*Por Antônio Zacarias - Nos bastidores da política amazonense, um único vídeo foi suficiente para produzir um estrago que marqueteiro nenhum consegue consertar. Antes de palanque, jingle ou discurso ensaiado, o personagem político de Maria Enxofre do Carmo foi desmontado em praça pública pelo ex-deputado federal Marcelo Ramos. Desde então, a pergunta que ecoa não é se haverá campanha — é se ainda existe discurso que se sustente de pé.
A CAMPANHA QUE MORREU NO BERÇO
A avaliação é quase unânime: a campanha não foi atacada, foi desnudada. Não houve adversário, dossiê clandestino ou guerra suja. Houve fatos. E fatos são cruéis com personagens mal construídos.
QUEM ACENDEU A LUZ — E NÃO FOI DELICADO
Marcelo Ramos não fez rodeios. No vídeo gravado e divulgado na semana passada, desmontou peça por peça a narrativa recém-embalada para consumo eleitoral. Sem adjetivos, sem floreios — apenas números e consequências.
UM PERSONAGEM DE MARKETING, NÃO DE REALIDADE
Mulher. Conservadora. Liberal. Empresária de sucesso. A história vendida era a da vencedora solitária, que prosperou sem o Estado e agora quer combatê-lo porque “só atrapalha”.
O MITO DO SUCESSO SEM O ESTADO
O problema é que o mito não sobrevive a uma planilha. E foi isso que o vídeo expôs.
OS NÚMEROS QUE MATAM O DISCURSO
A Fametro tem cerca de 23 mil alunos. Aproximadamente 4.300 via Prouni. Cerca de 5 mil financiados pelo Fies. Outros 1.300 bancados pelo Bolsa Universidade da Prefeitura de Manaus.
DINHEIRO DE QUEM, MESMO?
Tudo dinheiro público. Dinheiro do contribuinte. Dinheiro estatal. Exatamente daquele Estado que, no discurso, “só atrapalha”.
O ESTADO COMO SÓCIO OCULTO
Nos bastidores, a ironia é ácida: o Estado não atrapalha — sustenta. Quase metade da clientela depende diretamente dele. Sem Estado, o “império” encolhe. Simples assim.
A PRIMEIRA FANTASIA VIRA PÓ
Ali caiu o primeiro pilar do personagem: o da empresária que venceu sozinha, enfrentando a máquina pública. A máquina, na verdade, estava pagando a conta.
A SEGUNDA BANDEIRA: A TAL GESTÃO DE EXCELÊNCIA
O segundo pilar era ainda mais ousado: a gestora eficiente, qualificada, símbolo de competência administrativa.
MEDICINA COM NOTA MÍNIMA
Outro dado exposto no vídeo, já de domínio público: o curso de Medicina da Fametro recebeu nota 1 numa escala de 1 a 5. O pior desempenho possível.
QUANDO UM É ZERO
Marcelo Ramos não dourou a pílula: “Nota 1 é zero com verniz”.
A REAÇÃO QUE ENTERROU DE VEZ
A crise poderia ter sido administrada. Não foi. Em vez de explicações, transparência e anúncio de correções, veio o velho manual da incompetência.
CULPA NOS OUTROS
A culpa foi jogada nos avaliadores. E, como se não bastasse, nos alunos. Para analistas experientes, isso não é gestão — é arrogância mal disfarçada. Eu já disse isso aqui na coluna reiteradas vezes.
GESTÃO SE PROVA NO PROBLEMA, NÃO NO SLIDE
A máxima reapareceu com força: gestor de verdade aparece na crise. Personagem foge dela.
UM VÍDEO, UM ESTRAGO IRREVERSÍVEL
O vídeo circulou rápido. Em poucas horas, o que seria plataforma eleitoral virou passivo político tóxico.
ANTES DO PRIMEIRO JINGLE, JÁ ERA
Não houve tempo para slogan, palanque ou maquiagem. A realidade chegou primeiro.
MARKETING NÃO SOBREVIVE A FATO
Conclusão óbvia: personagem aguenta holofote; fato concreto quebra cenário.
NO AMAZONAS, BASTIDOR NÃO PERDOA
Discurso descolado da realidade não envelhece — apodrece.
A FRASE QUE VIROU SÍNTESE
Depois do vídeo, uma frase passou a circular com gosto de epitáfio político: “A campanha acabou antes de começar”.
Nada disso é sentença judicial. Tudo é leitura política. Mas, em período pré-eleitoral, leitura política costuma ser mais fatal que a urna.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Nos corredores, a conta fechou cedo: personagem não resiste a número, marketing não derrota planilha e liberalismo de discurso não sobrevive quando o Estado banca quase metade do negócio. O vídeo de Marcelo Ramos não criou a crise — apenas acendeu a luz. O resto foi o personagem derretendo sob claridade demais.
*Antônio Zacarias é fundador e proprietário do PORTAL DO ZACARIAS, atualmente no top 10 dos portais de notícias mais acessados do Brasil. Jornalista experiente, foi editor-geral de diversos jornais da Região Norte, com atuação destacada no Amazonas, onde dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério. Durante dois anos, atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte, a convite de Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral de O Globo. Antônio Zacarias é também autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra voltada à valorização do bom uso da língua portuguesa.