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'SEGREDOS DE BASTIDORES': A MÁQUINA NÃO BASTOU: MARIA ENXOFRE PASSA O 'COCÔ DE OURO', OMAR ABRE 16 PONTOS E A GUERRA DO SEGUNDO TURNO COMEÇA
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

*Por Antônio Zacarias - Minha gente, a urna não conversa fiado, não acredita em carreata, não se impressiona com palanque lotado, não aceita pesquisa como ordem e não reconhece máquina pública como dona antecipada do voto.

 

O primeiro turno da eleição para o Governo do Amazonas deixou três recados duros.

 

Que recados? Anota aí.

 

O Omar Aziz confirmou a liderança e chegou ao segundo turno com boa vantagem.

 

A Maria Enxofre do Carmo atropelou as previsões que a colocavam fora da final.

 

O Roberto Cidade, o famoso “Cocô de Ouro”, descobriu da maneira mais dolorosa que ocupar o Governo do Estado não garante passagem automática para a próxima rodada.

 

Com todos os votos apurados, o Omar recebeu 841.846 votos, ou 40,63% dos válidos.

 

A Maria Enxofre conquistou 507.335 votos, equivalentes a 24,49%.

 

O Cidade terminou em terceiro, com 453.896 votos e 21,91%.

 

O David Almeida ficou em quarto, com 218.490 votos, ou 10,54%.

 

Agora o Omar e a Maria Enxofre disputarão o Governo do Amazonas no dia 25 de outubro. E o segundo turno começou com uma pergunta circulando em todos os comitês: Para onde irão os 672.386 votos do Cidade e do David?

 

A URNA FALOU

 

O Omar chegou em primeiro. Isso já era esperado. A novidade foi o tamanho da vantagem. Foram 334.511 votos a mais que a Maria Enxofre. Uma diferença de 16,14 pontos percentuais. Não é pouca coisa.

 

O Omar entra no segundo turno com a maior votação, a maior presença no interior e uma aliança política que elegeu o Eduardo Braga como o senador mais votado do Amazonas.

 

Mas cuidado. Ele não venceu no primeiro turno. Isso significa que 59,37% dos votos válidos foram dados a outros candidatos.

 

O Omar começa na frente. Não começa eleito.

 

MARIA ENXOFRE PASSOU O CIDADE

 

A briga mais apertada não foi pelo primeiro lugar, foi pela segunda vaga.

 

A Maria Enxofre terminou apenas 53.439 votos à frente do Roberto Cidade. Uma vantagem de 2,58 pontos percentuais.

 

Durante a campanha, diferentes pesquisas colocaram o Cidade no segundo turno.

 

Uma delas, divulgada na véspera da eleição, mostrava o Cocô de Ouro quase dez pontos à frente da Maria Enxofre. Outra boca de urna também projetava uma final entre o Omar e o Cidade.

 

A urna entregou outro resultado. A Maria Enxofre não apenas passou o Cidade.

 

Passou o governador sentado na cadeira, comandando secretarias, programas, eventos, obras e uma ampla rede de aliados.

 

É a grande surpresa política deste primeiro turno.

 

A MÁQUINA FALHOU

 

Calma. A máquina estadual não é inútil. Ela garante visibilidade, produz agenda, atrai aliados, aproxima prefeitos, coloca o governador diariamente no noticiário, mas máquina não faz milagre.

 

O Cocô de Ouro venceu em apenas seis municípios: Autazes, Barcelos, Borba, Manicoré, Maués e Nova Olinda do Norte.

 

Justamente cidades onde contava com o apoio dos atuais prefeitos.

 

O Omar venceu em 53 municípios.

 

A Maria Enxofre ficou na frente em três: Apuí, Humaitá e Manaus.

 

Esse mapa desmonta uma velha certeza dos bastidores: prefeito apoiando não significa eleitor obedecendo.

 

O prefeito pode montar o palanque, organizar reunião, chamar liderança, pedir voto. Na cabine, porém, o eleitor fica sozinho. E ali não entra secretário, governador, prefeito nem cabo eleitoral.

 

OMAR TAMBÉM TINHA MÁQUINA

 

Existe outro detalhe que precisa ser dito. O Cocô de Ouro possuía a estrutura formal do Governo do Estado, mas o Omar construiu sua própria engrenagem política no interior.

 

Dos 62 prefeitos amazonenses, 49 apoiavam abertamente o senador. Desde 2023, o Omar destinou mais de R$ 242 milhões em emendas individuais aos municípios do interior do estado.

 

Portanto, não foi exatamente um candidato sem estrutura enfrentando um candidato com estrutura.

 

Foi a máquina estadual do Cidade contra a rede municipal e federal montada pelo Omar.

 

Nesse duelo, o Omar venceu com folga. O senador trabalhou o interior durante meses.

 

Conversou com prefeitos, distribuiu emendas, construiu alianças. E chegou ao domingo com uma capilaridade que o Cidade não conseguiu igualar, apesar de comandar o Governo.

 

MANAUS EMPURROU A MARIA ENXOFRE

 

Se O Omar dominou o interior, a Maria Enxofre encontrou sua grande força em Manaus.

 

Mais de 73% dos votos recebidos pela candidata, na apuração quase concluída, vieram da capital.

 

No caso do Omar, o interior representava aproximadamente 57% de sua votação. É uma divisão política muito clara.

 

O Omar chega carregado pelo interior. A Maria Enxofre chega impulsionada pela capital. E Manaus reúne mais da metade do eleitorado estadual.

 

A candidata do PL conseguiu transformar a identidade conservadora de uma parcela expressiva do eleitorado manauara numa força maior do que a estrutura política do Cidade.

 

Ela não tinha 49 prefeitos, não comandava o Governo, não controlava secretarias, mas possuía uma marca ideológica facilmente reconhecida.

 

No domingo, isso valeu mais do que muita fotografia com liderança municipal.

 

O VOTO DA DIREITA

 

A Maria Enxofre representa o campo bolsonarista no Amazonas.

 

O Omar é o candidato ligado ao presidente Lula.

 

Portanto, o segundo turno estadual já nasce conectado à disputa presidencial.

 

Não será apenas o Omar contra a Maria Enxofre. Será também o palanque do Lula contra o palanque do Flávio Bolsonaro no Amazonas. A configuração amazonense já aparece entre os confrontos estaduais em que os dois campos presidenciais terão aliados diretos no segundo turno.

 

A Maria Enxofre tentará transformar a eleição numa escolha ideológica: direita contra esquerda. Bolsonarismo contra lulismo.Mudança contra velha política.

 

O Omar tentará puxar o debate para outro terreno: experiência, articulação, resultados, aliança com prefeitos.

 

O jogo será decidir qual pergunta o eleitor responderá.

 

Se a pergunta for “Lula ou Flávio?”, Maria Enxofre cresce. Se for “quem conhece melhor o Amazonas e possui mais força para governar?”, o Omar entra no debate com vantagem.

 

CIDADE VIROU TROFÉU

 

O Roberto Cidade perdeu a eleição, mas não perdeu importância. Seus 453.896 eleitores formam agora o maior bloco disponível fora das duas candidaturas finalistas.

 

A Maria Enxofre já falou publicamente em reconstruir pontes com o Cidade e o David. Não descartou conversa, embora tenha lembrado os ataques recebidos dos dois durante o primeiro turno.

 

É aí que a política fica interessante. Durante a campanha, o Cocô de Ouro e a Maria Enxofre trocaram acusações.

 

Houve propaganda retirada. Direito de resposta. Processo eleitoral. Ataque pessoal. Desconfiança.

 

Agora a Maria Enxofre precisa olhar para o Cidade e enxergar não apenas o adversário que bateu nela. Precisa enxergar quase meio milhão de votos. Política tem dessas coisas.

 

A ponte quebrada na sexta-feira pode virar passagem obrigatória na segunda.

 

APOIO NÃO TRANSFERE VOTO

 

Existe, porém, uma diferença entre apoio e transferência.

 

O Cocô de Ouro pode declarar apoio a Maria Enxofre, pode apoiar o Omar, pode liberar os aliados, pode permanecer neutro, mas não pode colocar 453 mil votos numa caixa e entregar ao candidato escolhido.

 

Eleitor não é propriedade de político. A mesma regra vale para o David. Seus 218.490 votos possuem origens diferentes.

 

Há eleitores ligados à antiga gestão de Manaus. Há votos de oposição ao Governo do Estado. Há gente que rejeita tanto o Omar quanto a Maria Enxofre.

 

Há eleitores mais próximos do centro, da direita e de grupos municipais. Portanto, o verdadeiro desafio não é conseguir fotografia com o candidato derrotado. É convencer quem votou nele.

 

DAVID SAI MENOR

 

O David Almeida entrou na campanha tentando apresentar-se como opção de mudança. Saiu com 10,54%.

 

É uma derrota pesada para quem deixou a Prefeitura de Manaus e imaginava disputar o comando do Estado.

 

O David reconheceu o resultado e desejou uma campanha de segundo turno limpa, respeitosa e propositiva, mas não anunciou apoio imediato.

 

Sua posição será observada. Se apoiar o Omar, poderá alegar que escolheu experiência e articulação.

 

Se apoiar a Maria Enxofre poderá embarcar no discurso da mudança.

 

Se ficar neutro, tentará preservar seu grupo. Mas a neutralidade também possui custo.

 

Quem pretende continuar relevante precisa mostrar posição quando a eleição apresenta apenas dois caminhos.

 

CIDADE SEGURA O JOGO

 

O Cidade reconheceu a derrota, cumprimentou o Omar e a Maria Enxofre e afirmou que seguirá trabalhando até o fim do mandato.

 

Não indicou, naquele primeiro pronunciamento, qual caminho adotará no segundo turno. Faz sentido esperar.

 

O governador precisa conversar com o União Brasil, com Wilson Lima, com Serafim Corrêa, com os prefeitos, com os deputados eleitos, com os grupos que participaram de sua campanha. E também precisa pensar no próprio futuro.

 

Apoiar a Maria Enxofre significaria reforçar o campo da direita e tentar derrotar o Omar.

 

Apoiar o Omar poderia reconstruir pontes com um adversário experiente e com forte ligação federal.

 

Ficar neutro evitaria um compromisso imediato, mas diminuiria seu peso na fase decisiva.

 

O Cidade perdeu a vaga. Agora disputará o papel de fiel da balança.

 

MARIA PRECISA DO INTERIOR

 

O maior problema da Maria Enxofre está no mapa. Ela venceu apenas em três municípios. Um deles, porém, é Manaus.

 

Isso garante base eleitoral forte, mas não basta para governar um Estado de dimensões continentais.

 

A Maria Enxofre precisará entrar no interior rapidamente, mostrar propostas para transporte, saúde, energia, produção, segurança, comunicação e abastecimento.

 

Não poderá depender apenas do voto ideológico da capital.

 

O Omar venceu em 53 municípios. Para reduzir a diferença, a Maria Enxofre precisa transformar apoio bolsonarista em presença regional.

 

Precisa de prefeitos. Lideranças comunitárias. Vereadores. Candidatos derrotados. E, principalmente, de uma mensagem que funcione fora de Manaus.

 

A Maria Enxofre afirmou que manterá as viagens e as conversas com a população dos municípios.

 

Agora terá apenas vinte dias para fazer o que o Omar construiu durante mais de um ano.

 

OMAR PRECISA DE MANAUS

 

O problema do Omar é o inverso. Dominou o interior, mas não pode entregar Manaus à adversária.

 

A capital concentra mais da metade do eleitorado estadual e tende a responder com maior força aos discursos nacionais e ideológicos.

 

O Omar precisará diminuir a vantagem da Maria Enxofre entre os manauaras.

 

Terá de falar de saúde, segurança, emprego, mobilidade urbana, Zona Franca, custo de vida.

 

O Omar anunciou que pretende reunir seus aliados municipais e buscar diálogo com os grupos derrotados no primeiro turno.

 

É a estratégia lógica. Segurar onde ganhou. Crescer onde perdeu.

 

A DIREITA TEM RESERVA

 

O resultado do Senado trouxe outro aviso. O Capitão Alberto Neto, candidato do PL, recebeu 909.155 votos, embora tenha terminado fora das duas vagas.

 

Não se pode comparar diretamente esse número com a disputa de governador, pois cada eleitor podia votar em dois candidatos ao Senado.

 

Mesmo assim, a votação mostra que existe um eleitorado de direita enorme e mobilizado no Amazonas.

 

A Maria Enxofre tentará puxar essa energia para sua campanha.

 

O Alberto Neto deverá ocupar espaço importante no palanque. O Flávio Bolsonaro também tende a entrar com força.

 

O segundo turno oferece ao PL a oportunidade de unir eleitores que, na primeira rodada, estavam divididos entre a Maria Enxofre, o Cocô de Ouro, o David e outros candidatos.

 

A missão do Omar será impedir essa reunificação.

 

OMAR NÃO PODE RELAXAR

 

O Omar saiu grande, mas o segundo turno pune excesso de confiança.

 

A vantagem de 16 pontos pode virar acomodação. Aliado pode achar que já ganhou. Prefeito pode reduzir o ritmo. Militância pode descansar. Candidato pode evitar confronto. É justamente aí que mora o perigo.

 

A Maria Enxofre possui espaço natural para crescer porque parte de 24,49%. Pode tentar incorporar o voto delo Cidade, pode conquistar eleitores de David, pode nacionalizar a campanha, pode apresentar-se como a candidata que enfrentará todo o sistema político montado pelo Omar.

 

O Omar precisa agir como líder, não como vencedor antecipado.

 

COMEÇOU OUTRA ELEIÇÃO

 

No primeiro turno, sete candidatos disputavam atenção. Agora restam dois.

 

O tempo de televisão muda. Os debates mudam. As alianças mudam. A comparação fica direta.

 

O eleitor que rejeitava o Omar podia escolher o Cocô de Ouro, a Maria Enxofre ou o David. Agora terá a Maria Enxofre.

 

Quem rejeitava a Maria Enxofre podia procurar vários caminhos. Agora terá o Omar.

 

Por isso, segundo turno não é simples continuação. É outra eleição.

 

O Omar carrega vantagem territorial, experiência e 841 mil votos.

 

A Maria Enxofre carrega Manaus, o voto ideológico da direita e a narrativa de ter vencido a máquina estadual.

 

Os dois possuem força, possuem problemas. E os dois precisarão disputar um eleitor que começou a campanha escolhendo outra pessoa.

 

CONCLUSÃO DE BASTIDOR

 

Minha gente, o primeiro turno derrubou certezas.

 

O Omar confirmou a liderança, recebeu 40,63% e venceu em 53 municípios.

 

A Maria Enxofre conquistou 24,49%, venceu em Manaus e passou o Cocô de Ouro por 53.439 votos.

 

O Cocô de Ouro, mesmo governador, terminou em terceiro com 21,91%. O David ficou distante, com 10,54%.

 

A máquina estadual não colocou o Cidade no segundo turno.

 

A rede de prefeitos do Omar funcionou melhor no interior. E a força ideológica da Maria Enxofre falou mais alto na capital.

 

Agora começa a caça aos votos dos derrotados. A Maria Enxofre procura reconstruir as pontes que a campanha quebrou.

 

O Omar chama os prefeitos e abre conversa com outros grupos.

 

O Cidade calcula quanto vale seu apoio. O David decide se escolhe um lado ou preserva distância.

 

Mas o maior erro seria acreditar que eleitor acompanha automaticamente o acordo feito por cima. Não acompanha.

 

Resumindo: oOmar ganhou o primeiro turno, a Maria Enxofre ganhou a vaga mais improvável e o Cidade perdeu justamente a disputa que a máquina parecia capaz de garantir.

 

O Omar entra favorito. A Maria Enxofre entra fortalecida. E os 672.386 eleitores do Cidade e do David entram como o prêmio mais cobiçado dos próximos vinte dias.

 

No primeiro turno, a pergunta era quem chegaria à final. Agora ficou simples:

 

O Omar conseguirá transformar domínio no interior em vitória estadual ou a Maria Enxofre transformará Manaus e o bolsonarismo numa virada histórica?

 

A urna já mostrou que não aceita roteiro pronto. No dia 25, mostrará quem aprendeu a lição.

 

*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.


Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.


Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.


Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.

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