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SEGREDOS DE BASTIDORES
*Por Antônio Zacarias - Minha gente, tem uma hora na eleição em que o eleitor para de perguntar apenas “em quem eu gosto de votar?” e começa a perguntar outra coisa: “Quem realmente pode ganhar?”.
É aí que começa a aparecer um dos fenômenos mais importantes — e mais perigosos — de uma eleição: o voto útil.
E olha que esse negócio pode mudar muita coisa nas últimas semanas.
A gente sabe que o eleitor pode gostar de um candidato, admirar outro, simpatizar com um terceiro, mas, quando percebe que a eleição está apertando, começa a fazer conta.
E eleição, meu amigo, minha amiga, quando entra na fase da matemática, pode virar uma verdadeira aritmética eleitoral.
O ELEITOR COMEÇA A FAZER CONTAS
É bom ressaltar que o voto útil não significa necessariamente que o eleitor abandonou suas convicções. Não, não quer dizer isso.
Às vezes, ele, o eleitor, simplesmente entende que precisa escolher entre o candidato que gostaria de eleger e aquele que acredita ter condições de chegar ao segundo turno, ou de derrotar alguém que ele não quer ver eleito.
É aquele famoso: “Eu até votaria nele, mas acho que ele não chega.”
Pronto! Está criado o terreno para o voto útil.
Esse movimento pode ser pequeno no começo. Um por cento aqui, dois por cento ali, mas numa eleição apertada, dois ou três pontos percentuais podem representar uma quantidade enorme de votos.
A gente sabe que, quando milhares de eleitores fazem a mesma conta quase ao mesmo tempo, o cenário pode mudar rapidamente. Tô certo ou tô errado?
PESQUISA COMEÇA A TER OUTRO PESO
É justamente por isso que as pesquisas passam a ganhar ainda mais importância na reta final.
Não porque pesquisa determine o resultado. Não determina. Concorda comigo?
O que a pesquisa faz é ajudar o eleitor a enxergar quem está crescendo, quem está estacionado, quem está caindo e, principalmente, quem parece ter caminho para chegar ao segundo turno.
No Amazonas, os levantamentos recentes mostram justamente um cenário que favorece esse tipo de movimento.
O Omar Aziz aparece na frente em diferentes pesquisas, enquanto a disputa pelas posições seguintes continua bastante apertada.
Na pesquisa Eficaz divulgada em junho, por exemplo, Omar apareceu com 25,3%, David Almeida com 19%, Maria Enxofre do Carmo com 18,8% e Roberto Cidade com 18,5%.
Já levantamento GNC/Action divulgado em julho mostrou o Omar com 30%, enquanto a Maria Enxofre do Carmo e o Roberto Cidade apareciam com 21% cada e o David Almeida com 18%.
Outra pesquisa de julho, desta vez do Instituto Projeta, apresentou o Omar com 27% e o Roberto Cidade com 23,4%, enquanto o David Almeida e a Maria Enxofre do Carmo apareciam praticamente empatados, com 17% e 16,8%.
Trocando em miúdos: ainda tem muita água para passar debaixo dessa ponte.
É justamente nessa água que o voto útil pode aparecer.
OMAR PODE SER BENEFICIADO PELO VOTO ÚTIL?
Aqui é preciso separar as coisas. O Omar está na frente em vários levantamentos, mas isso não significa automaticamente que todo eleitor que optar pelo voto útil irá para ele.
Não é assim que funciona. O voto útil depende de duas perguntas: “Quem tem chance de chegar?” e “Quem eu quero que chegue?”.
Essas duas respostas precisam se encontrar.
Uma pesquisa divulgada em julho pelo Instituto DMP mostrou, inclusive, fluxos importantes de transferência de votos nas simulações de segundo turno. No cenário contra o David Almeida, por exemplo, o Omar aparecia com 55,5% contra 36,9%; contra Roberto Cidade, 58,3% contra 33,3%.
Isso mostra uma coisa importante: a fotografia do primeiro turno não é a mesma coisa que a fotografia de um eventual segundo turno. E o eleitor começa a perceber isso.
CIDADE PODE SER UM DOS GRANDES ALVOS DESSA DISPUTA
O Roberto Cidade tem um ingrediente que pode pesar bastante nessa história: crescimento.
Na pesquisa Projeta divulgada em julho, o Roberto Cidade avançou de 21,6% para 23,4%, enquanto o Omar passou de 26,2% para 27%.
Isso é importante porque existe uma diferença enorme entre um candidato que está parado e outro que o eleitor percebe como alguém que está crescendo.
Quando a campanha consegue transmitir a sensação de que “dá para chegar”, começa a surgir uma frase perigosa para os adversários: “Vou votar nele porque ele está chegando.”
É o voto útil começando a bater na porta.
DAVID PRECISA EVITAR O EFEITO “NÃO CHEGA”
O David Almeida enfrenta talvez um dos maiores desafios da reta final.Não necessariamente porque esteja fora da disputa. Muito pelo contrário.
O problema é impedir que o eleitor comece a enxergá-lo como alguém que pode ficar preso numa determinada faixa de votação. Isso é o chamado teto psicológico.
Se o eleitor começar a pensar: “Gosto do David, mas acho que ele não passa”, aí o problema deixa de ser apenas conquistar votos. Passa a ser impedir que votos já conquistados migrem para outro candidato considerado mais competitivo.
Isso pode acontecer muito rápido, principalmente quando televisão, debates, pesquisas e redes sociais começam a repetir diariamente a mesma narrativa.
MARIA DO CARMO TAMBÉM PRECISA MOSTRAR VIABILIDADE
A Maria Enxofre do Carmo está no mesmo jogo. Não basta ter eleitorado. É preciso demonstrar capacidade de transformar esse eleitorado em uma candidatura competitiva até o dia da votação.
Aqui existe uma questão fundamental: o eleitor pode gostar da candidata, mas acreditar que outro nome tem mais chances.
É nesse momento que o voto útil aparece. A campanha que não conseguir transmitir competitividade corre o risco de perder votos não necessariamente para um adversário de quem o eleitor goste mais, mas para aquele que ele acredita ser mais capaz de vencer.
É uma diferença danada de importante.
O VOTO ÚTIL TAMBÉM PODE SER CONTRA ALGUÉM
Aqui está uma das faces mais interessantes desse fenômeno.
O eleitor não escolhe apenas pensando em quem quer eleger. Às vezes, ele escolhe pensando em quem não quer ver eleito. É o chamado voto útil negativo.
“Meu candidato preferido não tem chance. Então vou votar naquele que pode impedir que o outro ganhe.” Isso já apareceu em eleições brasileiras anteriores e costuma ganhar força quando a rejeição a determinado candidato é alta ou quando o eleitor percebe uma disputa muito polarizada.
Em 2022, por exemplo, o Datafolha chegou a registrar uma parcela relevante de eleitores que admitia mudar o voto no primeiro turno para apoiar o candidato que estivesse em melhor posição.
Explico: quando a eleição entra na reta final, o eleitor pode deixar de votar apenas por preferência e passar a votar por estratégia. Isso muda tudo.
A PESQUISA PODE CRIAR UMA CORRIDA DENTRO DA CORRIDA
Minha gente, olha só que interessante. A eleição pode ter uma disputa oficial: o Omar contra o Cidade, David e Maria Enxofre.
No entanto, pode existir outra disputa nos bastidores: Quem consegue convencer o eleitor de que é o único capaz de chegar?
Aí começa uma guerra de narrativas. “ Estamos crescendo.” “Estamos em segundo.” “Estamos empatados.” “Estamos no segundo turno.” “Somos o único nome capaz de derrotar fulano.”
Cada campanha vai tentar vender ao eleitor não apenas uma candidatura, mas uma sensação de viabilidade. E essa sensação pode ser decisiva.
O eleitor não quer desperdiçar voto. Pelo menos uma parte dele pensa assim.
Quando o eleitor acredita que determinado candidato não tem chance, pode mudar de lado. Tô certo ou tô errado?
JOGO PERIGOSO
Imagine um candidato com 18% e outro com 21%.
A diferença parece pequena, mas, de repente, uma nova pesquisa mostra um deles subindo e o outro caindo.
A campanha que está subindo começa a dizer: “Agora é nós!”.
A campanha que está caindo tenta reagir: “É tudo empate técnico!”.
As redes sociais entram no meio, os grupos de WhatsApp entram no meio, os debates entram no meio, os cabos eleitorais entram no meio. E o eleitor começa a ouvir a mesma coisa de todos os lados.
É aí que pode surgir o efeito manada. Mas atenção: isso não significa que todo mundo vai mudar de voto.
Basta, porém, uma parcela fazer isso para alterar significativamente uma disputa apertada.
E O INTERIOR?
Ah, meu amigo, aí está outro ponto fundamental no Amazonas.
A eleição não se decide apenas em Manaus. O interior tem peso enorme.
Quem conseguir transmitir aos eleitores dos municípios que possui estrutura, força política e possibilidade real de chegar ao segundo turno poderá ganhar muito com o voto útil.
O levantamento GNC/Action de julho mostrou Omar com 37% no interior, enquanto Maria tinha 20%, Roberto 17% e David 18%. Na capital, o quadro era mais equilibrado, com o Omar e o Roberto Cidade em 24%, a Maria Enxofre em 22% e o David em 18%.
Isso demonstra que a eleição amazonense tem comportamentos territoriais diferentes.
O VOTO ÚTIL PODE SER O ÚLTIMO EMPURRÃO
Agora chegamos ao ponto principal. O voto útil normalmente não aparece com força quando ainda falta muito tempo.
Ele tende a ganhar importância quando o eleitor percebe que a hora da decisão está chegando.
É quando começam as conversas: “Você vai votar em quem?”. “Fulano ainda está na frente?”. “Quem está em segundo?”. “Quem tem chance?”. “Quem ganha de quem?”. “Quem pode derrotar aquele candidato?”.
Essas perguntas parecem simples, mas são elas que começam a transformar intenção em decisão.
Quando a decisão acontece em massa, meu amigo, minha amiga, a urna pode produzir uma surpresa.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, a eleição para o Governo do Amazonas ainda está aberta. Vocês sabem que eu já disse isso aqui reiteradas vezes.
As pesquisas mostram o Omar Aziz na frente em diferentes levantamentos, mas também revelam uma disputa apertada pelo segundo pelotão.
É justamente aí que o voto útil pode fazer estrago.
O Roberto Cidade precisa mostrar que seu crescimento é consistente; o David precisa convencer que continua competitivo; a Maria Enxofre precisa provar que tem força para chegar; já o Omar precisa administrar a liderança sem permitir que os adversários transformem a eleição numa disputa contra ele.
Afinal, quando o eleitor começa a fazer contas, a eleição muda de natureza.
Ele deixa de perguntar apenas: “De quem eu gosto?”, e passa a perguntar: “Quem tem chance?”. “Quem chega?”. “Quem pode ganhar?”. E, principalmente: “Quem pode impedir que aquele outro ganhe?”,
Aí, meu amigo, minha amiga, começa a verdadeira reta final, pois eleição não é apenas uma disputa para conquistar votos, é também uma disputa para evitar que os votos já conquistados escapem.
Quem costuma observar o processo eleitoral, sabe que o voto útil, quando resolve aparecer, não costuma pedir licença, ele simplesmente chega.
E, quando chega, pode chegar em grande quantidade e transformar terceiro em segundo, segundo em primeiro e uma eleição aparentemente definida em uma eleição completamente diferente.
Como diria o velho Sinhozinho Malta:
“Tô certo ou tô errado?”
Pois eu digo: na política, enquanto houver eleitor fazendo conta, ninguém pode cantar vitória antes da hora.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.