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*Por Antônio Zacarias - Minha gente, a fumaça entrou de vez na campanha para o Governo do Amazonas.
E não entrou como metáfora, entrou pela janela, fechou escola, cancelou atividade ao ar livre, lotou farmácia, ardeu o olho, atacou o pulmão e deixou Manaus respirando um ar considerado perigoso.
Entre os dias 4 e 16 de outubro, o número acumulado de focos de calor no Amazonas saltou de 354 para 1.830. Um aumento de 416,9% depois do primeiro turno.
Agora Ibama, Polícia Federal, Polícia Civil e Ipaam investigam se parte dos incêndios pode ter motivação política.
Atenção: existe investigação. Ainda não existe prova pública de que o fogo tenha sido provocado para produzir efeito eleitoral.
O FOGO DISPAROU
Os dados utilizados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
Somente entre 4 e 16 de outubro, apareceram mais 1.476 focos de calor no estado.
O pior dia foi 10 de outubro. Foram 494 registros em apenas 24 horas.
Na Amazônia Legal, o movimento também chamou atenção.
A semana posterior à votação registrou 3.695 focos, quase o dobro dos 1.854 contabilizados na semana anterior.
Isso não é uma fogueira perdida no quintal, é uma explosão de incêndios numa região inteira.
MANAUS NÃO RESPIRA
Na manhã deste sábado, 17 de outubro, medições em Manaus passaram dos 400 microgramas de material particulado fino por metro cúbico de ar em diferentes monitoramentos. É o tipo de partícula capaz de entrar profundamente no sistema respiratório.
A cidade apareceu com qualidade do ar classificada como perigosa. A fumaça levou à suspensão de aulas e atividades externas.
O prefeito Renato Junior pediu ajuda às autoridades estaduais, federais e até internacionais, afirmando que o fogo está fora dos limites da capital.
Manaus produz uma parcela pequena dos focos, mas recebe a fumaça enviada pelo vento.
O incêndio acontece longe. A conta chega dentro de casa.
HÁ INVESTIGAÇÃO
O superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, confirmou a apuração sobre possível motivação política em parte das queimadas.
A investigação envolve órgãos ambientais e policiais.
Por quê? Porque o fogo cresceu muito logo depois do primeiro turno. Porque existem sinais de incêndios em áreas preservadas. E porque a Amazônia já enfrentou episódios de queimadas coordenadas para desafiar fiscalização e abrir terra.
Coincidência de datas, no entanto, não basta para condenar ninguém. É preciso localizar os focos, identificar proprietários e ocupantes, rastrear veículo, cruzar imagens de satélite, ouvir testemunhas, investigar grupos de mensagens e descobrir quem acendeu cada fogo.
NÃO É SÓ POLÍTICA
Seria irresponsável atribuir todos os incêndios à eleição. O Amazonas enfrenta estiagem, o El Niño reduziu chuvas e aumentou a temperatura, a mudança climática deixa a vegetação mais vulnerável, e outubro já faz parte do período crítico de queimadas.
Tudo isso facilita a propagação. Existe, porém, outro fato conhecido: grande parte dos incêndios florestais não nasce sozinha.
O fogo é frequentemente utilizado para limpar pasto, ocupar terra pública, esconder desmatamento ou preparar área para exploração econômica.
A seca espalha as chamas. Alguém, muitas vezes, risca o fósforo.
A ELEIÇÃO PEGOU FOGO
A crise ambiental virou munição eleitoral. A campanha ligada ao presidente Lula associa o aumento das queimadas à expectativa de afrouxamento da fiscalização numa eventual vitória de Flávio Bolsonaro.
Maria Enxofre, apoiada por Flávio, responde culpando Lula, Omar Aziz e governos anteriores pela falta de prevenção.
No sábado, Maria Enxofre publicou vídeo afirmando que promessas de combate ao fogo viraram fumaça.
Está no direito dela de cobrar, mas campanha não pode substituir investigação.
Nem todo incêndio pode ser colocado na conta de bolsonarista. Nem toda fumaça pode ser jogada no colo de Lula.
O criminoso possui nome. A polícia precisa encontrá-lo.
OMAR COBRA O AVIÃO
O Omar entrou no debate por outro caminho. Afirma que destinou, em 2023, uma emenda de R$ 15 milhões para o Governo do Amazonas comprar um avião de combate a incêndios. A aeronave não foi adquirida.
Segundo as informações divulgadas, o recurso não se transformou no equipamento previsto.
Enquanto isso, o Estado precisou alugar uma aeronave em meio à nova crise.
Essa história precisa ser esclarecida até o último centavo.
O dinheiro chegou? Ficou disponível durante quanto tempo? Por que a compra não foi realizada? Houve problema no projeto? A licitação fracassou? O valor era insuficiente? O recurso foi devolvido? Quem tomou a decisão?
WILSON PRECISA EXPLICAR
O Omar dirige a cobrança principalmente ao ex-governador Wilson Lima.
Foi durante a administração do Wilson que o dinheiro teria sido disponibilizado.
O Wilson deixou o governo em abril para disputar o Senado. Perdeu a eleição. Mas isso não apaga a responsabilidade administrativa.
Se havia R$ 15 milhões destinados a uma aeronave essencial, o governo precisa apresentar o processo inteiro.
BRIGADAS NOS 62
O Omar propõe criar brigadas de combate a incêndios nos 62 municípios, em parceria com as prefeituras.
Também fala em utilizar câmeras, drones, satélites e sistemas de alerta para antecipar a resposta.
Defende a compra de aeronaves próprias para enfrentar grandes focos.
É uma proposta mais detalhada que um simples pedido de reforço. Mas também precisa de orçamento.
Quanto custará manter 62 brigadas? Serão permanentes ou funcionarão somente na estiagem? Quem pagará os profissionais? Quem comandará as operações? Como impedir que equipamentos sejam abandonados depois da eleição?
AJUDA VIROU BRIGA
Governo estadual e Governo Federal já trocaram versões sobre o envio de apoio.
O Ministério do Meio Ambiente afirmou que o Amazonas havia solicitado ajuda em setembro, mas desistido após a redução temporária dos focos.
O comando dos Bombeiros estaduais, por outro lado, alegou dificuldade para obter as aeronaves desejadas.
Depois da nova piora, o Governo Federal mobilizou brigadistas e aviões para o Amazonas.
A FAB também iniciou operações de combate ao fogo.
Enquanto Brasília e Manaus discutiam quem pediu, quem negou e quem cancelou, a fumaça continuou chegando.
A população não quer guerra de ofício.
Quer água no fogo.
AVIÃO NÃO FAZ MILAGRE
A aeronave é importante.
Pode lançar grande quantidade de água, chega a regiões sem estrada, ajuda a impedir o avanço das chamas. Mas não resolve tudo.
Quando o incêndio já ganhou quilômetros, apagar se torna muito mais caro e difícil.
A BR-319 APARECE
Boa parte dos focos se concentra em áreas pressionadas pela ocupação humana e próximas aos corredores de expansão.
A região influenciada pela BR-319 merece atenção especial.
A estrada é necessária para reduzir o isolamento do Amazonas.
Mas não pode avançar sem fiscalização.
Asfalto sem presença do Estado pode facilitar o acesso de madeireiro ilegal, grileiro e incendiário.
A eleição gosta de falar sobre quantos quilômetros serão pavimentados.
Precisa falar também sobre quantos fiscais, bombeiros e policiais acompanharão essa transformação.
Estrada abre caminho. O Estado precisa chegar antes do crime.
FUMAÇA NÃO TEM PARTIDO
O Marcelo Ramos, coordenador da campanha de Lula em Manaus, associou politicamente as áreas de queimadas ao eleitorado bolsonarista.
A frase ajuda a campanha, não ajuda a investigação.
Existem criminosos de direita, de esquerda, sem ideologia e criminosos que acreditam apenas em dinheiro e impunidade.
Generalizar transforma eleitor em suspeito e enfraquece uma denúncia séria.
Da mesma forma, a Maria Enxofre não pode usar a fumaça apenas para bater no Lula enquanto ignora o histórico ambiental do grupo político do Flávio Bolsonaro.
O fogo exige menos torcida e mais prova.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, o Amazonas chegou ao sábado coberto por fumaça e cercado por perguntas.
Os focos de calor aumentaram 416,9% entre os dias 4 e 16 de outubro.
Manaus registrou níveis perigosos de poluição.
Aulas foram suspensas. Atividades externas foram canceladas. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias ficaram sob risco maior. E órgãos ambientais e policiais investigam se parte dos incêndios possui motivação política.
Até agora, essa motivação não está provada. Precisa ser investigada com rigor.
Maria Enxofre culpa a falta de planejamento do Lula, do Omar e governos anteriores. Promete mais bombeiros, policiais ambientais, brigadistas e equipamentos.
O Omar cobra o avião que deveria ter sido comprado com R$ 15 milhões destinados em 2023.
Promete brigadas nos 62 municípios, monitoramento tecnológico e aeronaves.
O Wilson Lima precisa explicar por que o equipamento não foi adquirido.
O Governo Federal precisa explicar cada etapa do envio de apoio.
O Governo do Estado precisa mostrar o que pediu, o que recebeu e o que fez.
Resumindo:
A fumaça virou arma de campanha porque os governos deixaram o problema crescer até entrar no horário eleitoral.
Agora a Maria Enxofre tenta colocar a culpa no Lula e no Omar.
O Omar tenta colocar a culpa no Wilson.
O Lula e o Estado trocam versões sobre a ajuda. Mas fumaça não lê postagem. Não assiste propaganda. Não respeita palanque.
A eleição será no dia 25. A próxima temporada de fogo virá depois.
Quem vencer terá de provar que possui mais do que discurso, avião prometido e vídeo de campanha.
Terá de apresentar comando. Dinheiro. Prevenção. Fiscalização. E resultado.
Porque, no Amazonas, minha gente, quem não consegue impedir que a floresta queime também não consegue impedir que a população respire o fracasso do governo.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.