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*Por Antônio Zacarias - Minha gente, enquanto a campanha discute pesquisa, aliança, propaganda, debate e segundo turno, uma parcela da população ficou praticamente escondida debaixo do palanque: as crianças e os adolescentes.
Levantamento divulgado pelo Unicef analisou os planos dos dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas em oito estados da Amazônia Legal.
No Amazonas, a diferença foi gigantesca. O plano do Omar Aziz possui 209 menções à infância e à adolescência. O do Roberto Cidade tem somente nove, mas existe um alerta ainda maior.
Dos 16 documentos examinados na Amazônia Legal, apenas cinco apresentam propostas para enfrentar a violência sexual contra crianças e adolescentes.
Justamente na região onde a taxa desse tipo de violência é 23,3% maior do que no restante do país.
Traduzindo: a campanha pede o voto dos pais, das mães e das famílias, mas ainda fala pouco sobre como proteger seus filhos.
209 CONTRA NOVE
Vamos aos números. O Omar aparece com o documento que mais menciona crianças e adolescentes entre todos os 16 planos analisados.
Das 209 referências, 65 estão ligadas à violência ou à segurança pública. Outras 52 aparecem na educação.
São 45 na proteção social, 25 na saúde, 19 em outros direitos e três no esporte e na cultura.
O Roberto Cidade ficou do outro lado da tabela. Seu plano possui nove referências: seis na educação, duas na saúde, uma no esporte e na cultura.
Na classificação do Unicef, o documento do Cidade não teve nenhuma menção ligada à violência e à segurança pública e nenhuma relacionada à proteção social da infância.
É uma diferença que não cabe debaixo do tapete.
CIDADE QUASE NÃO FALA
Nove menções num plano para governar o Amazonas inteiro representam muito pouco.
Ainda mais quando o candidato controla a máquina estadual e pede ao eleitor mais quatro anos no comando.
O Cidade fala bastante sobre segurança, mostra viatura,mostra equipamento, apresentação a estrutura policial.
Seu plano, no entanto, segundo a classificação do Unicef, não faz referência explícita à infância na categoria de violência e segurança.
Diante de tal quadro, pergunto: onde estão as crianças dentro da política de segurança de Roberto Cidade?Onde está o combate à exploração sexual? Onde está a proteção das vítimas? Onde está o atendimento psicológico? Onde está a integração entre escola, hospital, delegacia, assistência social e Conselho Tutelar?
Se as propostas existem, a campanha precisa mostrá-las, pois, no documento analisado, elas não ganharam o destaque que o problema exige.
OMAR SAI MELHOR
Nesse confronto específico, o Omar leva vantagem. E leva com folga.
Seu plano menciona crianças e adolescentes mais de vinte vezes acima do documento do Cidade.
Também distribui essas referências por educação, segurança, saúde e proteção social.
Isso mostra uma atenção muito maior à infância dentro do planejamento apresentado.
Politicamente, é um ativo. O Omar poderá dizer que colocou o tema no papel enquanto seu principal adversário praticamente passou por cima dele. Mas calma.
CONTAR NÃO BASTA
Duzentas e nove menções não significam 209 propostas. Também não significam que todas sejam claras, financiadas ou executáveis.
O material analisado do Omar soma 1.110 páginas e, sozinho, responde por 36% de todas as referências encontradas pelo Unicef nos 16 documentos.
É um plano muito maior do que os demais. A própria metodologia faz uma ressalva importante: a contagem mede quanto o tema aparece explicitamente, mas não revela, sozinha, a qualidade de cada política.
Portanto, o Omar sai na frente na presença do assunto.
Agora precisa responder à parte difícil.
Qual é a meta? Quanto custará?Qual secretaria comandará? Quais municípios receberão estrutura? Como será medido o resultado?
Sem isso, a criança pode aparecer 209 vezes no papel e continuar invisível no orçamento.
SÓ CINCO TÊM PROPOSTA
O dado mais assustador do levantamento não é apenas a diferença entre Omar e Cidade.
É o silêncio geral.
Somente cinco dos 16 planos analisados apresentam propostas para combater especificamente a violência sexual contra crianças e adolescentes.
O estudo não informa, na tabela divulgada, quais são esses cinco documentos.
Por isso, seria errado concluir apenas pela quantidade de referências que Omar está dentro desse grupo.
O que se pode afirmar é outra coisa:
Omar aborda a infância muito mais vezes.
Cidade quase não aborda.
E os dois precisam dizer claramente quais ações específicas adotarão contra abuso e exploração sexual.
A AMAZÔNIA SOFRE MAIS
Esse silêncio seria grave em qualquer lugar.
Na Amazônia, é pior.
A taxa de violência sexual contra pessoas de zero a 19 anos na região supera em 23,3% a registrada no restante do Brasil.
Não estamos falando de um problema distante.
É dentro de casa.
É na comunidade.
É no caminho da escola.
É no barco.
É no ramal.
É na periferia.
É também na internet.
A violência pode ser cometida por desconhecido, mas muitas vezes nasce perto da vítima e cresce escondida pelo medo, pela dependência e pelo silêncio.
Por isso não basta colocar mais policial na rua.
É preciso preparar professor para identificar sinais.
Treinar equipes de saúde.
Fortalecer a assistência social.
Dar condições aos conselhos tutelares.
Garantir atendimento psicológico.
Investigar rapidamente.
E impedir que a criança precise contar a mesma violência dez vezes para dez órgãos diferentes.
SEM META, SEM COBRANÇA
Nenhum dos 16 planos analisados apresenta meta, indicador ou linha de ação para reduzir homicídios de adolescentes.
Nenhum aplica expressamente ao orçamento estadual o princípio constitucional da prioridade absoluta à infância.
Também não há ferramenta específica de transparência para mostrar quanto será gasto e quais resultados serão cobrados.
Minha gente, política pública sem meta é terreno fértil para discurso bonito.
O candidato promete proteger.
O governo anuncia programa.
A secretaria faz evento.
Sai fotografia.
Sai postagem.
Depois ninguém sabe quantas crianças foram atendidas.
Quantos casos foram investigados.
Quanto tempo a vítima esperou.
Quantos municípios possuem equipe especializada.
Quanto dinheiro realmente foi gasto.
Sem número público, o governo sempre poderá dizer que fez muito.
E a população nunca conseguirá provar que recebeu pouco.
CRIANÇA INDÍGENA SUMIU
O levantamento encontrou mais de 950 referências a povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais nos planos examinados.
Mas as crianças e os adolescentes desses grupos aparecem principalmente em propostas de saúde e educação.
Faltam medidas específicas de proteção contra a violência.
No Amazonas, essa ausência pesa ainda mais.
Uma criança de comunidade distante enfrenta obstáculos que não existem na capital.
Pode morar a horas — ou dias — de uma delegacia.
Pode não ter sinal de telefone.
Pode depender do agressor para sair da comunidade.
Pode encontrar dificuldade para denunciar em sua própria língua.
Não adianta copiar para o interior uma política desenhada dentro de um gabinete em Manaus.
Proteção precisa chegar de barco.
Pelo rádio.
Pela escola.
Pela equipe de saúde.
Pela assistência social.
E com respeito à cultura de cada povo.
O RACISMO FICOU FORA
Outro dado chama atenção.
Nenhum dos 16 planos menciona especificamente crianças e adolescentes negros.
Isso ocorre mesmo quando 86,3% dos adolescentes de 12 a 17 anos vítimas de mortes violentas no Brasil são negros, segundo os dados usados pelo Unicef.
Falar de violência sem observar raça, território, pobreza e acesso aos serviços é enxergar somente metade do problema.
A política pública precisa saber quem mais morre.
Quem mais sofre abuso.
Quem menos consegue denunciar.
E quem fica mais longe da rede de proteção.
Caso contrário, o governo promete tratar todos igualmente enquanto a violência escolhe suas vítimas de forma muito desigual.
E MARIA E DAVID?
O estudo analisou apenas os planos dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de cada estado.
No Amazonas, foram Omar Aziz e Roberto Cidade.
Isso significa que Maria do Carmo, David Almeida e os demais concorrentes ficaram fora dessa comparação.
Não significa que estejam dispensados do debate.
Muito pelo contrário.
Maria precisa mostrar quais são suas propostas específicas.
David também.
Quantos centros especializados pretendem criar?
Como fortalecerão os conselhos tutelares?
Qual será o atendimento no interior?
Haverá orçamento identificado?
Existirão metas anuais?
Quem quiser governar o Amazonas precisa responder.
Infância não pode entrar no programa eleitoral apenas quando aparece uma fotografia bonita com criança.
NÃO É SÓ POLÍCIA
O Unicef recomenda enfrentar a violência dentro e fora de casa.
Dentro da família, é necessário apoiar pais e cuidadores, formar agentes públicos e prevenir castigos e abusos.
Fora dela, o governo precisa articular educação, trabalho, saúde e assistência social para reduzir abandono escolar, pobreza, racismo e falta de oportunidades.
Também precisa reconhecer meninas, crianças negras, indígenas, quilombolas e ribeirinhas como grupos que exigem proteção específica.
E colocar no orçamento os recursos, as metas e os indicadores.
Ou seja:
Não adianta criar uma delegacia e abandonar todo o resto.
A criança precisa conseguir denunciar.
Precisa ser acolhida.
Precisa receber tratamento.
Precisa continuar estudando.
E precisa estar protegida para não voltar ao mesmo ambiente onde sofreu a violência.
TEMA SEM VOTO
Existe uma explicação política para tanto silêncio.
Criança não vota.
Não financia campanha.
Não organiza carreata.
Não controla partido.
Não oferece tempo de televisão.
E muitas vítimas nem conseguem contar o que sofreram.
Por isso é fácil empurrar o assunto para o final do plano.
O candidato fala de obra porque obra aparece.
Fala de viatura porque viatura desfila.
Fala de cartão porque cartão pode ser entregue.
Mas a proteção da infância exige trabalho silencioso, equipe qualificada, integração e acompanhamento durante anos.
Não rende tanta fotografia.
Rende vida protegida.
E isso deveria valer muito mais.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, o levantamento do Unicef colocou uma lupa sobre aquilo que a campanha preferia deixar nas letras pequenas.
Omar Aziz aparece muito melhor do que Roberto Cidade na presença da infância dentro do plano de governo.
São 209 menções contra nove.
No documento de Omar, 65 referências foram classificadas na área de violência e segurança.
No de Cidade, nenhuma.
Na proteção social, Omar tem 45.
Cidade, zero.
É uma diferença política e programática que Cidade precisa explicar. Os dados do Amazonas foram detalhados neste domingo, 27 de setembro, pelo Amazonas Atual.
Mas Omar também não pode cruzar os braços.
Citação não é orçamento.
Página não é atendimento.
Promessa não é proteção.
O próprio Unicef mostrou que nenhum dos 16 planos estabelece meta para reduzir homicídios de adolescentes e nenhum transforma expressamente a prioridade absoluta da infância em compromisso orçamentário.
O segredo de bastidor é este:
Omar colocou a criança dentro do plano. Cidade quase a deixou do lado de fora. Mas nenhum candidato poderá pedir aplauso enquanto não mostrar dinheiro, meta, prazo e resultado.
A sucessão estadual discute quem terá apoio de Lula.
Quem terá apoio de Flávio Bolsonaro.
Quem controla a máquina.
Quem lidera pesquisa.
Quem irá ao segundo turno.
Tudo isso importa.
Mas existe uma pergunta maior:
Que Amazonas o próximo governador entregará às crianças que hoje não podem votar para se defender?
Candidato que pede o voto do pai e da mãe, mas não explica como protegerá seus filhos, não está apresentando um plano.
Está pedindo um cheque em branco.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.