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SEGREDOS DE BASTIDORES
*Por Antônio Zacarias - Minha gente, existe uma regra não escrita da política que muitos candidatos aprendem tarde demais: quem passa tempo demais falando do adversário corre o risco de transformar o adversário no personagem principal da própria campanha.
Eis aí um dos grandes perigos desta eleição.
Na política, no debate e na busca pelo voto, o ataque é algo natural. Ele só se torna um problema real quando deixa de ser meio e vira a mensagem principal.
Quando o candidato acorda pensando no adversário, passa o dia falando do adversário e vai dormir preocupado com o adversário, alguma coisa está errada.
Não é novidade pra ninguém que o eleitor não vota apenas contra alguém. Em algum momento, ele precisa saber a favor de quem está votando.
Ai está o segredo de bastidor que merece atenção.
QUEM SÓ ATACA PODE ACABAR SEM DISCURSO PRÓPRIO
Minha gente, vamos combinar uma coisa? É muito mais fácil destruir uma proposta do que apresentar uma. Tô certo ou tô errado?
É muito mais fácil apontar um defeito no adversário do que explicar como você pretende resolver o problema do cidadão. Assim é muito mais fácil dizer “ele não presta” do que responder: “E você, vai fazer o quê?”
É aí que algumas campanhas podem entrar numa armadilha.
O candidato passa tanto tempo tentando desconstruir o adversário que, quando o eleitor pergunta o que ele pretende construir, falta resposta.
A campanha fica negativa, o discurso fica repetitivo e o candidato começa a parecer mais preocupado com a derrota do outro do que com a própria vitória.
O ADVERSÁRIO PODE VIRAR O PROTAGONISTA
Aqui está o paradoxo: imagine uma campanha que passe semanas dizendo: “Não vote nele”. “Olhe o que ele fez”. “Veja o que ele disse”. “Cuidado com ele”. Ele representa isso”. “Ele representa aquilo0.
O candidato pode acreditar que está destruindo o adversário, porém, na prática, está falando dele o tempo inteiro.
Nesse cenário, existe uma pergunta incômoda: Quem está ocupando mais espaço na cabeça do eleitor? O candidato que fala ou aquele de quem ele fala?
O que você, caro leitor, caríssima leitora, pensa sobre isso? Diga-me. Comente aí no rodapé.
Em política, repetição também constrói reconhecimento. Mesmo quando a intenção é negativa, o adversário continua sendo apresentado ao eleitor.
Agora convenhamos: candidato nenhum deveria querer passar uma campanha inteira fazendo propaganda — ainda que involuntária — do concorrente, não é mesmo?
O CASO ROBERTO CIDADE
O episódio do primeiro debate da Band Amazonas trouxe essa discussão para o centro da disputa.
Roberto Cidade decidiu não participar do encontro e sua campanha afirmou que havia uma orientação jurídica para não participar de debates e sabatinas antes do início oficial da campanha, além de acusar os adversários de tentar transformar o debate em um “palanque de ataques”.
Independentemente de concordar ou não com a estratégia, existe uma questão política importante: se uma candidatura acredita que os adversários estão concentrando ataques contra ela, precisa decidir como responder.
Pode fugir do confronto, pode comparecer e responder, pode ignorar, pode contra-atacar.
Existe, no entanto, uma quinta possibilidade, muito perigosa, por sinal: deixar que toda a campanha passe a girar em torno daquilo que os adversários estão dizendo.
Por que eu estou dizendo isso? Porque, nesse caso, o candidato deixa de apresentar uma agenda própria e passa a trabalhar dentro da agenda criada pelos concorrentes. Isso, sim, é uma armadilha.
ATAQUE NÃO PODE SER O PROGRAMA DE GOVERNO
Minha gente, o eleitor quer saber de saúde, de segurança, de emprego, de transporte, de educação. Quer saber de dinheiro no bolso. Quer saber se a vida vai melhorar.
Se a campanha passa 40 minutos atacando o adversário e apenas cinco minutos explicando suas propostas, existe um problema, não necessariamente de comunicação, mas de identidade.
Afinal, o eleitor pode terminar o programa sabendo tudo o que o candidato pensa sobre o concorrente e absolutamente nada sobre o que ele pretende fazer caso seja eleito. Isso é perigoso.
UMA ELEIÇÃO NÃO SE GANHA APENAS DIZENDO QUEM NÃO PODE GOVERNAR
Aqui está outro segredo de bastidor: existe diferença entre rejeitar um adversário e convencer o eleitor de que você é a melhor alternativa.
Esses são movimentos diferentes.
Uma campanha negativa pode aumentar a rejeição de um concorrente, mas isso não significa automaticamente que os votos irão para quem fez o ataque.
O eleitor pode simplesmente procurar uma terceira opção ou pode ficar em casa, ou pode votar branco ou nulo. Ou, mais perigoso ainda para uma candidatura, pode concluir que “é tudo a mesma coisa”.
Quando isso acontece, todos perdem.
O ELEITOR TAMBÉM SE CANSA
Tem outra coisa que marqueteiro precisa entender: o eleitor se cansa. Se todo programa eleitoral começa com uma acusação, termina com outra acusação e no meio existe mais uma acusação, chega uma hora em que o cidadão simplesmente desliga. Concorda comigo, caro leitor, caríssima leitora?
É como ouvir a mesma música tantas vezes que você começa a procurar outra estação.
Ataque demais produz saturação. E saturação produz indiferença.
Uma campanha precisa saber a hora de bater, a hora de responder e, principalmente, a hora de falar de si mesma.
O PERIGO DO “TODOS CONTRA UM”
Existe ainda uma situação particularmente delicada.
Quando vários candidatos começam a atacar o mesmo adversário, pode surgir a impressão de que aquele adversário é o centro da eleição.
Foi justamente essa leitura que apareceu na justificativa apresentada pela campanha de Roberto Cidade para sua ausência no debate.
Só que há aí um detalhe: ser o alvo de ataques pode significar duas coisas completamente diferentes. Pode significar que o candidato está crescendo e passou a incomodar, mas também pode significar que os adversários identificaram nele uma fragilidade que vale a pena explorar.
Quem observa a eleição precisa separar uma coisa da outra, e quem está dentro da campanha precisa saber qual das duas está acontecendo.
E O OMAR?
O Omar Aziz, que aparece na liderança em diferentes levantamentos divulgados ao longo da pré-campanha, tem uma situação peculiar: quanto mais consolidada estiver sua posição, mais importante se torna evitar que a eleição seja organizada exclusivamente pelos ataques dos adversários contra ele. Pesquisas divulgadas em junho e julho mostraram o Omar na frente, mas também indicaram uma disputa ainda aberta entre os demais nomes.
Para quem lidera, existe uma regra simples: não precisa responder a tudo.
Responder a todo ataque pode significar aceitar a pauta criada pelos adversários.
Também existe aí o risco contrário.
Ignorar tudo pode permitir que uma narrativa negativa cresça. Portanto, a liderança exige equilíbrio. Nem silêncio absoluto nem guerra permanente.
E PARA QUEM ESTÁ ATRÁS?
Para quem está atrás, a situação é ainda mais complicada.
O candidato precisa atacar para tirar votos de quem está na frente, mas não pode parecer apenas um candidato contra alguém.
Precisa construir uma razão para o eleitor votar nele, pois existe uma diferença enorme entre “Não vote nele” e “Vote em mim.”
A primeira frase trabalha com rejeição; a segunda trabalha com esperança.
No fim das contas, eleição costuma ser decidida pela combinação das duas coisas.
O ATAQUE QUE FUNCIONA É O QUE PRODUZ UMA CONCLUSÃO
Não existe nada de errado em fazer uma crítica dura. O problema é atacar por atacar.
Um ataque politicamente eficiente precisa deixar uma pergunta na cabeça do eleitor: “Se isso é verdade, o que o outro candidato fará de diferente?”.
A crítica precisa desembocar numa proposta. Se não desemboca, vira apenas barulho. E política já tem barulho demais. Não é verdade?
AS REDES SOCIAIS PODEM ENGANAR
Nas redes sociais, essa armadilha fica ainda maior. Por exemplo, um vídeo de 20 segundos destruindo um adversário pode alcançar milhões de visualizações, pode gerar milhares de comentários, pode virar meme, pode incendiar grupos de WhatsApp.
A militância comemora, o candidato comemora, o marqueteiro comemora.
Lindo, né? Coisa nenhuma. Lindo mesmo seria se o tal vídeo trouxesse uma carrada de votos para o candidato. Só que não há nenhuma certeza de que isso ocorrerá. Nenhuma,
Viralização não é sinônimo de transferência de voto. Uma postagem pode ter enorme alcance e nenhum impacto eleitoral significativo.
Enquanto uma fala simples sobre emprego, saúde ou segurança pode não viralizar absolutamente nada e, ainda assim, conversar diretamente com quem decide a eleição.
A ELEIÇÃO NÃO É UMA BRIGA DE TWITTER
Esse é outro segredo. A campanha digital pode dar a impressão de que a eleição acontece dentro de uma bolha. Não acontece.
Existe o eleitor que acompanha tudo, assim como existe aquele que só vê televisão.
Existe o que recebe vídeos pelo WhatsApp, existe o que conversa com o vizinho, existe aquele que ainda nem começou a prestar atenção na eleição, e existe uma multidão que simplesmente quer saber: “Quem vai melhorar a minha vida?”.
Esse eleitor não quer necessariamente saber quem ganhou a discussão na internet, quer saber quem vai governar.
QUEM VIVE DE ATAQUE PODE FICAR SEM DEFESA
Aqui está a ironia. Uma campanha baseada exclusivamente em ataques cria uma vulnerabilidade: ela ensina o eleitor a olhar para o adversário, mas não ensina o eleitor a enxergar o próprio candidato.
Quando chega a reta final, isso pode cobrar uma conta.
O eleitor então começa a questionar: “Tá bom. Eu já entendi que você não gosta dele. Mas por que eu deveria gostar de você?”.
Essa pergunta pode ser devastadora.
O SEGUNDO TURNO COMEÇA ANTES DO PRIMEIRO
Há uma questão ainda mais interessante: as campanhas não disputam apenas votos, disputam também a percepção de quem tem condições de chegar ao segundo turno.
À medida que a eleição se aproxima, o eleitor começa a fazer contas: “Esse candidato tem chance?”. “Esse outro consegue chegar?”. “Quem está crescendo?”. “Quem está caindo?”. “Meu voto pode decidir alguma coisa?”.
É aí que o ataque excessivo pode produzir um efeito contrário. Se o candidato passa a imagem de alguém permanentemente acuado, o eleitor pode interpretar isso como falta de força.
Se passa a imagem de alguém excessivamente agressivo, pode interpretar como falta de propostas. Se passa o tempo inteiro falando do adversário, pode concluir que o candidato não tem agenda própria.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, campanha eleitoral não é sessão de terapia. O eleitor não está interessado em saber quem o candidato detesta.
Ele quer saber quem o candidato é, o que pensa, o que pretende fazer, como pretende fazer, quanto vai custar e, principalmente, se acredita que aquele candidato tem condições de cumprir o que está prometendo.
Ataques fazem parte da disputa. Eu já disse isso aqui. Crítica, no entanto, não pode substituir proposta, e adversário não pode ocupar mais espaço na campanha do que o próprio candidato.
Tô certo ou tô errado?
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.