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SEGREDOS DE BASTIDORES
*Por Antônio Zacarias - Minha gente, agora o jogo vai para a televisão. Aí a conversa muda.
Afinal, debate não é comício, não é passeata, não é vídeo de campanha gravado dez vezes até ficar bonito.
No debate, é olho no olho, é pergunta na lata, é resposta na hora, e, principalmente, é onde o candidato pode ganhar alguns pontos preciosos — ou perder muito mais do que imagina.
As pesquisas mais recentes mostram o Omar Aziz na frente e uma briga apertada pelas posições seguintes.
Levantamento divulgado em julho colocou o Omar com 30%, a Maria Enxofre do Carmo e o Roberto Cidade com 21% cada e o David Almeida com 18%.
Trocando em miúdos, isso quer dizer que ainda tem muita água para passar debaixo dessa ponte. É justamente aí que entram os debates.
DEBATE NÃO GANHA ELEIÇÃO, MAS PODE MUDAR O HUMOR DO ELEITOR
Sejamos sinceros: debate, sozinho, dificilmente transforma um candidato em governador, mas pode fazer uma coisa muito importante: mudar a impressão que o eleitor tem daquele candidato. Tô certo ou tô errado?
Vocês sabem — sabem porque já viram este filme — tem candidato que chega à televisão parecendo maior do que é. Assim como tem candidato que chega do tamanho de uma anaconda e sai do tamanho de uma minhoca.
Assim como também tem candidato que ninguém estava prestando muita atenção e, de repente, aparece como protagonista.
É aí que mora o perigo. Uma resposta bem dada pode virar corte nas redes sociais, uma frase atravessada pode virar meme; acusação mal respondida pode ficar rodando durante dias.
Já uma pergunta simples, quando o candidato não sabe responder, pode virar um problemão.
Na televisão, meu amigo, não existe esconderijo.
OMAR VAI PARA O DEBATE COMO LÍDER
O Omar Aziz chega aos debates carregando aquilo que todo líder carrega: o peso da liderança.
As pesquisas recentes colocam o senador na frente. Em levantamento da DMP, por exemplo, o Omar também apareceu à frente dos adversários nas simulações de segundo turno.
Mas quem está na frente tem um problema, um problema peso pesado: todo mundo quer derrubá-lo, ou seja, o líder vira alvo.
O debate é justamente o lugar onde os adversários podem tentar fazer aquilo que a campanha tradicional nem sempre consegue: colocar o líder na defensiva.
O Omar terá de responder, explicar, contra-atacar e, principalmente, evitar cair em armadilhas, pois quem lidera não precisa ganhar todos os debates. Precisa, sobretudo, não perder a eleição dentro deles.
CIDADE PODE ENCONTRAR NO DEBATE A GRANDE OPORTUNIDADE
O Roberto Cidade tem uma situação particularmente interessante: ele precisa mostrar que seu crescimento não é apenas uma fotografia de pesquisa. É tendência. E televisão pode ajudar nisso.
Se o Cidade conseguir aparecer como candidato preparado, seguro e capaz de responder aos ataques sem perder a calma, poderá reforçar a imagem de competitividade.
Existe, porém, o outro lado. Se entrar nervoso, se exagerar nos ataques ou se for colocado contra a parede e não conseguir responder, o efeito pode ser exatamente o contrário.
Debate é faca de dois gumes: pode levantar, pode derrubar. E, no caso de uma disputa apertada, um detalhe pode valer ouro.
DAVID NÃO PODE DEIXAR O DEBATE VIRAR UM PROBLEMA
O David Almeida talvez seja um dos candidatos que mais precisam aproveitar a televisão.
Alguém precisa dizer para o David que não basta falar, é preciso convencer.
O eleitor precisa olhar para o candidato e pensar: “Esse homem tem condições de governar o Amazonas?”.
A resposta não vem apenas de números, vem de postura, segurança, propostas e capacidade de enfrentar perguntas difíceis.
O David tem experiência política e conhece profundamente a realidade de Manaus.
O debate, porém, não permite discurso pronto.
O adversário pode escolher - e não raro escolhe - justamente o assunto que o candidato gostaria de evitar.
Aí, meu amigo, é preciso ter resposta na ponta da língua.
MARIA ENXOFRE DO CARMO TAMBÉM TERÁ DE MOSTRAR DO QUE É CAPAZ. MEIO DIFÍCIL, NÉ?
A Maria Enxofre do Carmo não pode entrar no debate apenas para marcar presença.
Ela precisa ocupar espaço, precisa mostrar ao eleitor por que deve ser considerada uma alternativa competitiva.
Missão quase impossível para a Maria Enxofre do Carmo. Por quê? Ora, porque ela, quando abre a boca, cospe uma enxurrada de ideias que nos levam à inevitável dedução de que estamos diante de uma mente perturbada.
A pesquisa de julho apontou recuo dela em relação a levantamentos anteriores, enquanto o Roberto Cidade aparecia no mesmo patamar de 21%.
O MELHOR MOMENTO DO DEBATE PODE DURAR 30 SEGUNDOS
Aqui está uma coisa que os candidatos precisam entender: o eleitor não vai assistir ao debate inteiro necessariamente.
Muita gente vai assistir aos cortes, e os cortes podem decidir a narrativa.
Uma resposta de 30 segundos pode chegar a milhares ou milhões de pessoas nas redes sociais.
Lembram do Enéas? Pois é. Com um lacônico “Meu nome é Enéas”, bamburrou no pleito.
CUIDADO COM A ARMADILHA DO ATAQUE
Ataque político é parte da eleição. Existe, contudo, uma diferença entre atacar e se atrapalhar.
Quando o candidato faz uma acusação, precisa estar preparado para a resposta, pois pode acontecer o seguinte:
O candidato prepara uma pergunta para encurralar o adversário. O adversário responde. E ainda devolve a pergunta.
Aí quem preparou a armadilha acaba caindo dentro dela. É por isso que os debates exigem estratégia.
Não basta ter munição, é preciso saber quando atirar.
AQUELE QUE PARECER MAIS PREPARADO PODE LEVAR UMA FATIA DO INDECISO
Aqui está talvez o ponto mais importante: ainda existe eleitor que não decidiu. E não são poucos. São milhares.
Esse eleitor não está necessariamente procurando o candidato que grita mais, que xinga mais, que mais dá pancada na mesa.
Na minha opinião, esse tipo de eleitor - o indeciso - estar procurando o candidato que parece mais preparado para enfrentar os problemas do Estado, como saúde, segurança, educação, infraestrutura e, claro, Manaus.
Quem conseguir falar desses assuntos com clareza poderá conquistar atenção. Concorda comigo, caríssimo leitor?
Quem transformar tudo em briga poderá cansar o eleitor. Tô certo ou tô errado?
UM DEBATE PODE MUDAR POUCO. OU PODE MUDAR TUDO.
Essa é a questão. Se o eleitor já tem candidato definido, provavelmente um debate não vai mudar sua escolha. Mas existe uma parcela que ainda observa, compara e espera.
É justamente essa parcela que pode decidir uma disputa apertada.
Um candidato pode sair do debate com a sensação de que venceu, mas quem decide se venceu é o eleitor. E o eleitor pode pensar diferente do marqueteiro, principalmente de marqueteiro pimba de macaco, como tá cheio por aí.
O eleitor pode gostar de uma resposta que o adversário considerou fraca, pode rejeitar uma provocação que a campanha achou genial, pode simplesmente se identificar com uma postura.
Política é assim: às vezes, o que parece pequeno nos bastidores cresce enormemente nas ruas.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, a eleição entrou em uma fase em que televisão e redes sociais vão conversar cada vez mais.
O Omar chega como líder, o Cidade tenta consolidar seu crescimento, o David precisa mostrar força para continuar competitivo, a Maria Enxofre do Carmo busca recuperar espaço.
Por essa razão, os debates serão uma espécie de ringue político.
Mas atenção: não necessariamente vencerá o debate quem falar mais, nem quem atacar mai, nem quem construir a frase mais bonita.
Pode vencer quem conseguir parecer mais preparado, mais seguro e mais conectado com aquilo que o eleitor quer ouvir.
Afinal, debate não é para impressionar jornalista, não é para agradar marqueteiro, não é para ganhar aplauso de militante, é para conversar com o eleitor.
Como diria o velho Sinhozinho Malta:
“Tô certo ou tô errado?”.
Pois eu digo: no debate, uma palavra pode valer um voto, uma resposta pode valer mil, e uma escorregada pode custar uma eleição.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.