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*Por Antônio Zacarias - Minha gente, falta apenas um dia para os amazonenses escolherem quem vai governar o Estado pelos próximos quatro anos.
Nesta reta final da campanha, dois escândalos envolvendo a Fametro, instituição pertencente à candidata Maria Enxofre do Carmo, do PL, ganharam destaque.
O primeiro envolve operações financeiras de quase R$ 200 milhões, denunciadas publicamente pelo empresário da educação Waldery Areosa, reitor do Ciesa, na última terça-feira.
O segundo escandaloso foi levado pelo Omar Aziz ao debate de quinta-feira: uma sentença criminal envolvendo o pagamento de contas particulares de da Fametro, com recursos da Secretaria de Estado da Educação, a Seduc.
São dois episódios distintos, mas que levantam questionamentos sobre a gestão da instituição apresentada por Maria Enxofre do Carmo como exemplo de sua competência administrativa.
A DÍVIDA MILIONÁRIA
Esta coluna já abordou a denúncia feita por Waldery Areosa, mas o assunto merece voltar ao noticiário na véspera da eleição. Concordam comigo, caro leitor, caríssima leitora?
Segundo o empresário, a Fametro contraiu empréstimos de quase R$ 200 milhões e não está conseguindo pagar sequer os juros mensais, algo em torno de R$ 4 milhões.
Desse montante, de quase R$ 200 milhões, aproximadamente R$ 166,8 milhões estariam relacionados a certificados de recebíveis imobiliários, os chamados CRIs.
O restante corresponderia a uma emissão de notas comerciais.
Waldery disse que, com os encargos, a dívida já chega a R$ 251 milhões.
O ALERTA DOS CREDORES
Segundo os documentos apresentados pelo Waldery, em 26 de maio deste ano a Oliveira Trust, representante de investidores, notificou o descumprimento de uma obrigação financeira vencida no dia anterior.
A Fametro teria recebido prazo para regularizar o pagamento, sob risco de vencimento antecipado da operação.
Em setembro, foi apresentada uma proposta para modificar o calendário de pagamentos.
A ideia seria pagar somente os juros durante setembro, outubro e novembro, deixando a amortização do principal para outro momento.
DEPOIS DA ELEIÇÃO
As assembleias de credores realizadas em 21 de setembro, 7 de outubro e 16 de outubro não teriam concluído as negociações.
Uma nova reunião ficou marcada, segundo as informações divulgadas, para 4 de novembro.
Reparem na data, minha gente: dez dias depois do segundo turno da eleição.
Estranhíssimo, né?
MENSALIDADES EM GARANTIA
Outro detalhe da denúncia feita pelo Waldery merece atenção.
Segundo Waldery, receitas de matrículas e mensalidades da Fametro foram oferecidas como garantia do empréstimo de quase R$ 200 milhões. Inclusive recebíveis relacionados aos estudantes de Medicina. Também aparecem imóveis e valores provenientes de cartões de crédito.
Maria Enxofre, segundo atestam documentos mostrados por Waldery,é fiadora solidária, juntamente com familiares e empresas ligadas ao grupo.
E OS ESTUDANTES?
A pergunta que preocupa é simples: o que acontecerá se a Fametro não conseguir cumprir suas obrigações?
Waldery não tem dúvida: a Fametro vai fechar as portas.
Os alunos, professores e funcionários têm o direito de saber qual é a situação real da instituição. Tem ou não tem?
A COMPETÊNCIA QUESTIONADA
A Maria Enxofre apresenta sua trajetória empresarial como uma das principais credenciais para governar o Amazonas.
A denúncia do Waldery Areosa, entretanto, introduziu questionamentos sobre essa imagem, a de empresária bem-sucedida, experiente, competente — preparada, portanto, para governar o Amazonas.
Afinal, as parcelas vencidas foram regularizadas? Os credores aceitaram as propostas de renegociação? Qual é o saldo efetivamente devido? E quais providências foram adotadas para assegurar a continuidade das atividades da Fametro?
São perguntas que merecem respostas acompanhadas de documentos.
Em vez disso, a Maria Enxofre preferiu o silêncio. Até o momento nenhuma explicação, nenhuma palavra.
A BOMBA D0 OMAR
Como se o escândalo financeiro não bastasse, o Omar Aziz levou ao debate de quinta-feira um episódio judicial envolvendo contas de energia elétrica da Fametro.
Segundo as informações da ação penal nº 0210581-22.2011.8.04.0001, um esquema identificado em 2011 permitia inserir faturas particulares entre despesas pagas pela Seduc.
O Estado pagava contas de energia de imóveis alugados para funcionamento de escolas públicas.
Nesse meio, eram incluídas contas da Fametro que não deveriam ser custeadas pelo contribuinte, mas foram.
A CONTA DE R$ 70 MIL
Um dos envolvidos no processo é Cristiano Lúcio Torres Lira, identificado como funcionário da tesouraria da Fametro.
Segundo depoimento reproduzido na ação, ele entregou uma conta de energia elétrica de aproximadamente R$ 70 mil para pagamento. A fatura voltou quitada.
Em contrapartida, cerca de R$ 35 mil teriam sido repassados ao intermediário. Ou seja: a Fametro “lucrou” R$ 35 mil.
A JUSTIÇA CONDENOU
Segundo as informações da sentença divulgada, no dia 5 de outubro deste ano a 2ª Vara Criminal de Manaus julgou parcialmente procedente a ação penal.
Cristiano Lúcio Torres Lira recebeu pena de quatro anos, seis meses e cinco dias de reclusão por peculato continuado.
Milton Braga Rola Neto, apontado como intermediário, foi condenado a cinco anos e cinco meses por peculato e corrupção passiva.
Outros três réus também foram condenados.
QUEM SABIA?
Minha gente, a pergunta que surge é inevitável.
Como contas particulares da Fametro acabaram incluídas num esquema de pagamentos com recursos públicos?
Quem fiscalizava essas operações?
Quais eram os controles administrativos da instituição?
Que providências foram tomadas depois da descoberta das irregularidades?
Sabe que providências foram tomadas até hoje pela Maria Enxofre? Nenhuma.
Agora me respondam, caro leitor, caríssima leitora: a Maria Enxofre sabia ou não sabia de tudo?
O DISCURSO E OS FATOS
É justamente aqui que os dois assuntos se encontram.
De um lado, operações financeiras de quase R$ 200 milhões, acompanhadas de questionamentos sobre inadimplência e renegociação.
Do outro, uma sentença criminal envolvendo o pagamento irregular de despesas particulares relacionadas à Fametro com dinheiro público.
Não existe demonstração de ligação entre os dois episódios, mas ambos suscitam perguntas sobre a administração da Fametro que a Maria Enxofre apresenta como exemplo de sua experiência empresarial.
OMAR EXPLOROU A CONTRADIÇÃO
Politicamente, o Omar Aziz escolheu um assunto sensível para confrontar sua adversária.
Atingiu um dos principais argumentos utilizados pela Maria Enxofre durante a campanha: a imagem de administradora competente.
O questionamento não diz respeito apenas à capacidade de dirigir uma empresa. Diz respeito à transparência, aos controles administrativos e à disposição de prestar contas.
Afinal, quem pretende governar o Amazonas precisa estar preparada para responder sobre sua própria experiência de gestão.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, esta coluna voltou ao assunto porque os fatos apresentados são relevantes demais para desaparecer do debate público a apenas um dia da eleição.
Uma dívida empresarial de quase R$ 200 milhões merece explicações.
Notificações de credores e pedidos de renegociação também.
E uma sentença criminal envolvendo contas particulares da Fametro pagas irregularmente com dinheiro da educação pública exige esclarecimentos ainda mais rigorosos.
Afinal, administrar uma empresa não é a mesma coisa que governar um Estado. Entretanto, responsabilidade financeira, transparência e fiscalização são exigências fundamentais nas duas atividades.
Resumindo: o Omar Aziz levou ao debate uma controvérsia judicial que envolve a Fametro.
O Waldery Areosa trouxe a público denúncias sobre o endividamento da instituição.
Waldery fez cair a máscara da Maria Enxofre, que se apresenta ao eleitor como empresária competente, pronta para governar o Amazonas.
No domingo, os amazonenses decidirão quem governará o Estado.
Essa decisão merece ser tomada com informações, documentos e respostas, não apenas com discursos eleitorais, pois quem pretende administrar bilhões de reais do dinheiro dos amazonenses precisa demonstrar, acima de tudo, competência, responsabilidade e disposição para prestar contas.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.