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'SEGREDOS DE BASTIDORES': OMAR E CIDADE TROCAM CHUMBO NA TV — E MARIA E DAVID CORREM CONTRA O RELÓGIO
Foto: Reprodução

 

*Por Antônio Zacarias - Minha gente, o primeiro debate desta reta final confirmou diante das câmeras aquilo que as pesquisas já vinham cochichando nos bastidores: o Omar Aziz e o Roberto Cidade começaram a se tratar como adversários diretos.

 

Nessa terça-feira, 22 de setembro, cinco candidatos ao Governo do Amazonas ficaram frente a frente na TV Norte Amazonas.

 

Omar Aziz, Roberto Cidade, David Almeida, Maria Enxofre do Carmo e Isael Munduruku.

 

Houve discussão sobre saúde, segurança, pobreza, produção rural e experiência administrativa.

 

O confronto politicamente mais importante, porém, ocorreu quando o Omar decidiu mirar o Cidade, e o Cidade respondeu falando como governador que pretende permanecer na cadeira.

 

O debate aconteceu um dia depois de nova pesquisa mostrar os dois separados por apenas 1,44 ponto percentual.

 

Portanto, ninguém estava discutindo por esporte. Cada ataque possuía endereço eleitoral.

 

O EMPATE CHEGOU AO ESTÚDIO

 

A pesquisa Projeta divulgada na segunda-feira, 21 de setembro, mostrou o Omar com 25,80% e o Roberto Cidade com 24,36%.

 

Como a margem de erro é de 1,79 ponto percentual, existe empate técnico.

 

Eu já mostrei aqui esses números. Acho que na coluna de ontem.

 

Mostrei também que, na pesquisa Projeta, a Maria Enxofre apareceu com 15,82% e o David, com 15,41%.

 

Os dois também estão tecnicamente empatados, mas no segundo bloco, aproximadamente dez pontos atrás dos líderes.

 

OMAR ESCOLHEU CIDADE

 

O Omar poderia concentrar ataques na Maria Enxofre, poderia pressionar o David, poderia evitar confronto e apenas defender suas propostas.

 

Mas aí não seria o Omar.

 

O Omar gosta do embate, do confronto, sobretudo se estiver diante de alguém que tem muito a explicar.

 

Em um dos momentos centrais do debate, o Omar cobrou do Cidade por sua passagem pela presidência da Assembleia Legislativa e o acusou de omissão diante dos problemas do governo do Wilson Lima.

 

O Omar também trouxe de volta a CPI da Covid e questionou gastos administrativos e de publicidade.

 

O Cidade respondeu que cumpriu seu papel na Assembleia e afirmou que não responde a processo por corrupção.

 

O Omar então, sorrindo, disparou: “Você é que ainda não sabe”.

 

O conteúdo da discussão importa, mas a escolha do alvo importa ainda mais.

 

Candidato não desperdiça o tempo curto de um debate atacando quem considera irrelevante. Concorda comigo?

 

O Omar atacou o Cidade, portanto, porque o vê como adversário principal. E o Cidade respondeu porque sabe que o Omar ocupa hoje o mesmo corredor eleitoral.

 

AS “VIATURAS FANTASMAS”

 

O Omar também lançou uma acusação forte sobre a segurança pública.

 

Afirmou que o Estado possui 2 mil viaturas alugadas, mas que menos de 200 circulariam nos fins de semana.

 

Chamou os veículos de “viaturas fantasmas”.

 

Disse ainda que delegacias anteriormente abertas durante 24 horas estariam deixando de funcionar aos sábados e domingos.

 

Agora a bola está com o governo.

 

Cidade, responde aí:

 

Quantas viaturas são alugadas? Quanto o Estado paga? Quantas estão efetivamente disponíveis? Quantas circulam nos fins de semana? Quais delegacias deixaram de funcionar permanentemente?

 

Acusação grave exige prova. Resposta de governo exige dado.

 

Se o Omar possui documentos, deve apresentá-los. Se o Cidade considera a afirmação falsa, pode desmontá-la publicando contratos, escalas, relatórios de circulação e localização dos veículos.

 

Viatura pode até não circular. Informação pública não deveria ficar parada na garagem.

 

CIDADE SACOU O AUXÍLIO

 

O Cidade respondeu às críticas tentando deslocar o debate para seu terreno eleitoral mais favorável: entregas e programas sociais.

 

Anunciou que pretende elevar o Auxílio Estadual Permanente dos atuais R$ 150 para R$ 250.

 

Prometeu ainda benefício de R$ 500 para mães e pais atípicos, responsáveis por pessoas com deficiência.

 

Politicamente, a resposta foi calculada. O Omar questionou passado, fiscalização e omissão. O Cidade respondeu falando de dinheiro no bolso das famílias.

 

Um atacou a estrutura de poder.

O outro apresentou benefício direto.

 

É a disputa clássica entre experiência e máquina administrativa.

 

O Omar diz: “Eu sei onde o governo falhou”.

 

O Cidade responde: “Eu estou governando e posso ampliar o que já existe”.

 

Foi mais ou menos isso aí.

 

Não posso deixar de ressaltar que a proposta do Cidade precisa vir acompanhada de conta.

 

O Cidade precisa responder:

 

Quantas famílias receberão os R$ 250? Quantos pais e mães atípicos terão direito aos R$ 500? Qual será o custo anual? De onde virá o dinheiro? O benefício será permanente? Quais serão os critérios?

 

Prometer aumento a menos de duas semanas da eleição possui grande força política.Justamente por isso, exige detalhamento redobrado.

 

Vocês não concordam comigo, caro leitor, caríssima leitora?

 

MARIA E DAVID BRIGARAM PELA SOBREVIVÊNCIA

 

Enquanto o Omar e o Cidade disputavam o lugar de confronto principal, a Maria Enxofre e o David travaram sua própria guerra.

 

A saúde virou o campo de batalha. A Maria Enxofre classificou as promessas dos adversários como uma “sessão de déjà vu” e perguntou por que antigos governantes não resolveram os problemas quando tiveram oportunidade.

 

O David respondeu questionando a experiência administrativa da Maria Enxofre.

 

Citou a Santa Casa, falou da ausência de hospital-escola ligado à faculdade de medicina associada à candidata e insistiu que gestão pública precisa apresentar resultado concreto.

 

A Maria Enxofre prometeu construir seis hospitais regionais e instalar outra unidade na estrutura da Cidade Universitária.

O David apresentou como credencial sua passagem pela Prefeitura de Manaus e afirmou ter construído mais de 16 unidades de saúde de grande porte com investimento de R$ 300 milhões.

 

A briga possui uma explicação numérica.

 

A Maria Enxofre tem 15,82%, o David, 15,41%.

 

Se desejam alcançar o segundo turno, precisam primeiro vencer um ao outro — e depois retirar votos do Omar ou do Cidade.

 

É como tentar ultrapassar dois carros enquanto outro concorrente ocupa exatamente a mesma faixa.

 

DAVID AUMENTOU A FILA

 

O David afirmou que aproximadamente 1,5 milhão de procedimentos estariam represados no Sisreg.

 

Disse também que 1.573 amazonenses teriam morrido desde 2023 enquanto esperavam atendimento.

 

São números gravíssimos.

 

Existe ainda uma diferença importante: quantidade de procedimentos não corresponde necessariamente à quantidade de pacientes.

 

Uma única pessoa pode aguardar consulta, exame e cirurgia, aparecendo várias vezes na demanda acumulada.

 

Recentemente, o. Omar falou em 159 mil pacientes relacionados a aproximadamente 1,27 milhão de procedimentos.

 

O David agora fala em cerca de 1,5 milhão.

 

Antes que a saúde vire campeonato de número assustador, o Governo do Amazonas deveria publicar a fila completa, com a quantidade de pacientes únicos, de procedimentos aguardados, tempo médio de espera, especialidades, municípios, mortes registradas, atendimentos realizados por mês, e por aí vai.

 

Sem transparência, cada candidato leva para o debate o número que melhor serve à própria narrativa. E o paciente continua esperando.

 

ISAEL BAGUNÇOU O ROTEIRO

 

Isael Munduruku entrou no debate sem o peso eleitoral dos quatro candidatos mais conhecidos. Isso lhe deu liberdade.

 

Questionou a experiência empresarial da Maria Enxofre e perguntou se a lógica do lucro seria levada para o governo.

 

Também mencionou familiares da Maria Enxofre que disputam a eleição em grupos adversários e quis saber se fariam parte de um eventual governo ou permaneceriam na oposição.

 

Na segurança, defendeu novos concursos para a Polícia Civil e reforço da presença policial nas fronteiras.

 

Isael dificilmente saiu do debate como favorito à vitória eleitoral.

 

Mas conseguiu algo relevante: obrigou candidatos maiores a responder perguntas que provavelmente não escolheriam receber.

 

Candidato pequeno pode não comandar o placar, mas pode mudar a pauta.

 

DOIS FICARAM DE FORA

 

O Cabo Daciolo e o Gilberto Vasconcelos não participaram.

 

As emissoras são obrigadas a convidar candidatos cujos partidos atendam ao requisito mínimo de representação no Congresso. A presença dos demais pode ser negociada, mas não é obrigatória.

 

A programação divulgada para a reta final prevê ainda debates na TV A Crítica, em 28 de setembro, e na Rede Amazônica, no dia 29.

 

Isso significa que ainda existem duas grandes oportunidades. E dois grandes riscos.

 

Hoje uma frase produz manchete. Amanhã vira vídeo. Depois entra na propaganda.

 

Quando o eleitor vai votar, talvez não se lembre do debate inteiro. Mas lembra do corte de quinze segundos recebido no WhatsApp.

 

CONCLUSÃO DE BASTIDOR

 

Minha gente, o debate da TV Norte não decidiu a eleição. Claro que não.

 

No entanto, mostrou como as campanhas enxergam a eleição.

 

O Omar escolheu o Cidade como alvo principal. Cobrou sua passagem pela Assembleia, trouxe a CPI da Covid para o confronto, questionou a segurança e lançou a acusação das “viaturas fantasmas”.

 

O Cidade respondeu defendendo sua trajetória, negando problemas judiciais por corrupção e anunciando benefícios sociais de até R$ 500.

 

A Maria Enxofre tentou romper a polarização atacando a experiência dos antigos governantes.

 

O David brigou pela pauta da saúde e prometeu zerar o Sisreg.

 

O Isael explorou as contradições que os maiores preferiam deixar longe das câmeras.

 

Todos falaram. Dois candidatos, porém, ocuparam o centro político do estúdio.

 

A conclusão de bastidor não poderia ser outra:

 

Quando o Omar atacou o Cidade e o Cidade guardou sua resposta mais eleitoral para o Omar, os dois revelaram quem consideram necessário derrotar.

 

A Maria Enxofre e o David ainda possuem votos, estrutura e tempo para mudar o cenário. Mas o relógio está correndo.

 

Os próximos debates não serão apenas oportunidades para apresentar propostas. Serão operações de sobrevivência.

 

O Omar precisa conservar sua força no interior e avançar em Manaus.

 

O Cidade precisa defender a capital sem permitir que o adversário amplie a vantagem fora dela.

 

A Maria Enxofre precisa provar que pode sair dos 15%.

 

O David precisa fazer o mesmo enquanto enfrenta a maior rejeição registrada pela pesquisa Projeta.

 

Na televisão, cinco candidatos debateram. Nos bastidores, porém, a mensagem foi outra: o Omar e o Cidade já começaram a ensaiar o segundo turno, enquanto a Maria Enxofre e o David correm para impedir que o ensaio vire realidade.

 

*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.


Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.


Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.


Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.

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