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BASTIDORES DA POLÍTICA
*Por Antônio Zacarias - O que era para ser apenas um jantar político em Manaus acabou se transformando em uma crise de imagem com forte repercussão nas redes sociais, e com desgaste direto para figuras importantes do PL no Amazonas.
Os protagonistas da polêmica foram o influenciador Wess Guimarães e a vereadora de Praia Grande (SP), Eduarda Campopiano, convidados do grupo político liderado por Maria Enxofre do Carmo, Alberto Neto e Alfredo Nascimento. E o problema não foi pequeno.
O vídeo em que os visitantes debocham da culinária amazonense caiu como gasolina em cima de um sentimento que o povo da região costuma reagir com força: o desrespeito à identidade cultural da Amazônia.
O DEBOCHE QUE PEGOU MAL
Nas imagens divulgadas nas próprias redes sociais, Wess Guimarães ironiza os nomes de pratos típicos da região.
“Tucupi, tacacá, tacataca, tucataca…”, diz o influenciador enquanto ri da culinária local, sugerindo que os amazonenses “têm preguiça de botar nome nas comidas”.
Na sequência, Eduarda Campopiano entra na brincadeira e dispara: “Eles batem a cabeça no teclado e vê o que sai.”
A fala rapidamente ultrapassou a bolha política e provocou indignação entre amazonenses de diferentes espectros ideológicos, pois ali deixou de ser apenas uma piada ruim.
Virou símbolo de algo muito mais profundo: a velha sensação de que parte do eixo político do Sul e Sudeste ainda olha para a cultura amazônica com arrogância, exotismo e desprezo velado.
A PIADA QUE EXPÔS O DESCONHECIMENTO
Nos bastidores políticos, o episódio gerou desconforto até entre aliados. Afinal, não se tratava de um jantar privado qualquer. Era um encontro político cercado de lideranças conservadoras do Amazonas, realizado justamente por figuras que tentam consolidar espaço eleitoral no estado para 2026. E aí nasce o problema central: como pedir votos ao povo amazonense enquanto convidados ligados ao grupo ridicularizam elementos históricos da cultura regional?
Tacacá, tucupi e tambaqui não são apenas pratos. São símbolos culturais, históricos e afetivos profundamente ligados à identidade amazônica.
Debochar disso em Manaus é quase o equivalente a rir do chimarrão no Sul, do acarajé na Bahia ou da culinária mineira em Belo Horizonte. É um erro político básico.
SILÊNCIO QUE TAMBÉM DESGASTA
Outro detalhe chamou atenção nos bastidores: o silêncio inicial das lideranças presentes. Até agora, não houve uma reação contundente de figuras do PL local repudiando publicamente as falas. E na política, silêncio também fala, principalmente quando o episódio envolve identidade regional, orgulho cultural e sentimento popular.
Nos corredores políticos, adversários já enxergam a situação como munição pronta para explorar a narrativa de que parte da direita nacional desembarca no Amazonas sem conhecer — ou respeitar — a realidade local.
A AMAZÔNIA NÃO É CENÁRIO EXÓTICO
O episódio também reabriu uma discussão antiga no Amazonas: a relação de figuras políticas “de fora” com a região.
Há anos, setores da sociedade amazonense criticam a forma como a Amazônia muitas vezes é tratada apenas como vitrine eleitoral, pauta ambiental ou peça folclórica para redes sociais. E quando surgem declarações carregadas de deboche cultural, a reação costuma ser imediata.
Afinal, o amazonense pode até aceitar divergência política. Mas dificilmente tolera desrespeito à própria identidade.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
O vídeo de Wess Guimarães e Eduarda Campopiano produziu mais do que uma simples crise nas redes.
Nos bastidores, o episódio já é visto como um desgaste desnecessário para o grupo político de Maria Enxofre do Carmo, Alberto Neto e Alfredo Nascimento, e especialmente num momento em que o PL tenta ampliar presença e conexão popular no Amazonas.
A tentativa de fazer humor acabou transmitindo arrogância, desconhecimento e despreparo cultural. E na política, existe uma regra silenciosa que raramente falha: quem ri da cultura de um povo dificilmente conquista a confiança dele.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.