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*Por Antônio Zacarias - Minha gente, o David Almeida renunciou à Prefeitura de Manaus no dia 31 de março para disputar o Governo do Amazonas, mas a Prefeitura não saiu de sua campanha.
Apesar de tal fato ferir ditames eleitorais, o David não é o primeiro a agir assim e certamente não será o último.
Na sexta-feira, 18 de setembro, a Justiça Eleitoral mandou suspender uma propaganda do David na qual o atual prefeito de Manaus, Renato Júnior, aparecia durante 18 dos 45 segundos disponíveis - quase metade do anúncio, portanto.
Pela legislação eleitoral, a participação de apoiadores pode ocupar até 25% do tempo da peça. O Renato tomou 40%.
Traduzindo para o português sem rodeios: o David entrou com a candidatura, o Renato entrou com a Prefeitura,, e a Justiça mandou cortar o excesso.
RENATO OCUPOU 18 DOS 45 SEGUNDOS
A propaganda foi exibida no dia 11 de setembro. Segundo a decisão da juíza auxiliar Monica Cristina Raposo, o Renato Júnior não apareceu apenas como apresentador, mas também como prefeito.
Elogiou realizações administrativas, falou sobre futuras parcerias com o David, caso ele se eleja governador, e fez aquilo que politicamente se esperava dele: pediu ao eleitor confiança no antigo chefe.
A magistrada entendeu que houve manifestação de apoio político-eleitoral, sujeita ao limite legal de 25% da propaganda.
Como o Renato ocupou 18 segundos de uma inserção de 45, o teto foi ultrapassado.
A representação foi apresentada pela coligação “União pelo Amazonas”, do Roberto Cidade.
A propaganda, no formato original, não poderá ser novamente exibida. A campanha poderá editar outra versão, respeitando o limite. O descumprimento poderá gerar multa de R$ 10 mil por veiculação irregular.
A defesa recebeu prazo para se manifestar, e a decisão ainda pode ser contestada pelos meios legais cabíveis.
RENATO NÃO FOI EXPULSO DA CAMPANHA
É importante esclarecer isso antes que a torcida transforme a decisão em outra coisa.
A Justiça não proibiu o Renato Júnior de apoiar o David e nem o impediu de aparecer na propaganda. Também não afirmou que a Prefeitura de Manaus financiou o anúncio.
O problema apontado foi objetivo: o Renato apareceu mais tempo do que a norma permite. O Renato poderá continuar participando, só não poderá ocupar 40% de uma propaganda em que o candidato é outro.
Em bom amazonês: pode ajudar, só não pode praticamente tomar o comercial para si.
DAVID PRECISA DO RENATO
Politicamente, a participação do Renato não aconteceu por acaso.
O David precisa mostrar ao eleitor que sua saída da Prefeitura não interrompeu o trabalho que realizava em Manaus. Resumindo: o Renato funciona como uma ponte.
De um lado, está a gestão municipal que o David deixou; do outro, a candidatura estadual que ele tenta construir.
Quando o atual prefeito aparece dizendo que as obras continuam e que futuras parcerias poderão ser realizadas, transmite duas mensagens.
A primeira: o David deixou alguém de sua confiança cuidando da cidade.
A segunda: se o David assumir o Estado, Prefeitura e Governo poderão trabalhar juntos.
Essa é uma narrativa poderosa, principalmente porque Manaus concentra mais da metade do eleitorado amazonense.
Quem governou a capital não quer começar uma campanha estadual do zero.
Quer transformar obra municipal em currículo, secretário em cabo eleitoral, programa da prefeitura em vitrine e sucessor em avalista.
A FRASE ESCONDIDA NA PROPAGANDA
Quando o Renato fala em “futuras parcerias”, existe uma mensagem que não precisa ser pronunciada por inteiro.
É como se ele dissesse ao eleitor: “Se o David ganhar, Manaus terá portas abertas no Governo”.
Essa ideia costuma funcionar. Prefeito e governador vivem numa relação que pode produzir convênio, obra e investimento, ou briga, nota pública e processo judicial.
Concordam comigo, caro leitor, caríssima leitora?
Claro que concordam, né? Afinal, todos sabemos disso.
Todos já assistimos a vários capítulos da guerra entre município e Estado.
Por isso, uma imagem de harmonia pode ter valor eleitoral. E tem.
O David apresenta-se como futuro governador e o Renato confirma que está pronto para ser parceiro.
Só que a campanha exagerou na dose. O comercial deveria ter o David como protagonista, e o Renato terminou aparecendo quase como coprotagonista.
A PREFEITURA VIROU O MAIOR CABO ELEITORAL
O David deixou o cargo, mas não pode abandonar politicamente a administração que comandou. Se fizer isso, perde sua principal referência de gestão.
Sua campanha depende de convencer o eleitor de que realizou obras, ampliou serviços e entregou resultados em Manaus.
O problema é que toda vez que usa o legado municipal, abre espaço para uma cobrança: onde termina a prestação de contas da gestão e começa a propaganda do candidato?
Essa fronteira é delicada, minha gente.
O Renato pode dizer que determinada obra foi iniciada pelo David. Pode apoiar publicamente o antigo prefeito. Pode defender parceria entre município e Estado.
No entanto, o Renato precisa fazer tudo dentro das regras eleitorais e sem transformar a Prefeitura numa extensão do comitê de campanha.
Até agora, repita-se, a decisão divulgada trata do tempo ocupado pelo Renato na inserção eleitoral.
Não conclui que houve uso da máquina municipal. Mas o episódio acende o alerta.
Quanto mais a campanha mistura o atual prefeito, as obras municipais e a candidatura estadual, mais os adversários procurarão o TRE.
CIDADE ATACOU O ELO MAIS IMPORTANTE
O Roberto Cidade entendeu perfeitamente a estratégia do David. Por isso, sua coligação atacou justamente a propaganda com o Renato.
O Cidade não está preocupado apenas com 18 segundos, está preocupado com o que esses 18 segundos representam.
O prefeito de Manaus pode ajudar o David a conservar influência na capital, pode participar de reuniões, pois de defender o legado da gestão, pode conversar com vereadores e lideranças comunitárias, pode dizer que a Prefeitura continuará funcionando enquanto o David pede voto no interior. Pode tudo isso.
Para o Cidade, enfraquecer essa ligação significa cortar um dos cabos que mantêm a candidatura do David conectada a Manaus.
A representação judicial, portanto, cumpriu duas funções: a jurídica e a política,
A jurídica foi retirar do ar uma propaganda que teria ultrapassado o limite.
A política foi mandar um recado: toda vez que o Renato aparecer na campanha do David, o grupo do Cidade estará contando os segundos.
QUEM USA A MÁQUINA TAMBÉM SERÁ VIGIADO
O Cidade, porém, precisa ter cuidado com o precedente político que ajuda a criar.
Ele não é apenas candidato. É governador, comanda a maior máquina pública do Amazonas, possui secretários, programas, inaugurações, publicidade institucional e uma extensa base de prefeitos.
Se sua campanha fiscaliza com rigor a aproximação entre o David e a Prefeitura de Manaus, os adversários farão o mesmo com o Governo do Estado.
Quantos secretários aparecem nos eventos? Quantas entregas administrativas coincidem com agendas eleitorais? Onde termina a divulgação institucional? Onde começa a promoção do candidato?
A cobrança precisa valer para todos. Não existe máquina boa quando está do meu lado e máquina abusiva quando trabalha para o adversário.
RENATO PRECISA SER PREFEITO
O episódio também coloca pressão sobre o Renato Júnior.
Ele assumiu Manaus em 1º de abril, após a renúncia do David.
Não recebeu apenas a chave do gabinete, recebeu problemas reais: buracos, trânsito, transporte coletivo, saúde básica, alagamentos, limpeza urbana, obras inacabadas, servidores, contas públicas.
A melhor ajuda que o Renato pode oferecer ao David não é aparecer durante 18 segundos numa propaganda, é administrar bem a cidade.
Se Manaus piorar, o prejuízo chegará à candidatura do antigo prefeito. Se melhorar, o David poderá dizer que deixou uma equipe capaz de dar continuidade ao trabalho.
O Renato precisa demonstrar que não é apenas um representante temporário do padrinho político. Precisa construir autoridade própria.
Prefeito que aparece somente como garoto-propaganda do antecessor corre o risco de parecer ocupante de uma cadeira emprestada.
OMAR ASSISTE À BRIGA DOS DOIS
O Omar Aziz pode observar esse confronto com alguma tranquilidade.
O David e o Cidade estão gastando energia um contra o outro.
O Cidade procura cortar a presença do Renato na propaganda.
O David tenta usar a Prefeitura como comprovação de experiência administrativa.
Enquanto os dois discutem segundos de televisão e recorrem à Justiça, o Omar pode continuar apresentando propostas e reforçando sua presença no interior.
Para ele, a briga possui uma vantagem evidente: cada ataque trocado entre o Cidade e o David é uma munição que não está sendo disparada em sua direção.
Por outro lado, o Omar também precisa manter o cuidado eleitoral.
Em campanha apertada, o candidato que aparece em posição competitiva não pode simplesmente assistir aos adversários brigarem e imaginar que o eleitor já decidiu. Precisa ocupar o espaço com agenda, proposta e presença.
O TRE ENTROU DEFINITIVAMENTE NA CAMPANHA
A sucessão estadual está sendo disputada em três lugares: na rua, na televisão e no tribunal.
Campanha grava propaganda de manhã.O adversário assiste à tarde. O advogado prepara a representação à noite.
No dia seguinte, chega a decisão.
Não existe mais peça eleitoral inocente. Cada segundo é analisado. Cada frase é transcrita.Cada imagem é examinada. Cada participação é cronometrada.
Os candidatos possuem marqueteiros para criar mensagens e advogados para impedir que a mensagem do adversário permaneça no ar.
A eleição ganhou um departamento de edição obrigatório: o jurídico.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Minha gente, a decisão dessa sexta-feira parece tratar apenas de sete segundos excedentes.
O verdadeiro assunto, porém, é muito maior.
O David Almeida deixou a Prefeitura para concorrer ao governo.
O Renato Júnior assumiu Manaus.
Agora a campanha tenta usar essa continuidade como prova de que o David possui experiência, equipe e capacidade de articulação.
É uma estratégia legítima, não é verdade? O problema surgiu quando o Renato ocupou 18 dos 45 segundos da propaganda, ou seja, 40% do anúncio, acima do limite de 25% indicado pela Justiça Eleitoral.
A peça foi suspensa no formato original. Poderá ser reeditada. Que isso fique bem claro.
O Renato poderá continuar apoiando o David e a defesa ainda poderá contestar a decisão.
Não houve, nesse caso, condenação por compra de votos, abuso de poder ou uso da máquina municipal. Não houve, é que se diga isso.
O que houve foi um freio no tempo reservado ao apoiador. Mas, politicamente, o recado foi dado.
O Cidade descobriu onde incomodar o David.
O David descobriu que seu principal cabo eleitoral também pode se transformar em problema jurídico.
O Renato descobriu que, na televisão, até apoio possui cronômetro.
O Omar assiste aos adversários gastarem munição entre si.
Resumindo:
O David deixou o cargo de prefeito, mas precisa que a Prefeitura continue aparecendo em sua campanha. O Cidade sabe disso e decidiu atacar justamente essa ponte.
A Justiça não mandou o Renato sair da propaganda, mandou reduzir sua participação.
Afinal, numa inserção de 45 segundos, o candidato precisa ser o personagem principal. E, desta vez, minha gente, o Renato apareceu tanto que quase sobrou pouco anúncio para o próprio David.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.