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BASTIDORES DO PODER
*Por Antônio Zacarias - Nem articulação de consenso. Nem transição suave. No meio político amazonense, a repercussão sobre os rumos da gestão do governador-tampão Roberto Cidade, o Cocô de Ouro’, e seu histórico na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) ganha contornos de forte desgaste.
O debate em torno de sua capacidade administrativa e do uso dos recursos públicos centraliza as atenções dos analistas e adversários.
A acusação de que a Aleam enfrentou problemas básicos de manutenção e atrasos com prestadores de serviços durante sua presidência, somada a denúncias de suposto desvio de finalidade na publicidade institucional, desenha um cenário de vidraça exposta em pleno ano eleitoral.
Em política, imagem e gestão caminham juntas. Quando surgem episódios controversos, como o consumo de carne com ouro de 24 quilates em contraste com relatos de escassez de material de expediente na Aleam, o impacto na opinião pública é imediato e de difícil reversão.
O PESO DA AUSTERIDADE EM UM ESTADO SUPERAVITÁRIO
Oficialmente, o discurso do Cocô de Ouro caminha na linha da contenção de gastos e do ajuste fiscal, mas a estratégia de anunciar a suspensão de pagamentos a fornecedores com créditos pendentes anteriores a 2026 abriu uma crise de governabilidade.
Com um orçamento estadual estimado em R$ 38 bilhões para 2026, sendo R$ 8,2 bilhões destinados aos poderes e municípios, o argumento da escassez financeira encontra forte resistência técnica e política.
O Amazonas, historicamente um estado superavitário devido ao modelo da Zona Franca e à arrecadação de ICMS, vê seus credores questionarem a legalidade e a necessidade da medida.
A tese de que "a dívida é do Estado e não do governante da vez" está repercutindo nas associações empresariais. A recusa em honrar compromissos passados quebra o princípio da continuidade administrativa e acende o sinal vermelho no mercado fornecedor.
O IMPACTO DIRETO NA PONTA DO SERVIÇO PÚBLICO
Mais do que uma disputa contábil entre a Secretaria de Fazenda e as empresas, o anúncio do congelamento de pagamentos gera um efeito cascata que atinge diretamente os serviços essenciais.
Analistas políticos apontam que a suspensão de repasses resulta, na prática, em hospitais sem a devida manutenção, escolas com infraestrutura precária e paralisação de serviços terceirizados fundamentais.
A iminência do forte verão amazônico agrava o quadro, transformando a falta de climatização em salas de aula e unidades de saúde em um combustível eleitoral perigoso para o grupo que está no poder.
Quando a população começa a sentir o reflexo do embate fiscal no dia a dia, a narrativa de "responsabilidade fiscal" rapidamente perde sustentação popular.
O DETALHE MAIS REVELADOR
O ponto central que intriga os observadores da cena política não é apenas a decisão do calote em si, mas o momento em que ela ocorre. Governar um estado em ano eleitoral exige um equilíbrio fino entre o rigor fiscal e a manutenção dos serviços públicos operando em plena capacidade.
Ao comprar uma briga aberta com o empresariado local e, por consequência, colocar em risco o atendimento básico à saúde e à educação, o Cocô de Ouro assume um risco político altíssimo.
Isso demonstra ou um isolamento na tomada de decisões ou uma aposta arriscada de que o eleitorado não associará a deterioração dos serviços públicos às escolhas financeiras do Cocô de Ouro.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
As denúncias que acompanham a trajetória de Roberto Cidade, desde os embates na eleição da Mesa Diretora da Aleam em 2020 até o atual decreto de contingenciamento, mostram que a vidraça do governador-tampão está sob constante apedrejamento.
Em um cenário onde os recursos existem e o orçamento é bilionário, a discussão deixa de ser sobre a falta de dinheiro e passa a ser estritamente sobre a prioridade e a qualidade da gestão.
Entre os analistas políticos, o veredito é unânime: a sociedade e os órgãos de controle, como o Ministério Público, tendem a monitorar cada passo dessa execução orçamentária. Se a conta do calote chegar aos hospitais e às escolas, o preço político a ser pago nas urnas será cobrado com juros e correção monetária.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.