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SEGREDOS DE BASTIDORES
*Por Antônio Zacarias - Minha gente, a eleição deste ano não será disputada somente nas ruas, no rádio e na televisão. Uma das batalhas mais perigosas acontecerá dentro do celular do eleitor.
Ali estarão os vídeos editados, os áudios retirados de contexto, as imagens manipuladas, os perfis falsos e as mensagens produzidas para despertar medo, raiva ou indignação.
Haverá candidato tentando mostrar uma popularidade que talvez não possua; haverá militância organizada para atacar adversários e haverá gente paga para transformar mentira em aparência de verdade.
A CAMPANHA QUE NÃO MOSTRA O ROSTO
Antigamente, o eleitor recebia um panfleto e sabia quem o havia produzido. Hoje é diferente.
Uma acusação pode surgir num perfil sem nome, sem fotografia verdadeira e sem qualquer identificação.
Esse perfil publica a mentira, outros perfis repetem, grupos de WhatsApp espalham, páginas supostamente jornalísticas reproduzem.
Minutos depois, milhares de pessoas estão perguntando se aquilo é verdade.
A mentira, portanto. já cumpriu sua missão.
Mesmo que seja desmentida, a dúvida permanece.
É a velha estratégia: “Não sei se aconteceu, mas estão dizendo”.
Quem está dizendo? Ninguém sabe.
POPULARIDADE TAMBÉM PODE SER FABRICADA
Minha gente, não são apenas os ataques que podem ser artificiais.
A popularidade também pode. Comentários podem ser comprados, visualizações podem ser impulsionadas, perfis automatizados podem repetir elogios, uma pequena equipe pode controlar dezenas de contas e criar a impressão de que existe uma multidão defendendo determinado candidato.
De repente, um político aparece nas redes como fenômeno eleitoral.
Todo vídeo tem aplausos, toda publicação recebe elogios, toda crítica é imediatamente atacada.
Mas quantas dessas pessoas existem de verdade? Esse é o ponto.
Na internet, barulho não significa voto. Dez mil comentários podem produzir uma imagem de força, mas, na urna, perfil falso não vota.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL AUMENTA O PERIGO
A inteligência artificial tornou a manipulação ainda mais sofisticada.
Hoje é possível produzir uma imagem falsa muito convincente. Também é possível imitar a voz de uma pessoa e criar uma fala que jamais existiu.
Um candidato pode aparecer dizendo algo que nunca disse, uma conversa pode ser inventada, uma fotografia pode ser alterada, um vídeo pode ser montado para enganar até quem acompanha política diariamente.
O Tribunal Superior Eleitoral proíbe o uso de conteúdos sintéticos sem a devida identificação e combate a utilização de inteligência artificial para produzir desinformação eleitoral.
Há aí, porém, um problema.
A tecnologia espalha a mentira em segundos. A Justiça precisa de tempo para analisar, decidir e mandar retirar o conteúdo.
Quando a decisão chega, milhões de pessoas talvez já tenham assistido.
O ESTRAGO PODE SER IRREVERSÍVEL
Imagine um vídeo falso divulgado na véspera da eleição.
A gravação mostra determinado candidato envolvido numa conversa comprometedora.
O conteúdo começa a circular durante a madrugada. Quando amanhece, está em centenas de grupos.
O candidato nega. Acampanha apresenta provas de que se trata de uma montagem. A Justiça manda retirar.
Agora um pergunta: Seráque todos os eleitores que receberam o vídeo também receberão o desmentido?Provavelmente não.
A mentira chega correndo, a verdade vem depois, tentando recuperar o prejuízo.
OS ATAQUES SERÃO TERCEIRIZADOS
As campanhas sabem que uma acusação feita pelo próprio candidato pode gerar consequências jurídicas e políticas.
Por isso, algumas tentam terceirizar o ataque. O conteúdo aparece primeiro num perfil desconhecido, depois é compartilhado por militantes. Em seguida, chega aos grupos de mensagens.
Quando o adversário reage, os responsáveis dizem que apenas reproduziram algo que já circulava na internet. É uma tentativa de esconder a origem da agressão.
Ninguém assume a autoria, ninguém apresenta provas. Mas todos ajudam a espalhar.
É a política da covardia digital.
O ELEITOR SERÁ BOMBARDEADO
Prepare-se, caro leitor. Até o dia da eleição, você receberá denúncias, gravações, fotografias e mensagens alarmantes.
Algumas serão verdadeiras, outras serão distorcidas, muitas serão completamente falsas.
Antes de compartilhar, faça perguntas simples: Quem produziu esse conteúdo?Existe alguma prova? Algum veículo jornalístico responsável confirmou? A gravação está completa? A imagem pode ter sido manipulada?
Não seja cabo eleitoral involuntário de uma mentira. Compartilhar também é uma escolha.
QUEM NÃO TEM PROPOSTA TENTARÁ DESTRUIR REPUTAÇÕES
Minha gente, campanha baseada em proposta exige preparo.
É preciso explicar de onde virá o dinheiro, é necessário apresentar prioridades. Também é preciso dizer como enfrentar os problemas da saúde, da segurança, da educação, do transporte e da geração de empregos.
Atacar é mais fácil. Basta criar uma acusação, editar um vídeo ou ressuscitar uma história antiga.
Por isso, quanto mais a eleição se aproximar, maior será a tentação de substituir o debate de ideias pela destruição de reputações.
Quando falta projeto, sobra baixaria; quando falta argumento, aparece a mentira.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
A eleição deste ano será disputada por candidatos reais e exércitos digitais que talvez nem existam.
Veremos popularidades fabricadas, indignações coordenadas e ataques realizados por perfis que não mostram o rosto. Tô certo ou tô errado?
A inteligência artificial poderá ajudar as campanhas a comunicar propostas, mas também poderá ser utilizada para enganar.
O eleitor precisará desconfiar. Nem tudo que viraliza é verdade; nem todo comentário representa uma pessoa; nem toda multidão digital existe fora da tela, e nem todo candidato que domina as redes possui votos suficientes para dominar as urnas.
No dia da eleição, robô não apresenta título, perfil falso não aperta a tecla verde e inteligência artificial não entra na cabine.
Quem decide é o eleitor. Até lá, porém, haverá muita gente tentando decidir por ele.
Quem viver verá, como diria o grande Paulo Francis.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.