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SEGREDOS DE BASTIDORES
*Por Antônio Zacarias - Existe uma regra básica na política.
Promessa cria expectativa.
Expectativa cria esperança.
E esperança frustrada cria revolta.
No Amazonas, a relação entre o governo-tampão de Roberto Cidade, o famoso “Cocô de Ouro”, e os policiais militares parece ter entrado exatamente nessa fase.
A fase da desconfiança.
NÃO É APENAS O AUXÍLIO
O debate sobre o auxílio-fardamento foi apenas o estopim.
O problema é muito maior. E vem se acumulando há meses.
PROMOÇÕES
A ampliação do Quadro de Distribuição de Efetivo, o famoso QDE, tornou-se uma das principais reivindicações da categoria.
Os policiais esperam promoções.
Esperam reconhecimento.
Esperam perspectivas de crescimento profissional.
Mas a sensação dentro dos quartéis é que os avanços acontecem em ritmo muito mais lento do que as promessas anunciadas.
REAJUSTE SALARIAL
Outro ponto de tensão é a recomposição salarial.
A inflação não espera.
O supermercado não espera.
O aluguel não espera.
Mas os reajustes seguem longe de acompanhar as perdas acumuladas ao longo dos anos. E isso gera desgaste.
MUITA FOTO, POUCO RESULTADO
Entre policiais da ativa e da reserva, a crítica é recorrente.
O “Cocô de Ouro” aparece muito.
Anuncia muito.
Divulga muito.
Mas entrega menos do que promete.
A diferença entre expectativa e realidade virou combustível para a insatisfação.
A QUESTÃO DA PALAVRA
Nenhuma instituição depende tanto da confiança quanto uma força policial.
Hierarquia exige confiança.
Disciplina exige confiança.
Comando exige confiança.
Quando o policial começa a duvidar da palavra de quem governa, surge um problema que não se resolve com propaganda.
O CASO GERSON FEITOSA
A recente reação do presidente da Associação dos Praças do Estado do Amazonas, Gerson Feitosa, tornou pública uma insatisfação que já circulava nos bastidores.
Ao acusar Roberto Cidade de mentir sobre a discussão envolvendo o auxílio-fardamento, Gerson elevou o tom do confronto. E trouxe para a luz uma pergunta incômoda:
O governo está ouvindo a tropa ou apenas falando para ela?
CRISE DE CREDIBILIDADE
A questão central deixou de ser o benefício.
Deixou de ser o valor.
Deixou até de ser a pauta específica.
A discussão agora gira em torno da credibilidade.
Porque quando uma categoria passa a acreditar que seus pleitos estão sendo usados como peça de marketing político, a relação institucional começa a se deteriorar.
ELEIÇÕES À VISTA
Embora Roberto Cidade ainda não tenha oficializado sua candidatura à reeleição, praticamente todas as suas movimentações apontam nessa direção.
As agendas públicas se intensificaram.
Os anúncios se multiplicaram.
A exposição cresceu. E a máquina de comunicação funciona em velocidade máxima.
O problema é que policiais não vivem de vídeos.
Não vivem de discursos.
Não vivem de publicações nas redes sociais.
Vivem daquilo que efetivamente chega ao contracheque e à carreira.
O DESGASTE AUMENTA
Nos quartéis, cresce a percepção de que o governo se preocupa mais em anunciar medidas do que em resolver problemas históricos da categoria.
Quando essa percepção se espalha, o desgaste deixa de ser sindical.
Passa a ser político.
A CONTA CHEGA
Governos podem administrar crises.
Podem administrar críticas.
Podem até administrar protestos.
Mas existe algo muito mais difícil de recuperar.
A confiança perdida.
Porque uma promoção pode ser publicada amanhã.
Um benefício pode ser anunciado na próxima semana.
Um vídeo pode ser gravado hoje mesmo.
Mas a credibilidade, quando se rompe, raramente volta com a mesma facilidade.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
O auxílio-fardamento foi apenas a faísca.
O verdadeiro incêndio está na relação entre a tropa e o governo.
E a cada nova promessa questionada, a sensação que cresce entre muitos policiais é simples:
o problema já não é mais o tamanho do benefício.
É o tamanho da confiança que foi perdida.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.