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SEGREDOS DE BASTIDORES
*Por Antônio Zacarias - Minha gente, toda vez que divulgam uma pesquisa eleitoral, começa a mesma conversa:
O Omar Aziz tem tanto, a Maria Enxofre do Carmo tem tanto, o Roberto Cidade subiu, o David caiu. Um está na frente, outro está empatado.
Existe porém uma pergunta que quase ninguém faz: Onde foram buscar esses eleitores?
Afinal, pesquisa não cai do céu. Alguém precisa sair de casa, escolher os lugares e decidir quem será entrevistado.
É justamente aí que mora a dúvida. Sabemos que Manaus tem mais de 1,4 milhão de eleitores. Tem bairro enorme, tem periferia distante, ramal, comunidade rural, localidade fluvial. Tem lugar onde ônibus quase não chega.
Será que as pesquisas estão ouvindo toda essa gente? Ou estão escutando apenas a parte de Manaus que é mais fácil de alcançar?
QUEM FOI OUVIDO?
Quando aparece uma pesquisa, recebemos o resultado pronto, não é verdade?
Fulano tem 30%, beltrano tem 20%, sicrano cresceu dois pontos. Ninguém, no entanto, explica claramente onde essas pessoas foram encontradas, quantas entrevistas foram feitas na Zona Norte, quantas na Zona Leste, quantas na Cidade de Deus, quantas em Santa Etelvina, quantas no Jorge Teixeira, quantas nos ramais, quantas nas comunidades rurais e fluviais?
Se não sabemos onde o eleitor foi ouvido, conhecemos apenas o número final. Não conhecemos a história daquele número.
NÃO ESTOU ACUSANDO NINGUÉM
Vamos deixar uma coisa muito clara: não estou dizendo que as pesquisas sejam falsas. Não estou acusando instituto algum de fraude.
Também não estou afirmando que os pesquisadores estejam deixando bairros de fora de propósito.
Para dizer uma coisa dessas, seria preciso analisar cada pesquisa, cada plano de trabalho e cada local visitado.
O que estou fazendo é uma pergunta. E pergunta não ofende, não é mesmo? Pelo menos não deveria ofender quem trabalha com seriedade.
Agora faço uma pergunta, que penso ser absolutamente legítima: As pesquisas estão representando de verdade a geografia eleitoral de Manaus?
Quem fez um trabalho bem-feito certamente terá como responder.
O GROTÃO TAMBÉM FICA DENTRO DE MANAUS
Quando a gente fala em eleitor de difícil acesso, muita gente logo imagina uma comunidade isolada no meio da floresta. Mas não é só isso.
O grotão também está dentro da cidade. Está nas periferias, nas ocupações, nos bairros que cresceram rapidamente, nos lugares onde vivem milhares de pessoas, mas onde o poder público chega pouco e a pesquisa talvez chegue menos ainda.
Vejam o tamanho da Cidade de Deus. Nos locais de votação considerados no levantamento da Justiça Eleitoral existem 38.478 eleitores aptos. Quase 40 mil eleitores!
Santa Etelvina apresenta uma situação parecida. São 35.467 eleitores nos locais relacionados.
Em apenas três locais de votação do Jorge Teixeira, aparecem 6.967 eleitores.
É muita gente, meus amigos e minhas amigas.
Gente que trabalha, que paga imposto, que pega ônibus lotado, que enfrenta posto de saúde sem médico. Gente que vota.
Essa população está aparecendo nas pesquisas na proporção correta? É isso que precisamos saber.
E A ZONA RURAL?
O levantamento também identificou 12.344 eleitores vinculados a localidades oficialmente classificadas como Zona Rural.
Pode parecer pouco diante de um eleitorado superior a 1,4 milhão, mas são mais de 12 mil votos.
Dependendo da disputa, podem fazer diferença. Além disso, esses eleitores vivem uma realidade completamente diferente da vivida por quem mora no Centro, no Parque Dez ou em Adrianópolis.
Pergunto: Como chegar até eles? Algum pesquisador chegou? Quantos foram entrevistados? Em quais comunidades?
Foi por telefone? Foi presencialmente? Essas pessoas entraram realmente na amostra ou foram representadas apenas por uma conta estatística
São perguntas simples. Por que não respondê-las?
DOIS MIL ENTREVISTADOS ONDE?
Minha gente, não adianta dizer apenas: “A pesquisa ouviu duas mil pessoas”.
Duas mil pessoas onde? É essa a questão.
Se o instituto ouviu muita gente nos lugares mais fáceis e pouca gente nas áreas mais distantes, pode haver um buraco no resultado.
O número total de entrevistas é importante, mas não resolve tudo. É preciso saber como essas entrevistas foram distribuídas.
Uma fotografia pode ter ótima qualidade, mas se o fotógrafo apontar a câmera apenas para um lado, metade da paisagem ficará de fora. Tô certo ou tô errado?
Com pesquisa eleitoral pode acontecer a mesma coisa. Concorda comigo?
MARGEM DE ERRO NÃO EXPLICA TUDO
Sempre que alguém questiona uma pesquisa, aparece um entendido dizendo: “Mas a margem de erro é de dois pontos”.
Tudo bem. Ocorre que a margem de erro não diz em quais bairros o instituto entrou. Assim como não diz se ouviu moradores da Cidade de Deus, não diz se chegou a Santa Etelvina, não diz se visitou ramais, não diz se conversou com eleitores das comunidades rurais e fluviais.
A margem de erro é importante, mas não é um atestado de que toda Manaus foi ouvida corretamente. Uma coisa não substitui a outra.
A LEI MANDA EXPLICAR
As regras eleitorais deste ano exigem mais transparência dos institutos.
As pesquisas precisam ser registradas no PesqEle. Devem informar como a amostra foi montada, quais critérios foram utilizados, quantas pessoas foram ouvidas, qual foi a área pesquisada, quais grupos entraram na amostra, como os números foram ajustados.
Há também exigências relacionadas aos setores censitários e ao perfil das pessoas entrevistadas.
Portanto, essas informações não deveriam permanecer escondidas num documento técnico que quase ninguém consegue encontrar ou entender.
Deveriam ser apresentadas de forma clara, direta, sem enrolação.
O TSE NÃO DÁ SELO DE QUALIDADE
Outro detalhe importante: muita gente pensa que, porque uma pesquisa foi registrada no TSE, ela foi examinada e aprovada pela Justiça Eleitoral.
Não é assim. O registro não significa que o TSE conferiu cada entrevista e garantiu que o resultado esteja correto.
A responsabilidade pelas informações e pelo trabalho realizado é do instituto.
O TSE recebe o registro. Os dados ficam disponíveis. E qualquer questionamento precisa seguir os caminhos previstos na legislação.
Portanto, não venham com essa conversa: “Está registrado no TSE, então ninguém pode questionar.”
Pode, sim. Questionar é legítimo. O que não pode é acusar sem prova.
O MAPA DOS ELEITORES JÁ EXISTE
A Justiça Eleitoral sabe onde o eleitor está. Sabe a zona eleitoral, o local de votação, a seção, o bairro. Sabe quantos eleitores estão vinculados a cada local.
Manaus possui centenas de locais de votação espalhados por toda a cidade.
Então, não é impossível fazer a comparação. De um lado, colocamos o mapa dos eleitores. Do outro, o mapa das entrevistas.
Depois, fazemos a pergunta:
A pesquisa foi onde o eleitor está? É disso que estou falando.
COLOQUEM AS INFORMAÇÕES NA MESA
Não precisa complicar. Basta cada instituto responder: Quantas entrevistas foram feitas em cada região de Manaus? Quais bairros foram visitados? Quais setores entraram na amostra? Como foram escolhidas as pessoas? Houve entrevistas nas grandes periferias? Houve coleta na Zona Rural? Alguma comunidade fluvial foi alcançada? As entrevistas foram presenciais, por telefone ou pela internet? Como foram compensadas as áreas em que os pesquisadores não conseguiram entrar?
Respostas claras, sem aquele palavreado técnico feito para o cidadão não entender coisa alguma.
Se o trabalho foi bem executado, o instituto deveria ter orgulho de mostrar.
QUEM GANHA E QUEM PERDE?
Agora vem a pergunta política: Se as periferias estiverem sendo pouco ouvidas, quem aparece maior do que realmente é?
E quem aparece menor? Omar? Maria Enxofre? Cidade? David?
Não sabemos, não é mesmo? E não devemos inventar uma resposta.
Também não podemos cair na conversa de que todo eleitor da periferia vota igual. Não vota. Não vota mesmo.
Morador da Zona Leste não pertence a candidato algum. Eleitor rural não é propriedade de político. Cada pessoa tem sua opinião.
A pesquisa precisa descobrir, não presumir.
PESQUISA NÃO É URNA
Pesquisa é um retrato daquele momento.
Pode mudar. Pode acertar, errar, mostrar uma tendência. Pode não perceber outra.
Depende de quem foi ouvido, de onde foi ouvido, de como foi escolhido. Depende da pergunta, do método, de como o trabalho foi executado.
Por isso, pesquisa deve ser analisada. Não adorada.
Quem trata pesquisa como resultado antecipado da eleição pode levar uma surpresa quando as urnas forem abertas.
MANAUS NÃO É UMA CIDADE SÓ
Manaus possui várias cidades dentro dela. Concorda comigo?
A realidade de Adrianópolis não é a mesma da Cidade de Deus. A Ponta Negra não é Santa Etelvina. O Centro não é Jorge Teixeira. O conjunto Vieiralves não é um ramal.
Cada lugar tem seus problemas, suas prioridades, suas revoltas, suas esperanças, seu jeito de olhar para os candidatos.
Como colocar tudo isso dentro de uma única porcentagem municipal? É possível.
A estatística existe para isso, mas o instituto precisa mostrar como fez.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, antes de comemorar ou lamentar o próximo resultado de pesquisa, façam uma pergunta: Onde foram ouvir esses eleitores?
Não basta saber quem está na frente. Precisamos saber quem ajudou a produzir aquela liderança.
O eleitor da periferia foi ouvido? O morador do ramal apareceu? As grandes regiões da Zona Norte e da Zona Leste foram representadas? Ou Manaus foi resumida aos lugares onde é mais fácil estacionar o carro, preencher o questionário e ir embora?
Tô certo ou tô errado?
Não queremos desacreditar as pesquisas. Queremos entendê-las.
Não queremos acusar os institutos. Queremos transparência.
Não queremos escolher previamente quem seria beneficiado. Queremos saber se toda Manaus está aparecendo no retrato.
Afinal, pesquisa eleitoral não é apenas uma tabela cheia de números. Pesquisa eleitoral é gente. E, se uma parte importante dessa gente não estiver sendo ouvida, alguma coisa estará faltando.
Antes de perguntar quem está na frente, pergunte: Onde está o eleitor que colocou esse candidato na frente?
Aguardemos os próximos capítulos…
Quem viver verá, como diria o grande Paulo Francis.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.