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BASTIDORES DA POLÍTICA
*Por Antônio Zacarias - Apesar do discurso público de tranquilidade, o clima nos bastidores da Assembleia Legislativa do Amazonas está longe de ser confortável.
Deputados estaduais já começaram a demonstrar preocupação real com a eleição de 2026. E o motivo vai muito além da disputa tradicional entre grupos políticos. O que assusta agora é o avanço de um fenômeno que vem mudando silenciosamente o jogo eleitoral no Amazonas: o poder das redes sociais aliado ao crescimento de novas figuras populares fora da política tradicional.
Policiais, influenciadores digitais, líderes religiosos e comunicadores populares passaram a ocupar um espaço que antes pertencia quase exclusivamente aos políticos profissionais. E isso começou a gerar tensão dentro da ALEAM.
O MEDO DA RENOVAÇÃO
Nos bastidores, muitos deputados avaliam que a próxima eleição para a Assembleia poderá registrar um dos maiores índices de renovação dos últimos anos.
A preocupação não é exagerada. As redes sociais reduziram drasticamente a dependência de estruturas partidárias tradicionais. Hoje, um nome com forte alcance digital consegue falar diariamente com centenas de milhares de pessoas sem precisar de programa eleitoral, militância clássica ou grandes eventos políticos.
Isso alterou completamente a lógica de formação de capital político.
Antes, mandato forte significava controle de bases presenciais, lideranças comunitárias e articulações municipais. Agora, curtidas, vídeos virais e engajamento constante também passaram a produzir votos reais. E parte da velha política ainda parece não ter entendido isso completamente.
O AVANÇO DOS “CANDIDATOS DE NICHO”
Outro fator que assusta deputados estaduais é o crescimento de candidaturas extremamente segmentadas.
Policiais conquistam apoio explorando pautas de segurança pública. Líderes religiosos ampliam influência dentro de comunidades de fé. Comunicadores populares transformam audiência em capital eleitoral. Influenciadores digitais conseguem mobilizar jovens e eleitores despolitizados com enorme facilidade.
Nos bastidores, parlamentares admitem reservadamente que muitos desses nomes possuem hoje algo que a política tradicional perdeu parcialmente: conexão emocional direta com o público. E esse detalhe pesa muito numa eleição proporcional, pois diferentemente das eleições majoritárias, pequenas ondas de popularidade já podem ser suficientes para tirar cadeiras importantes da ALEAM.
A ILUSÃO DA TRANQUILIDADE
Publicamente, muitos deputados mantêm o discurso de confiança.
Falam em “trabalho consolidado”, “base fortalecida” e “experiência política”. Mas internamente, o cenário é de cautela crescente.
Há parlamentares reforçando presença digital às pressas, contratando equipes especializadas em redes sociais e tentando modernizar comunicação política depois de anos apostando apenas em estrutura tradicional.
O problema é que parte dessa reação talvez esteja chegando tarde.
As redes sociais criaram uma dinâmica brutal: visibilidade constante passou a valer quase tanto quanto articulação partidária. E quem não entende isso corre o risco de descobrir a mudança tarde demais — nas urnas.
O FANTASMA DO VOTO ANTISSISTEMA
Outro temor silencioso dentro da ALEAM é o crescimento do voto antissistema.
Muitos eleitores passaram a demonstrar rejeição automática contra políticos profissionais com muitos mandatos consecutivos. Isso abriu espaço para figuras que se apresentam como “outsiders”, mesmo quando possuem pouca experiência administrativa ou legislativa.
Nos bastidores, deputados observam com preocupação a força dessa narrativa, especialmente entre eleitores mais jovens e usuários intensivos de redes sociais. Isso porque, em momentos de desgaste político e crise de credibilidade institucional, discursos antipolítica costumam ganhar tração rapidamente.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
A eleição de 2026 poderá marcar muito mais do que uma simples renovação de cadeiras na Assembleia Legislativa.
Ela pode simbolizar uma mudança profunda na forma como o poder político é construído no Amazonas.
A velha política ainda possui estrutura, recursos e influência. Mas começa a perceber que isso talvez já não seja suficiente diante do avanço de candidatos que dominam redes sociais, comunicação emocional e conexão direta com o eleitor. E é justamente aí que mora o medo silencioso de muitos deputados estaduais: descobrir tarde demais que o algoritmo passou a disputar espaço com a política tradicional, e, em alguns casos, já começou a vencer.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.