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*Por Antônio Zacarias - Na política amazonense, o poder é como um rio: ora transborda, ora seca. Roberto Cidade, conhecido como “Cocô de Ouro” (União Brasil) está prestes a navegar em águas profundas e perigosas. A eleição indireta marcada para terça-feira (7) é o desfecho de um plano arquitetado sob medida, mas que traz consigo o bônus e o ônus de uma jogada de alto risco.
Para quem olha apenas a superfície, “Cocô de Ouro” é o grande vencedor. Para quem enxerga os bastidores, o jogo é de vida ou morte política. Confira o raio-x dessa encruzilhada:
O BÔNUS: A CANETA MAIS PESADA DO ESTADO
Assumir o Governo do Amazonas, mesmo que por um mandato tampão até 5 de janeiro, coloca o “Cocô de Ouro” em um patamar de influência poucas vezes visto. Ele deixa de ser o "mediador" do Legislativo para se tornar o dono da chave do cofre.
Com a máquina na mão, o “Cocô de Ouro” dita o ritmo das obras, das nomeações e, principalmente, dos convênios com as prefeituras do interior em pleno ano eleitoral. Ele vira o "grande eleitor", o homem que todos os prefeitos e candidatos precisarão procurar para viabilizar suas campanhas. É o poder real, bruto e imediato.
O ÔNUS: O FANTASMA DO "DESEMPREGO" POLÍTICO
Aqui mora o perigo que tira o sono dos articuladores. O plano original do “Cocô de Ouro” era disputar uma vaga de deputado federal, cargo que lhe garantiria quatro anos de imunidade, foro e relevância em Brasília.
Ao ser eleito governador tampão pela Assembleia, ele é obrigado a concluir o mandato até janeiro. O problema? O prazo de desincompatibilização para disputar as eleições gerais já terá passado.
Resultado: No dia 6 de janeiro de 2027, Roberto Cidade entrega a faixa governamental e fica sem mandato algum. Sair da cadeira de governador para a planície, sem o escudo da Assembleia ou da Câmara Federal, é um salto no escuro que poucos políticos têm coragem de dar.
O CONFLITO MILIONÁRIO: NEGÓCIOS EM FAMÍLIA
Este é o ponto que promete ser o "calcanhar de Aquiles" do “Cocô de Ouro” perante a opinião pública e os órgãos de controle.
Não é segredo nos corredores de Manaus que empresas ligadas à família do deputado — oficialmente no nome de seu pai e de outro familiar — possuem contratos astronômicos com o Estado, ultrapassando a casa dos R$ 300 milhões por ano.
Ao sentar na cadeira de governador, Cidade, ou “Cocô de Ouro”, comp preferirem, passa a ser o ordenador de despesas, direta ou indiretamente, de contratos que beneficiam seu próprio núcleo familiar. O Ministério Público e a oposição já estão com a lupa na mão. O que era um "negócio de família" pode se transformar em um bombardeio jurídico de improbidade administrativa e conflito de interesses.
ESTRATÉGIA OU SACRIFÍCIO?
Por que “Cocô de Ouro” aceitaria trocar a segurança de Brasília pela incerteza do pós-janeiro? A resposta está na gratidão — ou na cobrança — do grupo político de Wilson Lima. Ao aceitar o cargo, “Cocô de Ouro” blinda a transição e garante que a máquina estadual continue girando a favor do grupo que busca o Senado.
Ele se sacrifica como "soldado" do grupo, mas o custo pode ser o seu próprio isolamento político no futuro. É a aposta de quem acredita que, com o poder da caneta agora, conseguirá articular sua sobrevivência depois, mesmo sem mandato.
CONCLUSÃO PARA O DEBATE
Na próxima terça-feira, “Cocô de Ouro” deve ser coroado pelos colegas deputados. Terá tapete vermelho, honrarias e o controle do Estado. Mas, nos bastidores, a pergunta que não quer calar é: vale a pena trocar quatro anos de Brasília por nice meses de Palácio da Compensa, sabendo que os contratos de R$ 300 milhões da família serão o alvo principal da artilharia pesada?
“Cocô de Ouro” está jogando pôquer com o destino. Na política, quem tem a caneta hoje pode terminar o ano sem o papel para escrever o próprio futuro.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.