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*Por Antônio Zacarias - Minha gente, a campanha pelo Governo do Amazonas conseguiu produzir uma cena quase inacreditável.
De um lado, rios baixando, comunidades isoladas, municípios decretando emergência e empresas cobrando sobretaxa para transportar mercadorias até Manaus.
Do outro, a Maria Enxofre do Carmo, candidata do PL, dizendo que seca e cheia não significam crise climática.
Sinceramente, não entendo como alguém ainda tem coragem de sequer pensar em votar — quanto mais votar — numa apedeuta dessa.
Para ela, a coisa precisaria ser mais cinematográfica.
Veja o bolo fecal que a Maria Enxofre expeliu:
“Crise climática aqui no Amazonas seria tufões, furacões, cair nevasca, algo surreal”, declarou durante sabatina realizada pela Rede Amazônica na segunda-feira, 14 de setembro.
É isso mesmo que vocês leram, caro leitor, caríssima leitora.
Enquanto o Amazonas se prepara para outra vazante severa, a Maria Enxofre parece esperar neve em Manaus para admitir que existe uma crise climática.
É muita asnice para uma pessoa só, não é mesmo, minha gente?
O QUE A MARIA ENXOFRE DISSE TAMBÉM
A candidata (só mesmo no Amazonas uma figura dessas se cria) afirmou que secas e cheias fazem parte da realidade natural do Amazonas.
Até aí, nenhuma novidade. Quem nasceu ou vive no estado conhece o ciclo das águas. O rio sobe, o rio desce, a vida se organiza em torno dele.
O problema começou quando a Maria Enxofre concluiu que, por serem fenômenos conhecidos, seca e cheia não poderiam representar manifestações da crise climática.
Por favor, alguém aí pode me dizer de que buraco essa mulher saiu?
O RIO SEMPRE BAIXOU, MAS NÃO DESSE JEITO
Seca e cheia sempre existiram no Amazonas.
Dito isso, quero agora pôr alguma luz no cérebro do tamanho de uma cabeça de alfinete que Maria Enxofre carrega na caixa craniana.
Crise climática, Maria Enxofre, não significa inventar um fenômeno completamente novo, colocar furacão no encontro das águas ou cobrir a Ponta Negra de neve.
Significa alterar a frequência, a intensidade, a duração e os efeitos de fenômenos que já existem.
O verão amazônico não foi criado pelo aquecimento global, é verdade, mas temperaturas mais altas podem aumentar a evaporação, reduzir a disponibilidade de água e transformar uma vazante conhecida numa emergência histórica, como já ocorreu algumas vezes no Amazonas.
Um estudo internacional sobre a seca amazônica de 2023 — tá prestando atenção na aula, Maria Enxofre? —concluiu que a mudança climática provocada pela ação humana foi o principal fator responsável por sua gravidade. Segundo os pesquisadores, o aquecimento tornou a seca agrícola aproximadamente 30 vezes mais provável e a elevou de “severa” para “excepcional”. O trabalho foi divulgado em 24 de janeiro de 2024 pela World Weather Attribution?.
Portanto, Maria Enxofre, não é necessário nevar. Basta o rio baixar mais depressa, permanecer baixo por mais tempo e deixar mais gente sem transporte, alimento, remédio e água.
A SECA NÃO LEU O DISCURSO DA MARIA ENXOFRE
A fala da Maria Enxofre seria apenas uma opinião polêmica se não estivesse sendo desmentida pela realidade diante dos nossos olhos.
Pesquisadores do Serviço Geológico do Brasil e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia avaliam que a vazante de 2026 poderá ser a terceira mais severa da história registrada em Manaus.
Os cenários apresentados no início de setembro projetaram o rio Negro entre 13 e 16 metros. O cenário de vazante considerada normal já havia sido descartado pelos especialistas.
Em 2024, o rio Negro atingiu 12,66 metros, a menor marca em 122 anos de medições.
Agora o estado volta a enfrentar outra descida acentuada. Se duas secas extremas separadas por tão pouco tempo não merecem atenção climática, o que exatamente merece, hein, Maria Enxofre? Uma geleira descendo pela avenida Eduardo Ribeiro? Kkkkkkk
CARAUARI JÁ ESTÁ EM EMERGÊNCIA
Enquanto a Maria Enxofre discutia o significado da expressão “crise climática”, Carauari decretava emergência em saúde pública por 180 dias.
O município possui aproximadamente 60 comunidades ribeirinhas distribuídas pelo rio Juruá e seus afluentes.
Com a queda do nível da água, o transporte de pacientes, médicos, medicamentos, vacinas e suprimentos ficou mais difícil e mais caro. Algumas viagens entre comunidades e a sede podem levar até três dias.
A estiagem também aumenta o risco de desidratação, doenças relacionadas à água contaminada, problemas respiratórios e exaustão causada pelo calor.
Carauari não é o único município atingido. Atalaia do Norte, Benjamin Constant, São Paulo de Olivença, Humaitá, Novo Aripuanã e Jutaí também aparecem entre as localidades que adotaram medidas emergenciais por causa da estiagem.
Nenhuma delas precisou esperar furacão. O rio baixo já foi suficiente.
A CONTA CHEGA A MANAUS
Quem imagina que a seca é problema exclusivo do interior deveria olhar o preço do frete.
Na terça-feira, 15 de setembro, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários anunciou que passará a analisar previamente a chamada “taxa de seca”.
É uma sobretaxa aplicada por empresas de navegação quando o baixo nível dos rios reduz a capacidade dos navios ou aumenta os custos das operações.
As companhias terão de avisar a Antaq com pelo menos 30 dias de antecedência e apresentar justificativas técnicas, operacionais e econômicas. A agência poderá autorizar, impor condições ou rejeitar a cobrança.
A medida surgiu porque as sobretaxas podem encarecer alimentos, insumos industriais e outros produtos transportados para Manaus. Para 2026, a Antaq adotou como referência a cota de 17,7 metros do rio Negro.
Traduzindo: o rio baixa no interior, a cobrança aparece no porto e a conta termina no supermercado.
Ainda parece um assunto distante, Maria Enxofre?
UMA CANDIDATA PRECISA CONHECER O ESTADO QUE QUER GOVERNAR
É bom lembrar que a Maria Enxofre do Carmo não está disputando a administração de um estado qualquer. Está disputando o governo do maior estado brasileiro em extensão territorial, onde rios funcionam como estradas e o calendário das águas interfere na saúde, na educação, no comércio e no preço dos alimentos.
Um governador do Amazonas precisa compreender o clima para governar, saber quando antecipar compras, quando reforçar a Defesa Civil, deslocar equipes de saúde, preparar escolas, ajudar produtores rurais, cobrar atuação de Brasília.
Negar ou minimizar o componente climático não faz o problema desaparecer. Apenas aumenta o risco de o governo chegar atrasado.
A IDEOLOGIA ENTROU NO BARCO
Politicamente, a fala da Maria Enxofre não parece isolada. Ela está construindo uma candidatura fortemente identificada com o bolsonarismo e com a agenda nacional do PL.
Ela atacou o Lula e o Alexandre de Moraes. Recebeu Flávio Bolsonaro em Manaus e adota um discurso que agrada à parcela da direita que rejeita a expressão “crise climática” por considerá-la parte de uma agenda política.
Essa estratégia pode mobilizar sua base, mas também cria um problema: seca no Amazonas não é discussão de rede social, é logística, é saúde, é economia. É comida. É água.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, a Maria Enxofre do Carmo erra profundamente ao imaginar que crise climática no Amazonas somente poderia existir com tufão, furacão ou nevasca.
A crise não precisa parecer um filme americano. Ela possui sotaque amazonense e aparece no rio que baixa antes do esperado.
Aparece também na comunidade que fica isolada, no paciente que não consegue chegar ao hospital, no remédio que demora, no alimento que encarece, na fumaça das queimadas, na sobretaxa cobrada no transporte. E no município que decreta emergência porque já não consegue enfrentar sozinho os efeitos da estiagem.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.