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*Por Antônio Zacarias - Minha gente, anotem a data: 28 de setembro.
Quando faltarem apenas seis dias para o amazonense escolher seu próximo governador, cinco candidatos estarão frente a frente no debate da TV A Crítica.
Omar Aziz, Roberto Cidade, Maria Enxofre do Carmo, David Almeida e Cabo Daciolo.
O encontro está marcado para as 20h30 e terá transmissão pela televisão e pela internet. As regras foram acertadas nessa quarta-feira, 16 de setembro, em reunião com representantes das campanhas.
À primeira vista, parece apenas mais um debate. Não é.
A essa altura da campanha, com a disputa apertada e os institutos apresentando cenários diferentes sobre quem ocupa a segunda colocação, o debate pode se transformar na última grande oportunidade de alterar a percepção do eleitor antes da votação.
Traduzindo para o português sem frescura: quem estiver bem vai querer sair vivo; quem estiver atrás vai precisar partir para cima. E é aí que mora o perigo, minha gente.
CINCO ENTRAM, MAS CADA UM ENTRA NUMA ELEIÇÃO DIFERENTE
Embora estejam no mesmo estúdio, os cinco candidatos chegarão ao debate com necessidades completamente diferentes.
Que necessidades são essas, Zaca?, me pergunta você agora.
Acompanhe meu raciocínio:
Quem lidera precisa evitar erro; quem está crescendo precisa consolidar a reação; quem disputa a segunda vaga precisa derrubar o concorrente direto; quem está atrás precisa produzir um fato político; e quem possui pouco tempo de televisão precisa aproveitar cada segundo para ser lembrado.
É por isso que debate na reta final não é simplesmente discussão de propostas. É cálculo, é oportunidade para tentar conquistar de uma só vez muitas mentes e corações.
Há, porém, alguns riscos. Por exemplo: uma resposta mal formulada pode render três dias de vídeos nas redes. Uma gafe pode virar meme.
A PONTUAL MUDOU A TEMPERATURA DA CAMPANHA
O debate ganhou ainda mais importância depois da pesquisa Pontual divulgada na segunda-feira, 14.
O levantamento mostrou o Omar Aziz com 26,6% e o Roberto Cidade com 25,3%.
A diferença de 1,3 ponto está dentro da margem de erro, de 1,79 ponto percentual. Portanto, o levantamento apresenta os dois em empate técnico.
A Maria Enxofre do Carmo e o David Almeida aparecem atrás nesse levantamento.
Essa “sopa de números”, produzida pelos institutos de pesquisa (um diz uma coisa, outro diz outra) provocou uma confusão eleitoral do Amazonas.
A Veritá, divulgada no dia 10, mostrou o Omar com 33,4% dos votos válidos e a Maria do Carmo com 26,9%.
Já a Paraná Pesquisas divulgada no dia 5 registrou o Omar com 29,6%, o Roberto Cidade com 21,5%, a Maria Enxofre com 19,4% e o David com 16,8%. A margem de erro era de 2,7 pontos.
Portanto, ninguém deveria tratar pesquisa como resultado antecipado.
O conjunto delas, porém, deixa uma coisa evidente: a briga tá feia. E debate do dia 28 acontecerá quando praticamente não houver mais tempo para consertar um desastre.
CIDADE TEM UMA MISSÃO: PROVAR QUE CHEGOU PARA FICAR
A Pontual entregou ao Roberto Cidade aquilo que todo candidato deseja na reta final: uma narrativa.
Ele pode entrar no estúdio dizendo que alcançou a liderança numérica do Omar dentro da margem de erro.
Politicamente, isso muda sua postura. Psicologicamente, é como se ele tivesse recebido uma injeção de dopamina.
O Cidade não precisa mais se apresentar apenas como candidato que tenta chegar ao segundo turno. Pode tentar se apresentar como candidato que disputa a ponta.
Há aí, no entanto, uma armadilha, pois o quanto mais o candidato cresce, mais vira alvo.
A Maria Enxofre, por exemplo, precisa atacar o Cidade porque disputa com ele espaço para avançar.
O David também precisa atacá-lo.
E o Omar?
O Omar terá motivos para confrontá-lo se o Cidade insistir na narrativa de que a eleição virou uma disputa entre os dois.
Nesse caso, o Cidade pode entrar no debate como caçador e descobrir que virou caça.
DAVID PRECISA PRODUZIR O MOMENTO DA NOITE
Talvez ninguém chegue ao debate precisando tanto de um grande desempenho quanto O David Almeida.
As pesquisas recentes não têm sido confortáveis para ele.
Na Paraná, ele apareceu com 16,8%. Na Quaest divulgada em agosto, tinha 15%, num cenário em que o Omar marcava 26%, o Cidade 18% e a Maria Enxofre 16%.
Isso não significa que o David esteja fora da disputa. Afinal, pesquisa mede aquele momento.
Mas significa que, faltando poucos dias para a eleição, ele precisará criar um momento capaz de recolocá-lo no centro da conversa. E debate é terreno perfeito para isso.
OMAR POSSUI UM PROBLEMA DIFERENTE
O Omar aparece numericamente à frente em diferentes pesquisas recentes, embora a vantagem varie bastante conforme o instituto.
Portanto, sua missão no debate é diferente. Ele não precisa produzir espetáculo.
O que ele precisa é apresentar propostas, defender sua trajetória e responder aos questionamentos dos adversários sem permitir que o debate seja transformado numa sucessão de provocações pessoais.
Quem ocupa posição competitiva numa eleição corre um risco clássico: aceitar a briga que interessa ao adversário.
O candidato que está atrás precisa de confusão. Já quem está bem colocado precisa de previsibilidade.
É a velha lógica do futebol: quem precisa do resultado se lança ao ataque. Quem está em situação confortável não deve entregar contra-ataque de graça.
Concorda comigo, perspicaz leitor?
E TEM CABO DACIOLO
Não subestimem Cabo Daciolo num debate.
Independentemente de seu desempenho nas pesquisas, ele possui experiência em televisão, discurso próprio e uma característica que pode alterar completamente o roteiro: é imprevisível.
Daciolo não precisa obedecer à estratégia dos quatro principais candidatos. Afinal, ele está preso à guerra particular entre o Omar, o Cidade, a Maria Enxofre e o David.
Daciolo pode atacar qualquer um. De repente, não mais que de repente, como diria Vinícius de Moraes, Daciolo pode lançar assunto inesperado e transformar um bloco inteiro numa discussão que nenhum marqueteiro havia preparado.
Todo marqueteiro sabe que candidato imprevisível é pesadelo para equipe de preparação.
Você treina resposta para saúde. Ele pergunta outra coisa. Treina economia. Ele muda o assunto. Treina segurança. Ele traz um tema que ninguém colocou na pauta.
Num debate apertado, basta uma pergunta inesperada para desmontar uma resposta ensaiada durante uma semana.
AS REGRAS FAVORECEM O CONFRONTO
Segundo as regras divulgadas pela TV A Crítica, o debate terá quatro blocos.
Haverá perguntas de tema livre feitas entre os próprios candidatos, perguntas formuladas por jornalistas da emissora e confrontos com temas definidos por sorteio.
Isso significa que haverá espaço real para candidato escolher adversário. E aí começa o jogo dentro do jogo.
Quem pergunta para quem?
Essa escolha diz muito.
Se a Maria Enxofre escolher o Cidade repetidamente, estará revelando quem considera seu adversário direto.
Se o David concentrar fogo no Cidade, mesma coisa.
Se o Cidade escolher o Omar, tentará reforçar a ideia de confronto direto pela liderança.
Se vários escolherem o mesmo candidato, o eleitor perceberá imediatamente quem está sendo tratado como principal ameaça.
Portanto, antes mesmo das respostas, observem as perguntas.
Às vezes, a escolha do adversário revela mais do que a pergunta.
A GUERRA DAS PESQUISAS VAI ENTRAR NO ESTÚDIO
Mesmo que ninguém pergunte diretamente, as pesquisas estarão sentadas numa cadeira invisível dentro do debate.
O Cidade poderá usar a Pontual para dizer que encostou no Omar.
A Maria Enxofre poderá recorrer à Veritá, na qual aparece na segunda colocação.
O Omar poderá lembrar que aparece numericamente à frente em levantamentos recentes de diferentes institutos.
O David tentará demonstrar que a eleição ainda está aberta.
Cada um escolherá o retrato em que ficou mais bonito. É natural.
O eleitor, no entanto, precisa entender que pesquisa não é álbum de campanha e quê metodologias, períodos de coleta e amostras variam.
Por isso, comparar números de institutos diferentes exige cuidado. Muito cuidado.
O que interessa no debate não é candidato recitar percentual e, sim, explicar o que pretende fazer com o voto que está pedindo.
O ELEITOR PRECISA COBRAR O AMAZONAS REAL
Tomara que o debate não vire apenas troca de acusações. Tô torcendo por isso.
O Amazonas possui problemas urgentes demais para desperdiçar duas horas discutindo apenas quem é amigo de quem.
Quero ouvir como enfrentarão a seca, como pretendem reduzir filas na saúde, o que farão pela segurança pública, como desenvolverão o interior, como defenderão a Zona Franca, como enfrentarão o custo logístico, o que pretendem fazer com a BR-319, como vão melhorar a educação, de onde virá o dinheiro para as promessas e, principalmente, o que farão nos primeiros cem dias de governo?
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, o debate da TV A Crítica acontece em 28 de setembro.
Seis dias depois, o Amazonas vota. Portanto, não haverá muito tempo para pedir desculpa, não haverá muito tempo para corrigir frase, não haverá muito tempo para mudar estratégia.
O Cidade chegará querendo mostrar que seu crescimento é real.
A Maria Enxofre precisará provar que possui uma candidatura estadual que vai além da guerra ideológica nacional.
O David precisará produzir um fato político capaz de recolocá-lo no centro da eleição.
O Daciolo terá liberdade para bagunçar o roteiro de todo mundo.
E o Omar precisará administrar uma posição competitiva sem cair nas armadilhas que certamente serão montadas ao seu redor.
A verdade é só uma: no dia 28, ninguém entrará naquele estúdio apenas para debater.
O Cidade entrará para consolidar.
A Maria Enxofre para avançar.
O David, para sobreviver.
O Daciolo, para surpreender.
E o Omar, para defender seu espaço.
Quando as luzes apagarem, talvez ninguém tenha vencido a eleição. Mas alguém poderá ter perdido, não é verdade?
Afinal, a seis dias da urna, minha gente, uma noite ruim dura muito mais do que duas horas.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.