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*Por Antônio Zacarias - Minha gente, a campanha pelo Governo do Amazonas viveu na noite de sábado, 12 de setembro, um daqueles episódios em que o boato quase chega antes do próprio fato.
O senador Omar Aziz, candidato do PSD e líder nas pesquisas mais recentes, passou mal depois de participar de uma caminhada sob o sol forte de Manaus.
Levado ao hospital, recebeu atendimento e voltou para casa.
Até aí, uma ocorrência médica que exigia cuidado, informação e serenidade.
A serenidade, no entanto, foi justamente a primeira coisa que desapareceu.
Enquanto o Omar era avaliado, começou a circular a informação de que ele teria sofrido um “princípio de infarto”. Pura fake news!
O próprio Omar negou. Segundo ele, o mal-estar foi provocado por insolação e desidratação. Ele recebeu hidratação, foi medicado e teve alta.
Em outras palavras: enquanto o médico cuidava do Omar, a internet já tentava redigir o boletim de saúde.
FOI INSOLAÇÃO, NÃO INFARTO
Vejam o que aconteceu: o Omar participou de uma caminhada pelas ruas do Centro de Manaus durante a manhã de sábado.
Depois da atividade, voltou para casa, recebeu algumas pessoas, almoçou e descansou. Durante a tarde, percebeu que estava com a boca seca e a pressão baixa.
Chamou um médico e decidiu procurar atendimento para descartar um problema mais grave.
Foi atendido no pronto-socorro da Samel, no Centro, onde recebeu hidratação. Depois da avaliação, retornou para casa.
“Foi uma insolação. Peguei muito sol e me desidratei”, afirmou o Omar.
Em vídeo, o senador tranquilizou seus apoiadores e deixou um conselho bastante simples: “Bebam água”.
MANAUS CHEGOU A 37 GRAUS
Não se tratava de um calor qualquer quando o Omar passou mal. Na Europa — todos sabem disso - tem gente morrendo por causa das altas temperaturas.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, Manaus registrou temperatura máxima de 37°C no sábado.
Quem conhece Manaus sabe que o termômetro não conta a história completa.
Ou seja: não leva em consideração a umidade, o asfalto quente, o esforço físico eva exposição prolongada ao sol. E existe uma campanha na qual candidato quer apertar todas as mãos, caminhar por todas as ruas e demonstrar uma energia que nem sempre o corpo está disposto a acompanhar.
Campanha eleitoral é uma maratona realizada como se fosse corrida de cem metros. Uma hora a conta chega, não é verdade.
O BOATO CORREU MAIS DEPRESSA
A notícia verdadeira ainda estava sendo esclarecida quando já circulava uma versão mais grave: o Omar teria sofrido um princípio de infarto.
Assim que foi informado, ele negou essa informação.
Até o momento, minha gente, não existe elemento público que confirme problema cardíaco. O que foi informado pelo Omar e reproduzido por diferentes veículos é um quadro de insolação e desidratação.
O Portal Amazonas1, do meu amigo Hudson Braga, foi um dos poucos sites de notícias que registraram que o Omar recebeu hidratação, teve alta e afirmou estar bem.
É necessário dizer isso com clareza porque saúde não pode ser tratada como fofoca eleitoral.
É necessário dizer também que diagnóstico não se inventa, que boletim médico não se substitui por mensagem de grupo e que especulação repetida dez vezes continua sendo especulação.
POR QUE O MAL-ESTAR DO OMAR GANHOU TANTO PESO?
Porque não foi um candidato qualquer que entrou no hospital. Foi o cara que lidera, desde a pré-campanha, todas as pesquisas de intenção de voto.
Na pesquisa mais recente, feita pela Veritá e divulgada em 10 de setembro, o Omar apareceu com 33,4% dos votos válidos, seguido pela Maria Enxofre do Carmo, com 26,9%, o Roberto Cidade, com 20,9%, e o David Almeida, com 12,8%.
O levantamento ouviu 1.220 eleitores entre 4 e 9 de setembro, tem margem de erro de três pontos percentuais e está registrado na Justiça Eleitoral sob o número AM-8.447/2026.
Pesquisa, claro, não é urna, mas — convenhamos, minha gente — liderança muda o tamanho de qualquer acontecimento.
Quando o primeiro colocado passa mal, adversários, aliados, prefeitos, deputados, financiadores e coordenadores de campanha querem saber imediatamente se haverá impacto na corrida.
Tô certo ou tô errado, caro leitor, caríssima leitora?
AGENDA MANTIDA, MAS SEM RUA NO DOMINGO
O Omar informou que pretende manter a agenda de trabalho e campanha.
No domingo, 13 de setembro, porém, o Omar não participou de atividades nas ruas. A programação ficou concentrada em reuniões e atendimentos realizados em sua residência.
É uma decisão sensata. O candidato não precisa provar disposição desafiando o próprio corpo.
O que ele precisa é provar capacidade para governar. E, em se tratando do Omar, capacidade para governar não lhe falta. Nisso - creio eu — todos concordamos.
E mais: eleição não deveria ser concurso para saber qual candidato consegue ficar mais tempo debaixo do sol sem beber água.
A CAMPANHA PRECISA MOSTRAR TRANSPARÊNCIA
O Omar agiu corretamente ao aparecer em vídeo e explicar o ocorrido.
Quando um candidato relevante procura um hospital durante a campanha, o silêncio abre um espaço enorme para especulações.
É claro que todo paciente possui direito à privacidade. Candidato não deixa de ser cidadão porque pediu voto.
No entanto, existe também um interesse público legítimo sobre as condições de quem pretende assumir o comando do Estado.
A saída mais segura é informação rápida, objetiva e verificável.
O que aconteceu? Que atendimento foi realizado? O candidato recebeu alta? Haverá mudança na agenda?
Essas respostas protegem o candidato e respeitam o eleitor. Não é verdade o que tô dizendo?
Quanto mais tempo a informação oficial demora, mais tempo o boato trabalha sozinho.
O EPISÓDIO TAMBÉM HUMANIZA O OMAR
Existe outro efeito político possível, penso eu.
O Omar, conhecido pelo estilo duro e pela experiência acumulada em décadas de vida pública, apareceu reconhecendo um erro bastante comum: ficou no sol e não tomou água suficiente.
Isso aproxima o político da experiência cotidiana do eleitor.
O candidato que costuma aparecer discutindo orçamento, hospital, segurança e articulação em Brasília surgiu falando de sede, calor e pressão baixa.
Pode gerar solidariedade. Pode humanizá-lo.
Nenhuma campanha, entretanto, deveria transformar um episódio de saúde em peça teatral.
Nem o grupo do Omar deve explorar excessivamente o susto.
Nem os adversários devem insinuar uma incapacidade que não está demonstrada.
A política já possui problemas verdadeiros suficientes. Não precisa fabricar doença.
OS ADVERSÁRIOS OBSERVAM
A Maria Enxofre do Carmo e o Roberto Cidade travam uma disputa apertada pela segunda vaga.
O David Almeida tenta recuperar espaço. Qualquer acontecimento envolvendo o Omar será analisado pelos três grupos.
Se o líder reduzir atividades, os adversários poderão intensificar viagens, caminhadas e mobilizações para construir uma imagem de maior presença nas ruas.
Se o Omar retomar rapidamente sua programação, tentará mostrar que o episódio foi pontual e está superado.
Esse é o movimento legítimo da campanha. Não O limite está em usar uma ocorrência médica para espalhar medo, insinuar diagnóstico ou enganar o eleitor.
Pode criticar proposta, cobrar explicação, confrontar trajetória. Pode questionar governo anterior. Mas transformar saúde em arma eleitoral é atravessar uma linha perigosa.
O CALOR TAMBÉM ENTROU NA ELEIÇÃO
O episódio deixou ainda uma pergunta que vai além do Omar.
Como as campanhas estão protegendo candidatos, trabalhadores, militantes e apoiadores durante atividades realizadas sob temperaturas extremas?
Caminhada rende fotografia, bandeiraço produz imagem bonita, candidato suado transmite a ideia de esforço.
Ninguém, porém, deveria precisar desmaiar para provar que gosta do povo.
As coordenações precisam organizar água, pontos de descanso, horários menos agressivos e atendimento de emergência, principalmente no Amazonas.
Se nem as campanhas conseguem planejar uma caminhada segura no calor de Manaus, o eleitor tem o direito de perguntar como pretendem enfrentar os efeitos mais amplos das temperaturas elevadas sobre trabalhadores, estudantes e idosos.
O sol que atingiu o Omar não escolhe partido.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, o fato é simples. O Omar Aziz passou mal no sábado, foi levado ao hospital, recebeu hidratação, teve alta e afirmou que está bem.
Segundo ele, houve insolação e desidratação.
O candidato negou ter sofrido princípio de infarto.
No domingo, evitou atividades nas ruas e cumpriu compromissos em casa.
Essas são as informações confirmadas. Todo o restante precisa ser tratado como aquilo que é: especulação.
Politicamente, porém, o episódio mostrou que a campanha entrou numa fase em que qualquer susto com o líder vira assunto para o estado inteiro.
O Omar precisa cuidar da saúde e manter transparência. Sua equipe precisa impedir que a ansiedade produza desinformação.
Os adversários precisam demonstrar responsabilidade. E o eleitor precisa desconfiar de diagnósticos distribuídos por gente que nunca examinou o paciente.
O maior segredo de bastidor deste domingo não está no hospital. Está na velocidade da mentira.
O Omar precisou de soro para enfrentar a desidratação. A eleição amazonense, por sua vez, está precisando urgentemente de uma dose de responsabilidade.
Campanha pode ser quente, mas não precisa ferver o boato.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.