionar vantagem ao eleitor. O TSE permite a manifestação individual e espontânea do eleitor, mas não a distribuição desses objetos pela campanha como presente. É uma diferença importante.

 

O eleitor pode usar sua própria camisa para declarar apoio. O candidato não pode sair vestindo a torcida inteira.

 

No caso do Cidade, a magistrada também apontou a possível ausência de dados obrigatórios, como identificação do responsável pela confecção, do contratante e da tiragem.

 

O boné que deveria proteger do sol acabou jogando a campanha debaixo de um refletor.

 

MARIA ENXOFRE DO CARMO DESCOBRIU UM CAMINHO

 

As representações que provocaram algumas dessas decisões foram apresentadas pela coligação “Mudar é Urgente”, formada por PL e Novo e ligada à candidatura da Maria Enxofre do Carmo.

 

A campanha da Maria Enxofre parece ter identificado uma estratégia: enquanto o Cidade utiliza sua presença no governo para mostrar obras e serviços, os advogados do PL acompanham cada vídeo, cada visita e cada material distribuído.

 

Se encontrarem indício de irregularidade, levam o caso ao TRE-AM. É uma forma de atacar a maior vantagem do Cidade: a máquina estadual.

 

A leitura que eu faço é que Maria Enxofre tenta empurrar o Cidade para uma escolha desconfortável.

 

Se o Cidade aparecer demais nas estruturas do Estado, corre risco jurídico. Se reduzir as aparições, perde a oportunidade de explorar eleitoralmente a visibilidade do cargo.

 

É como convidar o adversário para dançar em cima de um piso cheio de ovos.

 

GOVERNADOR OU CANDIDATO?

 

O Roberto Cidade acumula duas condições que, durante uma eleição, vivem em permanente conflito.

 

Como governador, ele precisa visitar obras, fiscalizar serviços, cobrar secretários e apresentar resultados.

 

Como candidato, não pode utilizar bens, funcionários ou estruturas públicas para favorecer sua campanha.

 

A lei não proíbe o governador de governar durante o período eleitoral. Também não exige que ele desapareça da vida pública.

 

O problema começa quando a atividade administrativa recebe linguagem, edição, trilha, enquadramento ou divulgação com finalidade eleitoral.

 

Na prática, cada visita pode produzir duas imagens. Una é institucional: o governador acompanhando uma política pública. A outra é eleitoral: o candidato utilizando o governo como cenário para pedir continuidade.

 

Quem decide onde está a fronteira é a Justiça. No caso, a Justiça Eleitoral.

 

Essa fronteira costuma mudar de lugar conforme o conteúdo, o ambiente, a forma de divulgação e as circunstâncias de cada caso.

 

A MÁQUINA PODE VIRAR VIDRAÇA

 

O Roberto Cidade precisa da estrutura estadual para reduzir a vantagem do Omar Aziz e superar a Maria Enxofre do Carmo e o David Almeida na briga pelo segundo turno.

 

O problema é que, quanto mais utiliza a visibilidade do governo, mais se expõe à fiscalização dos adversários e da Justiça Eleitoral.

 

O Omar pode explorar o discurso de que o Cidade tenta usar a máquina para compensar a falta de voto popular na chegada ao governo.

 

A Maria Enxofre já demonstra que pretende judicializar possíveis excessos.

 

O David, com a Prefeitura de Manaus sob comando di Renato Júnior, conhece muito bem a força e os riscos de uma estrutura administrativa em campanha.

 

O Cidade possui a maior máquina e também a maior vidraça.

 

A CAMPANHA PRECISA MUDAR O ROTEIRO

 

As decisões obrigam o grupo do governador a rever a produção de conteúdo.

 

Gravar dentro de escola, hospital ou obra pública fechada ao cidadão poderá abrir nova frente judicial. Distribuir material que pareça brinde também representa risco.

 

A campanha terá de separar com muito mais cuidado a agenda oficial da agenda eleitoral, as equipes do governo das equipes do candidato e a publicidade institucional da propaganda política. Isso parece simples no papel.

 

Na prática, governador em campanha acorda como administrador, almoça como candidato, inaugura como governador, discursa como candidato e termina o dia sem saber qual chapéu estava usando em cada fotografia.

 

No caso do Cidade, agora nem chapéu pode, dependendo de quem confeccionou e distribuiu.

 

CONCLUSÃO DE BASTIDOR

 

O Roberto Cidade tem orçamento, estrutura, aliados, prefeitos e a caneta do governo. A caneta, no entanto, vem acompanhada de câmera, adversário, advogado e juiz eleitoral.

 

As liminares não significam condenação definitiva. A campanha poderá se defender e tentar reverter as decisões.

 

Politicamente, porém, o alerta já foi dado.

 

A vantagem de estar no governo só funciona enquanto o eleitor consegue distinguir entrega administrativa de propaganda eleitoral. Quando essa divisão desaparece, a máquina deixa de empurrar e começa a puxar o candidato para trás.

 

O Cidade queria transformar as obras públicas em vitrine. Os adversários querem transformar a vitrine em prova judicial. E o TRE-AM avisou que está olhando os dois lados do vidro.

 

Na eleição de 2026, o Roberto Cidade descobriu que governar dá palanque… mas também dá processo.

 

*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.


Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.


Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.


Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.

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