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*Por Antônio Zacarias - Minha gente, o segundo turno começou a produzir uma modalidade curiosa de política: o apoio sem abraço, a neutralidade com lado; o partido que escolhe um candidato enquanto seu presidente diz que não escolheu ninguém. E o grupo que apoia o Flávio Bolsonaro para presidente, mas se recusa a apoiar a Maria Enxofre do Carmo para governadora.
É assim que os derrotados estão entrando na nova fase da eleição amazonense.
O Avante anunciou oficialmente apoio ao Omar Aziz. A decisão foi tomada numa reunião com a participação do David Almeida, presidente estadual da legenda, e do prefeito Renato Júnior, presidente municipal.
Apesar de tudo isso, apesar de todo esse rapapé, o David também declarou a um veículo local que não apoiaria pessoalmente o Omar nem a Maria Enxofre.
Ao mesmo tempo, o Roberto Cidade, o famoso Cocô de Ouro, e o Wilson Lima voltaram de Brasília com outra solução: neutralidade na eleição para governador e apoio a Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.
Traduzindo: está todo mundo escolhendo, mas parte da turma não quer aparecer como responsável pela escolha.
AVANTE ESCOLHEU OMAR
A nota do Avante é clara. Informa que as direções estadual e municipal decidiram apoiar o Omar Aziz no segundo turno. Eu mostrei isso na coluna de ontem.
Diz também que a reunião ocorreu com a presença do David Almeida e do Renato Júnior.
O David é o presidente estadual. O Renato, o presidente municipal. Portanto, não foi uma conversa de corredor. Foi uma decisão partidária.
O partido que lançou o David no primeiro turno agora integra o palanque do Omar no segundo.
Politicamente, o Omar ganhou. Recebeu uma legenda com vereadores, deputados, lideranças comunitárias e presença na Prefeitura de Manaus.
DAVID NÃO SUBIU
O apoio, porém, veio com uma ausência importante. O David não foi a figura principal do anúncio. Quem apareceu na frente foi o Renato Júnior.
Foi o prefeito quem reuniu vereadores, deputados e secretários. Foi ele quem fez o discurso. Foi ele quem prometeu entrar nas ruas. Foi ele quem pediu voto para o Omar.
Antes da divulgação da nota partidária, uma reportagem informou que o ex-prefeito havia decidido não declarar apoio pessoal a nenhum dos dois candidatos.
Agora temos duas informações públicas: o Avante, presidido pelo David, apoia o Omar. O David, pessoalmente, apresentou-se como neutro.
Pode uma coisa dessas? Pois é, pode. Mas precisa ser explicado.
APOIA SEM APOIAR?
Do ponto de vista formal, existe diferença entre posição partidária e declaração pessoal.
O partido pode tomar uma decisão coletiva. Seu presidente pode dizer que, como cidadão ou liderança individual, não fará campanha.
Essa separação, no entanto, fica estranha quando o presidente participa da reunião que aprova o apoio. Concorda comigo?
Se o David foi à reunião, acompanhou a discussão e não contestou a nota, ajudou institucionalmente a levar o Avante para o Omar. Concorda comigo novamente?
Mesmo que não grave vídeo, que não suba no palanque, que não diga pessoalmente “meu candidato é o Omar”, o David implicitamente — ou seria mesmo explicitamente? — apoia o Omar.
Tô maluco ou o que acabei de dizer tem fundamento?
No português direto: o David talvez não tenha dado o abraço, mas deixou o partido atravessar a ponte.
POR QUE TANTA CAUTELA?
A resposta está no primeiro turno. O David e o Omar trocaram críticas. Críticas pesadas, ressalte-se.
O Omar questionou a gestão municipal, o tratamento dado a profissionais da saúde e decisões administrativas da Prefeitura.
O David cobrou promessas antigas do Omar e atacou sua trajetória. A relação chegou rompida ao dia da eleição.
Há porém uma história anterior. Em 2024, o Omar apoiou o David na eleição para a Prefeitura de Manaus.
Naquele momento, o David chegou a afirmar publicamente que apoiaria o Omar para o Governo do Amazonas. Depois voltou atrás e entrou na disputa estadual.
Agora, derrotado, vê seu partido retornar ao acordo original. A política deu uma volta completa, não é mesmo? Tadinho do David. kkkkkk
RENATO ABRIU A PORTA
O Renato Júnior resolveu o problema antes doDavid. Como prefeito, precisa conversar com o próximo governador.
Manaus necessita de recursos estaduais, transporte, mobilidade, saúde, habitação, saneamento, obras viárias.
O Renato declarou que deseja parceria com o Omar e que entrará de verdade na campanha. Não apenas para aparecer em fotografia.
O prefeito assumiu a função de fazer o movimento que o David, aparentemente, não desejava protagonizar.
Resultado: o Omar recebeu o apoio. O Renato ganhou interlocução.
OMAR GANHA A ESTRUTURA
Para o Omar, pouco importa quem pronunciou primeiro a palavra “apoio”.
O que interessa é a estrutura chegando. O Avante possui presença forte em Manaus. O prefeito está no palanque. Parlamentares ligados ao grupo participaram do ato.
A direção partidária divulgou uma nota oficial. O Omar venceu no interior, mas perdeu em Manaus para a Maria Enxofre.
Portanto, qualquer rede organizada na capital possui enorme valor. O apoio do Avante não entrega automaticamente os 218.490 votos recebidos pelo David, mas oferece militância, liderança, tempo politico, entrada nos bairros.
UNIÃO FICA NEUTRO
O Roberto Cidade e o Wilson Lima encontraram uma saída parecida. Viajaram a Brasília. Conversaram com a direção nacional do União Brasil.
Voltaram com uma decisão: a Federação União Progressista não apoiará oficialmente o Omar nem a Maria Enxofre no segundo turno estadual.
Deputados, prefeitos, vereadores e demais filiados ficaram livres para escolher. Na eleição presidencial, porém, o grupo apoiará o Flávio Bolsonaro.
Mais uma vez aparece a política pela metade. Para presidente, existe lado. Para governador, cada um procura o próprio caminho.
MARIA PERDEU O APOIO NATURAL
A neutralidade do União Brasil atinge principalmente a Maria Enxofre.
A candidata do PL representa o campo do Flávio Bolsonaro no Amazonas. O União e o Progressistas decidiram apoiar Flávio nacionalmente.
Seria natural imaginar que a aliança se repetiria na eleição estadual. Não aconteceu.
O grupo do Cidade e do Wilson votará para presidente ao lado da Maria Enxofre. Mas não subirá oficialmente no palanque dela para governadora.
Essa separação mostra que as feridas locais pesaram mais do que a ideologia nacional.
A Maria Enxofre atacou o governo, criticou a máquina estadual, enfrentou o Cidade, trocou acusações, teve disputas judiciais com adversários.
Agora precisa dos votos desse grupo, mas o grupo preferiu ficar fora.
OMAR COLHE A DIVISÃO
O Omar não precisa receber oficialmente o apoio do Cidade para se beneficiar da neutralidade. Basta impedir que os 453.896 votos do governador migrem em bloco para a Maria Enxofre.
Se o eleitorado do Cidade se dividir, o Omar já ganha. Uma parcela pode acompanhar o Flávio para presidente e escolher a Maria Enxofre para governadora. Outra pode votar no Flávio no Omar. Outra pode anular. Outra pode ficar em casa. Outra pode tomar decisão somente depois dos debates.
Como o Omar iniciou o segundo turno com vantagem de 16,14 pontos, a fragmentação dos adversários lhe favorece. A Maria Enxofre precisa unir o voto anti-Omar.
O Omar precisa apenas impedir essa união.
O ELEITOR NÃO VEM NO PACOTE
Existe uma fantasia repetida em todo segundo turno.
O candidato derrotado anuncia apoio. A campanha vencedora soma seus votos numa calculadora.
Não funciona assim. O David teve 218.490 votos. O Cidade recebeu 453.896. Juntos, somaram 672.386.
Mas esses votos não pertencem ao Avante, ao União Brasil, ao David, ao Cidade ou ao Wilson. Pertencem aos eleitores.
Parte acompanhará a orientação partidária. Parte fará exatamente o contrário. Parte decidirá por rejeição. Parte poderá nem voltar à urna.
O apoio político ajuda, mas não funciona como transferência bancária.
COMEÇA O CORPO A CORPO
A propaganda eleitoral gratuita retorna ao rádio e à televisão na sexta-feira, 9 de outubro, seguindo até o dia 23.
O segundo turno será disputado em 25 de outubro. Até lá, apoio valerá menos pelo comunicado e mais pela presença.
Quem gravará programa? Quem subirá no palanque? Quem participará da caminhada? Quem pedirá voto? Quem colocará sua reputação ao lado do candidato?
A fotografia mostrará aquilo que a nota tentou esconder.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, os derrotados encontraram maneiras diferentes de entrar no segundo turno sem entrar completamente.
O Avante declarou apoio ao Omar Aziz. A decisão foi tomada numa reunião que contou com o David Almeida.
O Renato Júnior assumiu a linha de frente e já prometeu trabalhar nas ruas.
Mas o David foi citado também como pessoalmente neutro.
O União Brasil resolveu outra equação. Nem o Omar. Nem a Maria Enxofre.
Cada filiado escolhe o próprio caminho. Para presidente, porém, o Cidade, o Wilson e a federação apoiarão o Flávio Bolsonaro.
A Maria Enxofre ganhou o apoio nacional do mesmo campo político.
Não consegui, porém, atrair oficialmente o principal grupo estadual dessa direita.
O Omar, por sua vez, recebeu o Avante e a estrutura municipal comandada pelo Renato.
Resumindo:
O Omar está reunindo os apoios locais que aparecem no palco. A Maria Enxofre reúne apoios nacionais que chegam de avião. E os grupos derrotados tentam ficar perto do vencedor sem correr todo o risco de escolher o lado errado.
O David deixou seu partido apoiar o Omar, mas preservou distância pessoal.
O Cidade e o Wilson apoiaram o Flávio, mas evitaram a Maria Enxofre.
Todo mundo quer participar do resultado. Pouca gente deseja carregar a derrota.
Só que política não é arte de ficar eternamente em cima do muro.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.