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*Por Antônio Zacarias - Minha gente, a eleição para o Governo do Amazonas já tem pesquisas, palanques, jingles, adesivos, brigas judiciais e promessas suficientes para ocupar o eleitor até outubro. Concorda comigo?
Agora chegou o combustível que faz toda essa máquina funcionar.
Que combustível é esse? Dinheiro, minha gente, dinheiro. E muito dinheiro!
Talvez vocês já saibam que as campanhas dos candidatos ao governo já declararam aproximadamente R$ 15,6 milhões em receitas. Cerca de 99% dos recursos registrados até o levantamento divulgado pela BandNews Difusora vieram do Fundo Especial de Financiamento de Campanha.
Traduzindo para a língua do contribuinte: é dinheiro público financiando a guerra pelo Palácio da Compensa. E os partidos começaram a revelar, pelo tamanho dos cheques, em quais candidaturas realmente estão apostando.
OMAR RECEBEU O MAIOR PACOTE
A campanha do Omar Aziz aparece na frente da corrida financeira.
O PSD nacional transferiu R$ 6 milhões do Fundo Eleitoral para do Omar. Também foram declarados R$ 120 mil em doações de pessoas físicas, elevando a receita total informada para R$ 6,12 milhões. É muita grana, né?
O dinheiro do partido foi transferido em duas parcelas de R$ 3 milhões, registradas no dia 26 de agosto.
O PSD recebeu nacionalmente cerca de R$ 421 milhões do Fundo Eleitoral. Portanto, os R$ 6 milhões enviados ao Omar representam aproximadamente 1,43% de todo o dinheiro público destinado à legenda.
Segundo levantamento do Portal AM1, do meu amigo Rudson Peixoto, o Omar era, naquele momento, o candidato a governador do PSD que havia recebido o maior repasse declarado pela direção nacional do partido.
Generosidade da direção nacional do PSD? Claro que não. Nesse meio, generosidade não existe no vocabulário deles.
A leitura é outra: o comando nacional do PSD enxerga o Omar como um candidato competitivo e decidiu colocar munição onde acredita que existe possibilidade real de vitória.
Partido não transfere R$ 6 milhões apenas para participar educadamente da eleição. Transfere para disputar poder.
MARIA DO CARMO VEM LOGO ATRÁS
A segunda campanha mais abastecida é a da Maria Enxofre do Carmo. ‘Fissurada’ por dinheiro, Maria Enxofre certamente está rindo com as paredes.
A direção nacional do PL transferiu R$ 4,5 milhões do Fundo Eleitoral. A Maria Enxofre também acrescentou R$ 30 mil em recursos próprios, totalizando aproximadamente R$ 4,53 milhões.
O PL possui o maior fundo entre todos os partidos: cerca de R$ 881,6 milhões.
Isso significa que o partido da Maria Enxofre tem o maior cofre do país, mas também uma fila enorme de candidatos disputando cada pedaço desse dinheiro.
O repasse mostra que a candidatura amazonense não foi esquecida pela direção nacional. Mas também impõe cobrança.
Quem recebe R$ 4,5 milhões não pode terminar a campanha alegando falta de material, estrutura ou comunicação. A Maria Enxofre terá recursos para ocupar as redes sociais, produzir programas eleitorais, viajar pelo interior e enfrentar os adversários.
Dinheiro não compra voto legalmente. Legalmente, repito. Mas compra gasolina, equipe, pesquisa, programa de televisão, impulsionamento digital e capacidade de aparecer todos os dias diante do eleitor.
Numa disputa em que a diferença entre o segundo, o terceiro e o quarto colocados cabe dentro da margem de erro, aparecer mais pode valer muito.
CIDADE TEM R$ 3 MILHÕES — E A VITRINE DO GOVERNO
O Roberto Cidade aparece com pouco mais de R$ 3 milhões recebidos do partido.
Desse montante, aproximadamente R$ 2,85 milhões vieram do Fundo Eleitoral por meio da direção nacional do União Brasil, em duas transferências registradas no fim de agosto.
Financeiramente, o Roberto Cidade está atrás do Omar e da Maria Enxofre.
O Cidade, porém, possui algo que nenhum adversário tem: a exposição permanente proporcionada pelo cargo.
Ele pode visitar obras, anunciar medidas, reunir prefeitos e ocupar diariamente o noticiário institucional, desde que, claro, respeite rigorosamente os limites impostos pela legislação eleitoral.
Essa vantagem também traz risco, como demonstraram as decisões recentes que determinaram a retirada de conteúdos eleitorais gravados em estruturas públicas.
A campanha do Cidade terá de manter uma separação clara entre o dinheiro eleitoral, a publicidade institucional e a máquina administrativa.
O recurso do partido pode ser utilizado na campanha. O dinheiro e os bens do governo não podem ser tratados como extensão do comitê eleitoral.
Essa fronteira será observada pelos adversários, pelo Ministério Público e pela Justiça Eleitoral até o último voto.
DAVID TEM MENOS DINHEIRO, MAS O AVANTE TEM COFRE MENOR
E o David Almeida? O David declarou aproximadamente R$ 2 milhões.
Em números absolutos, aparece atrás dos três principais adversários.
Há, porém, um detalhe importante: o Avante recebeu nacionalmente cerca de R$ 72 milhões do Fundo Eleitoral, quantia muito inferior aos R$ 421 milhões do PSD, aos R$ 526 milhões do União Brasil e aos R$ 881 milhões do PL.
Feita a comparação aproximada, os R$ 2 milhões destinados ao David representam uma parcela proporcionalmente relevante do fundo disponível para seu partido.
Portanto, o valor menor não significa necessariamente abandono. Pode significar simplesmente que o cofre do Avante é bem mais estreito. E realmente é, como acabei de demonstrar.
O David também conta com uma base política construída durante seus quase dois mandatos na Prefeitura de Manaus e com o apoio do atual prefeito, Renato Júnior.
A pergunta dos bastidores é se essa estrutura política conseguirá compensar a diferença financeira diante de campanhas muito mais abastecidas.
Sabemos que militância ajuda, amizade ajuda, prefeito aliado ajuda. Mad fornecedor de campanha costuma preferir pagamento.
RECEBER NÃO SIGNIFICA GASTAR
É preciso fazer uma distinção fundamental.
O valor recebido por uma campanha não é necessariamente o valor já gasto.
No levantamento publicado pela Rede Onda Digital, a candidatura que havia recebido R$ 6 milhões em recursos públicos registrava cerca de R$ 601 mil em despesas contratadas e aproximadamente R$ 78 mil efetivamente pagos naquele momento.
As prestações de contas são atualizadas ao longo da campanha. Os números representam um retrato das receitas e despesas declaradas até cada consulta, não o custo definitivo da eleição.
Também não existe, apenas pelo recebimento desses valores, qualquer indício automático de irregularidade.
O Fundo Eleitoral é previsto em lei, distribuído aos partidos e fiscalizado pela Justiça Eleitoral. As campanhas precisam informar receitas, contratos, pagamentos e fornecedores.
A discussão política não está na legalidade de receber, está no tamanho da conta, na origem pública do dinheiro e na obrigação de explicar como cada centavo será utilizado.
O ELEITOR JÁ ENTROU COM A PARTE DELE
O Fundo Eleitoral de 2026 possui R$ 4,96 bilhões. Repito: R$ 4,96 bilhões.
É dinheiro do Orçamento da União destinado às campanhas porque as doações empresariais estão proibidas. Apesar de proibidas, a gente sabe que doações são feitas na calada da noite. Tô falando besteira?
No Amazonas, os R$ 15,6 milhões já declarados pelas candidaturas ao governo equivalem a uma campanha que começou sendo paga, em enorme proporção, pelo próprio eleitor.
Ele pode apoiar o Omar, a Maria Enxofre, o Roberto Cidade, o David ou nenhum deles. Mas, como contribuinte, já entrou na divisão da conta.
O DINHEIRO REVELA O MAPA DAS APOSTAS
O Omar lidera as receitas e também apareceu à frente nas pesquisas recentes.
A Maria recebe o segundo maior repasse e tenta consolidar o eleitorado da direita.
O Cidade possui menos recursos declarados, mas governa o Estado e reúne uma grande estrutura política.
O David aparece em quarto lugar no caixa, porém recebeu uma fatia considerável do fundo nacional de um partido menor.
A minha leitura: os diretórios nacionais já fizeram suas apostas iniciais, mas ainda poderão enviar novos recursos conforme a campanha avançar.
Se um candidato crescer, poderá receber reforço; se despencar, corre o risco de descobrir que torneira partidária também fecha.
Presidente de partido gosta de fidelidade, discurso e palanque bonito.
Mas gosta principalmente de investir onde enxerga possibilidade de eleger governador.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
A sucessão estadual entrou oficialmente na fase em que discurso precisa de orçamento.
O Omar começou com o maior caixa, a Maria vem logo atrás; o Cidade combina recursos partidários com a enorme visibilidade do governo.
O David tenta fazer render um montante menor diante de adversários mais abastecidos.
Os números confirmam que a disputa amazonense ganhou importância para as direções nacionais dos partidos.
É bom lembrar, no entanto, que dinheiro não resolve tudo.
Dinheiro pode encher comício, espalhar propaganda, contratar equipe e colocar o candidato na tela do celular. Não consegue obrigar o eleitor a gostar, confiar ou votar.
A partir de agora, cada campanha terá dois desafios: gastar bem e prestar contas melhor ainda, porque os milhões podem ajudar a conquistar o governo.
Também podem produzir contratos, fornecedores e despesas que os adversários examinarão com olhos de águia.
Na eleição do Amazonas, os partidos já abriram os cofres. Agora falta descobrir quem conseguirá transformar dinheiro em voto, sem transformar a prestação de contas num caso de polícia.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.