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*Por Antônio Zacarias - Minha gente, vamos começar esta coluna pela contradição. E digo logo que não é pequena.
Na última sexta-feira, em Manaus, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro entrou numa fábrica da Zona Franca, vestiu a camisa do modelo e declarou que ele é “sagrado”.
Disse que pretende preservar os incentivos, atrair novos investimentos e gerar mais empregos no Amazonas.
Até aí tudo bem. O problema é que esse Flávio Bolsonaro que hoje chama a Zona Franca de “sagrada” é o mesmo que, em momentos anteriores, apoiou medidas ou fez declarações que provocaram preocupação justamente sobre a competitividade do modelo. E como ele veio a Manaus acompanhado da Maria Enxofre do Carmo, candidata do PL ao Governo do Amazonas, a contradição deixou de ser problema apenas do Flávio. Virou problema eleitoral da Maria Enxofre também.
Vamos por partes.
PRIMEIRA CONTRADIÇÃO: HOJE A ZONA FRANCA É “SAGRADA”;
EM 2022, FLÁVIO DEFENDEU A REDUÇÃO DO IPI
Em março de 2022, o Flávio Bolsonaro — esse mesmo Flávio — defendeu publicamente a redução de até 25% do IPI promovida pelo governo do pai dele e fez questão de dizer que a medida representava uma vitória para o Brasil.
Pouco depois, o governo — governo do pai dele, não esqueçam — ampliou o corte para 35% para a maioria dos produtos.
Isso provocou uma guerra no Amazonas, pois uma parte importante da vantagem competitiva da Zona Franca depende justamente da diferença tributária existente entre produtos fabricados em Manaus e concorrentes produzidos no restante do país.
Se você reduz o imposto lá fora sem preservar adequadamente essa diferença, reduz também a vantagem de produzir aqui.
Minha gente, essa não é uma discussão abstrata. É fábrica, investimento, emprego. É salário na mesa do trabalhador amazonense.
Agora, quatro anos depois, o Flávio desembarca em Manaus e, com uma cara de pau do tamanho do Universo, diz que, para ele, a Zona Franca é sagrada.
Dá pra confiar num sujeito desse? Me digam, caro leitor, caríssima leitora.
Não fosse, na época, a enérgica reação dos senadores Omar Aziz, Eduardo Braga e Plínio Valério, milhares de pais e mães de família que trabalham no Distrito Industrial estariam a esta altura passando fome.
SEGUNDA CONTRADIÇÃO: EM 2023, FLÁVIO
QUESTIONOU BENEFÍCIOS EXTRAS PARA MANAUS
Tem mais. Durante a discussão da reforma tributária na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em novembro de 2023, o Flávio Bolsonaro criticou dispositivos que, segundo ele, ampliavam as vantagens concedidas à Zona Franca.
Vejam que ele chegou a afirmar: “Manaus tem que ser o novo Vale do Silício e o resto do Brasil uma Argentina”. E acrescentou que as vantagens poderiam provocar desemprego no restante do país, “exceto no Amazonas”.
Calma.
É importante não colocar palavras na boca de ninguém.
Agora ele aparece dentro de uma fábrica do Distrito Industrial prometendo ampliar exatamente aquilo que anteriormente questionava — questionava e condenava.
TERCEIRA CONTRADIÇÃO: A REFORMA PROTEGEU A ZONA
FRANCA; AGORA A CAMPANHA DE FLÁVIO QUER REVISÁ-LA
Aqui a coisa fica ainda mais interessante.
A reforma tributária aprovada pelo Congresso preservou mecanismos específicos destinados à competitividade da Zona Franca.
A Emenda Constitucional 132/2023 manteve, por exemplo, o IPI sobre produtos concorrentes aos fabricados no Polo Industrial de Manaus e criou instrumentos destinados à preservação das vantagens comparativas do modelo.
Pois bem. A equipe econômica da campanha do Flávio defende suspender por um ano a implementação da reforma e revisar o modelo aprovado.
Sim, é isso mesmo que você leu.
Até agora, segundo reportagem publicada nessa sexta-feira, não houve detalhamento público suficiente explicando como essa revisão seria conciliada com a preservação das garantias específicas conquistadas pela Zona Franca.
E aí nasce outra pergunta: Se a reforma ajudou a blindar a Zona Franca, exatamente o que Flávio pretende mudar nela?
Essa resposta interessa muito mais ao Amazonas do que qualquer camisa usada durante visita a fábrica.
QUARTA CONTRADIÇÃO: QUER AMPLIAR UM MODELO
QUE ADMITE ESTAR “APRENDENDO” AGORA
Talvez essa tenha sido a frase mais curiosa da visita desse sujeito.
Ao falar sobre a Zona Franca, ele declarou que, “pelo que estou aprendendo hoje aqui”, percebeu a necessidade de ampliar a geração de empregos.
Quanta hipocrisia! Quanta dissimulação!
Afinal, minha gente, estamos falando de um senador da República exercendo mandato desde 2019.
Um senador que participou de discussões nacionais sobre reforma tributária, que votou matérias capazes de afetar diretamente a economia amazonense e que agora é candidato à Presidência da República.
Descobrir detalhes da linha de produção da Honda durante uma visita é absolutamente normal.
Agora, ainda estar “aprendendo” sobre a importância estratégica do principal modelo econômico da Amazônia depois de tantos anos no Senado… Aí já é outra conversa, não é verdade?
Quero perguntar a esse inimigo da Zona Franca e de seus trabalhadores por que ele, antes de mexer no IPI, discutir reforma tributária ou questionar incentivos, não procurou conhecer profundamente aquilo que suas decisões poderiam atingir?
QUINTA CONTRADIÇÃO: ANTES, O INCENTIVO PODERIA PREJUDICAR
OUTROS ESTADOS; AGORA, A ZONA FRANCA “É DO BRASIL INTEIRO”
Convenhamos: esse elemento é de um cinismo desconcertante.
Em 2023, ele argumentava que determinadas vantagens concedidas a Manaus poderiam deslocar indústrias e provocar desemprego em outros lugares do Brasil.
E agora, na visita a Manaus, ele afirma que “a Zona Franca não é mais de Manaus, é do Brasil inteiro”.
Ora… Se a nossa Zona Franca é do Brasil inteiro, ótimo. Nós amazonenses agradecemos a descoberta.
No entanto, o agora candidato à Presidência precisa responder a estas perguntas:
A Zona Franca deixou de representar o risco aos demais estados apontado anteriormente?
Os incentivos deixaram de ser excessivos? O que mudou? A Zona Franca? Ou a eleição?
E AÍ CHEGAMOS A MARIA ENXOFRE DO CARMO
É aqui que a história entra definitivamente na sucessão estadual.
O Flávio Bolsonaro não estava passeando em Manaus. Ele veio fazer campanha. E visitou a Honda acompanhado justamente da Maria Enxofre do Carmo, candidata de seu partido ao Governo do Amazonas.
Portanto, a Maria Enxofre recebe o bônus e o ônus dessa aliança. Concorda comigo, minha gente?
Quer usar o prestígio do Flávio junto ao eleitor bolsonarista? Nenhum problema nisso, não é verdade?
Quer aparecer ao lado dele? Também nenhum problema nisso.
Quer transformar a candidatura presidencial do PL numa locomotiva para sua campanha? Legítimo também.
Não dá, porém, para receber somente a parte boa do pacote.
A Maria Enxofre precisa responder se concorda ou não com as posições anteriores de Flávio sobre a Zona Franca.
Tô certo ou tô errado, caro leitor, caríssima leitora?
MARIA ENXOFRE PRECISA RESPONDER CINCO PERGUNTAS
Perguntas muito simples:
Maria Enxofre, você concorda com a redução do IPI promovida pelo governo Bolsonaro em 2022?
Você concorda com as críticas feitas pelo Flávio aos benefícios adicionais da Zona Franca durante a reforma tributária?
Você a proposta da equipe econômica do Flávio de revisar a reforma tributária?
Que garantias você, Maria Enxofre, exigirá para que essa revisão não diminua a competitividade do Polo Industrial?
E, principalmente:
Se um eventual presidente Flávio Bolsonaro tomar uma decisão prejudicial à Zona Franca, você, Maria Enxofre, ficará com o Flávio ou ficará com o Amazonas?
Essa última vale ouro. Por que vale ouro? Porque governador não é representante de presidente da República no estado.
Governador representa o estado diante do presidente da República.
Será que a Maria Enxofre tem consciência disso? Duvido!
O TESTE DE INDEPENDÊNCIA DA MARIA ENXOFRE
É muito fácil enfrentar Brasília quando quem está no Palácio do Planalto é seu adversário.
Quero ver enfrentar quando quem está sentado na cadeira presidencial é seu aliado.
Esse é o verdadeiro teste.
Se O Lula ameaçar a Zona Franca, o governador do Amazonas precisa enfrentar O Lula.
Se O Flávio ameaçar, precisa enfrentar O Flávio.
Se qualquer outro presidente ameaçar, precisa enfrentar qualquer outro presidente.
É bom frisar que a Zona Franca não é patrimônio do PT, não é patrimônio do PL, não é patrimônio do Omar Aziz, não é patrimônio da Maria Enxofre do Carmo, não é patrimônio do Roberto Cidade, não é patrimônio do David Almeida.
É patrimônio econômico do Amazonas.
OMAR RECEBEU UM PRESENTE
Politicamente, o Omar Aziz ganhou munição. E sem precisar comprar.
A visita permite que sua campanha pergunte se a Maria Enxofre possui independência suficiente para enfrentar um eventual governo Flávio.
O Omar certamente tentará apresentar-se como defensor histórico da Zona Franca e usar as declarações antigas do Flávio contra a candidata do PL.
É uma jogada previsível. Previsível e eficiente, é bom que se diga.
Por que é eficiente? Porque a Maria Enxofre agora precisa explicar não apenas suas próprias posições, mas também as posições de seu principal aliado nacional.
CIDADE TAMBÉM PODE EXPLORAR
O Roberto Cidade recebeu o mesmo presente.
Pode disputar o eleitor conservador dizendo mais ou menos isto:
Uma coisa é apoiar o Flávio para presidente. Outra é entregar ao candidato presidencial um cheque em branco sobre os interesses do Amazonas.
O Cidade pode tentar ocupar justamente esse espaço: direita sem submissão política a Brasília.
Naturalmente, terá de responder pelos próprios problemas de um eventual governo seu. Mas isso, claro, não elimina a oportunidade eleitoral que caiu em seu colo.
DAVID PRECISA ENTRAR NA CONVERSA
O David Almeida também pode aproveitar. O problema é que o David precisa urgentemente transformar oportunidade em voto.
Enquanto o Omar lidera, a Maria Enxofre mobiliza a direita e o Cidade usa a máquina estadual, o David precisa encontrar assuntos capazes de recolocá-lo no centro da disputa.
A Zona Franca é um deles. Mas não basta dizer: “Eu defendo”.
Todo mundo defende quando chega a Manaus, não é mesmo?
O que diferencia candidato é dizer como defenderá quando Brasília resolver mexer no dinheiro.
A CAMISA É BONITA. O ARQUIVO É MAIS FORTE
A imagem eleitoral foi cuidadosamente construída.
O Flávio dentro da Honda, falando de emprego, defendendo investimento, vestindo uma camisa “100% Zona Franca de Manaus.
Tudo perfeito para fotografia de campanha. Só faltou combinar com o arquivo.
Não é novidade pra mim que fotografia registra um segundo, enquanto arquivo registra uma trajetória. E eleição séria não pode ser decidida apenas pela fotografia mais bonita.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, o Flávio Bolsonaro veio a Manaus para ajudar a Maria Enxofre do Carmo. No entanto, triuxe uma mala cheia de contradições.
Primeira: hoje chama a Zona Franca de “sagrada”, mas apoiou a redução do IPI que ameaçou sua vantagem competitiva.
Segunda: hoje promete ampliar o modelo, mas em 2023 questionou benefícios adicionais destinados a Manaus.
Terceira: hoje promete proteger a Zona Franca, enquanto sua equipe econômica defende revisar uma reforma tributária que criou mecanismos para preservar sua competitividade.
Quarta: depois de anos no Senado e de participar de discussões tributárias que atingem diretamente o Amazonas, declarou que ainda está “aprendendo” sobre o modelo.
Quinta: antes dizia que determinadas vantagens para Manaus poderiam prejudicar empregos no restante do país; agora afirma que a Zona Franca “é do Brasil inteiro”.
E Maria Enxofre do Carmo, ao abraçar politicamente o Flávio, abraça também essa cobrança.
No fim das contas, a pergunta que interessa ao eleitor amazonense não é se a Maria Enxofre gosta do Flávio.
O que o eleitor quer saber é se amanhã os interesses do Flávio Bolsonaro e os interesses da Zona Franca estiverem em lados opostos da mesa, de que lado a Maria Enxofre vai sentar?
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.