
SEGREDOS DE BASTIDORES
*Por Antônio Zacarias- Na política, existem ações de governo. E existem ações de governo cuidadosamente transformadas em palco político.
A diferença nem sempre está no ato.
Muitas vezes está na forma.
O FATO
Nesta terça-feira, Roberto Cidade, o “Cocô de Ouro”, comandará a entrega de 2.170 óculos de grau para pacientes da rede estadual.
A iniciativa é positiva.
Ninguém em sã consciência pode ser contra consultas oftalmológicas, cirurgias ou a distribuição gratuita de óculos para quem precisa.
O problema não é a política pública.
O problema é o uso político da política pública.
A VITRINE
Desde que assumiu o governo-tampão em abril, “Cocô de Ouro” parece ter descoberto uma nova paixão: aparecer: entrega de equipamentos; anúncio de obras; eventos institucionais; visitas oficiais; mutirões; cerimônias; coletivas.
Tudo vira agenda.
Tudo vira manchete.
Tudo vira fotografia.
Tudo vira vídeo.
Tudo vira material de divulgação.
O que deveria ser rotina administrativa passou a ser tratado como espetáculo permanente.
A ESTRATÉGIA
A lógica é simples: o governo paga, a estrutura pública organiza, a máquina divulga, a imprensa cobre. E a imagem que sobra no final do processo é a do governador.
Não do Estado.
Não da política pública.
Não da equipe técnica.
Do governador.
É uma fórmula antiga.
Mas continua funcionando.
O DETALHE QUE CHAMA ATENÇÃO
Roberto Cidade ainda não anunciou candidatura.
Mas também não faz absolutamente nada para parecer alguém que não pretende disputar eleição.
Pelo contrário.
Cada agenda transmite exatamente a mensagem oposta: a de alguém que está construindo musculatura eleitoral diariamente.
Com método.
Com planejamento. E utilizando a vantagem mais poderosa que existe na política brasileira: a caneta e a estrutura do governo.
O DESVIO DE FOCO
O Amazonas enfrenta problemas graves: filas na saúde; deficiências na segurança; infraestrutura precária em vários municípios; dificuldades históricas na educação.
Mas o debate público acaba frequentemente sequestrado pela agenda fotográfica do governo.
A discussão sobre resultados cede espaço para a divulgação de eventos.
A política pública vira cenário.
A imagem vira protagonista.
O INCÔMODO
Ninguém questiona que os óculos devam ser entregues.
A pergunta é outra.
Era realmente necessário transformar cada entrega em um grande ato político?
Era necessário que cada serviço público viesse acompanhado de um esforço tão intenso de exposição pessoal?
Existe uma diferença entre prestar contas à população e construir uma narrativa permanente de promoção política.
E essa linha está ficando cada vez mais difícil de enxergar.
Entre analistas políticos, a leitura já está consolidada.
Poucos acreditam que essa hiperatividade institucional seja apenas coincidência administrativa.
A percepção predominante é que o governo provisório está sendo utilizado como plataforma de lançamento para um projeto eleitoral maior.
Mesmo sem anúncio oficial.
Mesmo sem discurso explícito.
Mesmo sem pedido formal de votos.
A mensagem já está circulando.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Óculos ajudam a população a enxergar melhor.
Mas a política também exige visão. E o que muitos observadores enxergam hoje é um governo cada vez mais preocupado em exibir realizações do que em permitir que elas falem por si mesmas.
Quando toda ação pública precisa de palco.
Quando todo serviço precisa de cerimônia.
Quando toda entrega precisa de holofote.
A dúvida deixa de ser se existe uma pré-campanha.
A dúvida passa a ser apenas quando ela será oficialmente admitida.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.