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*Por Antônio Zacarias - Na política, há pesquisas que medem intenção de voto. E há pesquisas que medem viabilidade de poder.
A sondagem encomendada por Flávio Bolsonaro para avaliar o cenário político do Amazonas se encaixa justamente na segunda categoria. Mais do que números eleitorais, o que está em análise é a conveniência estratégica de uma aliança entre o PL e o grupo liderado por Roberto Cidade e Wilson Lima.
Nos bastidores, o levantamento é tratado como decisivo. A pergunta central não é apenas se Roberto Cidade cresce. É se ele cresce o suficiente para justificar uma composição nacionalmente relevante para o PL no Amazonas.
O TESTE DE VIABILIDADE
A leitura interna é pragmática: o PL não pretende entrar em alianças apenas por afinidade política ou conveniência momentânea. O partido quer avaliar se há densidade eleitoral capaz de sustentar um projeto competitivo em 2026. E, nesse contexto, Roberto Cidade virou peça-chave.
Caso a pesquisa aponte viabilidade política e recuperação de imagem, a tendência é de consolidação de uma aliança envolvendo PL, União Brasil e o grupo de Wilson Lima. Nesse desenho, a empresária Maria do Carmo apareceria como vice na chapa encabeçada por Cidade.
Mas, se os números não forem animadores, o cenário muda.
O PL pode recalibrar sua estratégia estadual e priorizar objetivos mais específicos, como a eleição de senador e deputados federais, evitando se comprometer diretamente com uma candidatura ao governo considerada de risco.
O PESO DO PASSADO RECENTE
Nos bastidores de Brasília, um fator continua sendo observado com atenção: o impacto político do desgaste sofrido por Roberto Cidade na reta final da eleição municipal de 2024.
A avaliação de setores ligados ao PL é de que episódios ocorridos naquele período, especialmente a crise envolvendo o entorno político de Parintins, acabaram atingindo indiretamente a imagem do então principal fiador político do grupo.
O resultado foi interpretado como um sinal de fragilidade eleitoral.
Internamente, há quem considere que Cidade saiu daquele processo marcado por um estigma de derrota, agravado pela percepção de que o governo estadual reagiu lentamente à crise e não conseguiu conter os danos políticos a tempo.
A REFORMA QUE NÃO CONVENCEU TOTALMENTE
A recente reforma administrativa promovida por Roberto Cidade também entrou no radar da análise política.
Embora tenha sido apresentada como reorganização de gestão, ainda existe dúvida sobre sua capacidade real de produzir impacto popular.
Nos bastidores, a interpretação predominante é que as mudanças tiveram efeito mais interno do que externo: reorganizaram a máquina, redistribuíram espaços de poder e acomodaram aliados, mas ainda não produziram uma narrativa capaz de alcançar fortemente a opinião pública.
Ou seja: houve movimento político, mas ainda não necessariamente conversão eleitoral.
A APOSTA NO PL
Existe, porém, um detalhe considerado revelador. Mesmo promovendo mudanças no secretariado, Roberto Cidade preservou três nomes ligados ao PL. O gesto foi interpretado como sinal claro de que ele mantém aberta, e viva, a ponte com o partido de Flávio Bolsonaro.
Na linguagem da política, ninguém mantém espaços estratégicos ocupados por aliados sem objetivo futuro.
A manutenção desses quadros indica que Cidade aposta fortemente na construção da aliança e evita qualquer movimento que possa ser interpretado como rompimento antecipado.
O SILÊNCIO COMO SINAL
Outro elemento chama atenção: o silêncio público das lideranças envolvidas.
Nem o PL nacional, nem Roberto Cidade, nem Wilson Lima têm tratado o tema de maneira explícita. E isso, na política, costuma significar que a negociação ainda está aberta.
Quando alianças estão definidas, os sinais aparecem. Quando ainda dependem de números, prevalece a cautela. E hoje, no Amazonas, os números dessa pesquisa talvez sejam mais importantes do que qualquer discurso.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
A pesquisa encomendada por Flávio Bolsonaro não mede apenas popularidade. Mede confiança política.
Ela servirá para responder uma pergunta estratégica para o PL: vale a pena embarcar integralmente no projeto de Roberto Cidade ou é mais seguro limitar a aliança a objetivos proporcionais e ao Senado?
No fundo, trata-se de uma decisão sobre risco eleitoral, pois, em política, alianças não sobrevivem apenas de proximidade. Elas sobrevivem da expectativa concreta de vitória. E é exatamente isso que o PL tenta descobrir agora no Amazonas.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.