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'SEGREDOS DE BASTIDORES': O TESTE DAS RUAS: ROBERTO CIDADE TENTA TRANSFORMAR ELEIÇÃO DA ASSEMBLEIA EM LEGITIMIDADE POPULAR
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

SEGREDOS DE BASTIDORES

 

*Por Antônio Zacarias - A disputa pelo Governo do Amazonas começou a pegar fogo de verdade. E o assunto que mais incomoda o Palácio da Compensa não é apenas a liderança do Omar Aziz nas pesquisas. É uma pergunta simples, venenosa e difícil de responder:

 

O Roberto Cidade é governador dos deputados ou governador do povo?

 

Ele chegou ao comando do Estado numa eleição indireta realizada pela Assembleia Legislativa, depois que o Wilson Lima e o Tadeu de Souza deixaram os cargos. Não houve campanha, comício, debate nem voto popular. Foram os 24 deputados estaduais que decidiram quem ocuparia o Palácio até janeiro de 2027.

 

Tudo dentro da lei, é bom que se diga. Mas uma coisa é ter legalidade; outra, bem diferente, é conquistar legitimidade popular. E legitimidade popular só se conquista no voto, não é mesmo?

 

A CANETA E A URNA

 

O Roberto Cidade tem a máquina estadual, aliados espalhados pelos municípios, deputados, prefeitos e uma estrutura política capaz de chegar aos lugares mais distantes do Amazonas.

 

Tem a caneta, tem o cargo, tem os eventos de inauguração, agenda oficial e muito político querendo aparecer ao seu lado.

 

Mas o Cidade ainda não tem aquilo que mais importa numa eleição: o voto que confirma o mandato.

 

É justamente aí que o Omar Aziz, a Maria Enxofre do Carmo e o David Almeida vão bater até outubro. Os adversários querem transformar a eleição indireta no calcanhar de Aquiles do Cidade.

 

A conversa será mais ou menos esta: “Agora quem escolhe é o povo”. E pode apostar, caro leitor, caríssima leitora: essa frase ainda vai aparecer muito em discurso, vídeo, entrevista e debate eleitoral.

 

OMAR NA FRENTE, MAS SEM DIREITO A REDE NA VARANDA

 

As pesquisas mais recentes colocam o Omar Aziz na liderança. A Quaest divulgada no dia 25 de agosto mostrou o Omar com 26%, o Roberto Cidade com 18%, a Maria Enxofre com 16% e o David Almeida com 15%.

 

Já o Real Time Big Data apresentou o Omar com 34%, o Cidade com 22%, a Maria Enxofre com 21% e o David com 14%.

 

Os números mudam de um instituto para outro, como você já notou. Mad contam praticamente a mesma história: o Omar está na frente e existe uma briga de foice pela segunda vaga.

 

Advirto, porém, que ninguém deve encomendar terno para a posse.

 

No segundo turno, a disputa aperta. É como aperta! Dependendo do adversário, a vantagem do Omar diminui ou desaparece dentro da margem de erro. Ou seja: o senador lidera, mas ainda não pode estender a rede e dormir tranquilo na varanda.

 

TRÊS CANDIDATOS E UMA ÚNICA CADEIRA

 

O Roberto Cidade, a Maria Enxofre do Carmo e o David Almeida estão disputando praticamente o mesmo prêmio: o direito de enfrentar o Omar no segundo turno.

 

É aí que mora a confusão. O Roberto Cidade quer usar a força do governo para se apresentar como renovação. A Maria Enxofre do Carmo aposta no eleitorado conservador e na força nacional do PL. O David tenta vender experiência administrativa e lembrar que já venceu duas eleições para a Prefeitura de Manaus.

 

Os três precisam crescer. E, para crescer, alguém terá de sangrar.

 

Façam suas apostas!

 

A campanha, portanto, deve ficar cada vez menos educada. Sorrisos desaparecerão, antigas alianças serão esquecidas e os famosos “dossiês guardados na gaveta” começarão a rondar as conversas políticas.

 

Em eleição apertada, meu amigo, minha amiga, abraço de candidato geralmente vem acompanhado de uma mão nas costas e outra conferindo onde fica o punhal.

 

DAVID ENTRE A CAPITAL E O INTERIOR

 

O David Almeida enfrenta uma situação particularmente delicada.

 

Depois de deixar a Prefeitura de Manaus para disputar o governo, ele precisa provar que sua força ultrapassa os limites da capital. Manaus concentra pouco mais da metade do eleitorado amazonense, mas o interior continua sendo decisivo, principalmente numa disputa embolada.

 

O David também corre o risco de ficar espremido entre duas máquinas: a estadual, comandada pelo Cidade, e a estrutura política montada pelo Omar e seus aliados.

 

Se o David não reagir rapidamente, poderá deixar de ser visto como candidato competitivo e virar apenas fiel da balança no segundo turno.

 

Na política, quando os aliados começam a perguntar quem você apoiará depois, é porque alguns deles já desconfiam que você não chegará lá.

 

MARIA ENXOFRE DO CARMO QUER FURAR A FILA

 

A Maria Enxofre do Carmo é hoje o fator que mais complica os cálculos tradicionais.

 

Ela aparece tecnicamente empatada com o Cidade em levantamentos recentes e tenta nacionalizar a eleição, puxando para si o eleitorado da direita.

 

Sua missão é convencer o eleitor de que ela representa oposição tanto ao grupo do Omar quanto ao governo estadual. Se conseguir consolidar essa imagem — o que eu acho difícil — poderá furar a fila e chegar ao segundo turno.

 

Para conseguir furar o cerco, o David terá de mostrar que possui estrutura política para enfrentar duas campanhas abastecidas por grupos experientes e espalhados por todo o Amazonas.

 

Uma coisa é aparecer bem na pesquisa, outra é colocar fiscal, liderança, combustível e voto dentro da urna em 62 municípios.

 

WILSON LIMA, O CABO ELEITORAL QUE TAMBÉM PRECISA DE VOTOS

 

O Wilson Lima deixou o governo para disputar o Senado, mas continua grudado politicamente no Roberto Cidade.

 

Essa parceria pode ajudar e pode atrapalhar. Explico: se o eleitor avaliar positivamente a antiga administração, o Cidade herda parte do bônus. Se prevalecer o desgaste, herda também a conta — com juros, correção monetária e tudo.

 

Além disso, o Wilson precisa cuidar da própria campanha. Na hora do aperto, cada candidato costuma proteger primeiro o próprio pescoço.

 

A dúvida nos bastidores é até onde o ex-governador estará disposto a carregar o Cidade se perceber que sua eleição para o Senado corre perigo.

 

CONCLUSÃO DE BASTIDOR

 

No fundo, a sucessão estadual virou um plebiscito sobre quem manda no Amazonas.

 

O Omar quer mostrar que ainda possui a maior força política do Estado. O Cidade precisa provar que não é apenas uma escolha da Assembleia. A Maria Enxofre do Carmo tenta quebrar o domínio dos grupos tradicionais. E o David luta para não ser engolido pela polarização.

 

O Roberto Cidade já venceu uma eleição entre 24 deputados. Agora terá de enfrentar aproximadamente 2,8 milhões de eleitores.

 

Na Assembleia, bastava conquistar a maioria dos parlamentares. Nas ruas, será preciso conquistar o cidadão que enfrenta fila no hospital, insegurança, estrada ruim, falta de emprego e abandono no interior.

 

Esse eleitor, quando entra sozinho na cabine de votação, não recebe ordem de deputado, prefeito nem governador.

 

É justamente esse voto silencioso que está tirando o sono de muita gente poderosa.

 

Quem viver verá. E quem tiver segredo, que feche bem a gaveta, porque a campanha está apenas começando.

 

*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.


Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.


Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.


Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.

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