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*Por Antônio Zacarias - Na política, cada palavra dita no primeiro dia de poder tem peso de sinalização estratégica. E a fala do novo prefeito de Manaus, Renato Júnior, ao assumir o comando da prefeitura após a renúncia de David Almeida, não passou despercebida nos bastidores.
Mais do que um discurso protocolar, Renato lançou uma mensagem política clara: ele pretende bater na porta de todos os atores de poder do Amazonas, inclusive daqueles que estiveram, até ontem, em rota de colisão com a gestão anterior.
Nos corredores da política amazonense, o trecho que mais chamou atenção foi quando o novo prefeito afirmou que pretende procurar o governador Wilson Lima e conversar com os senadores Omar Aziz, Eduardo Braga e Plínio Valério para tratar de projetos e recursos para Manaus.
A declaração ganhou peso porque o cenário político recente foi marcado por confrontos diretos entre David Almeida e dois desses personagens: Wilson Lima e Omar Aziz, ambos potenciais protagonistas da disputa pelo Governo do Amazonas.
A pergunta que ecoou imediatamente no bastidor foi inevitável:
Renato está tentando desarmar a guerra política ou marcando território próprio?
A ESTRATÉGIA DA MÃO ESTENDIDA
Na prática, a fala do novo prefeito aponta para uma estratégia de distensão institucional.
Manaus depende de parcerias com o Governo do Estado, de emendas parlamentares e de apoio político em Brasília para tocar obras e projetos. Em um ano eleitoral, transformar a prefeitura em trincheira política poderia significar travar investimentos importantes.
Ao dizer que vai “bater na porta” de todos, independentemente de alinhamento político, Renato tenta construir a imagem de um gestor pragmático e institucional, disposto a dialogar com qualquer liderança que possa contribuir com a cidade.
É o discurso da política do resultado, não da rivalidade.
A SOMBRA DE DAVID E O DESAFIO DA AUTONOMIA
Mas há um segundo elemento nessa equação.
Desde que assumiu o cargo, uma dúvida paira sobre o novo prefeito:
até que ponto ele governará com autonomia ou apenas administrará a cidade enquanto David Almeida se dedica à campanha ao governo?
Ao sinalizar diálogo com adversários diretos de David, Renato também envia um recado sutil: a cadeira de prefeito tem dono — e o dono, agora, é ele.
Isso não significa rompimento político. Pelo contrário. Renato foi um dos principais pilares da gestão anterior e segue alinhado ao projeto político de David Almeida.
Mas governar exige pragmatismo. E o novo prefeito parece disposto a exercê-lo.
O DISCURSO DA “GESTÃO DE GENTE”
Outro detalhe que chamou atenção na fala foi a tentativa de aproximar o discurso do cidadão comum.
Ao dizer que também quer ouvir “a dona Maria do Jorge Teixeira”, Renato buscou reforçar a ideia de que a prefeitura estará aberta não apenas aos políticos, mas à população.
É um recurso clássico de comunicação política: equilibrar o diálogo institucional com a narrativa de proximidade popular.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Nos bastidores, a leitura predominante é que Renato Júnior iniciou seu mandato tentando construir três mensagens ao mesmo tempo:
a) Que Manaus precisa de cooperação política, não de guerra institucional.
b) Que ele pretende governar com pragmatismo e diálogo amplo.
c) E que, embora o projeto político seja de continuidade, a liderança administrativa agora tem assinatura própria.
Se esse gesto de pacificação sobreviverá ao clima quente da campanha pelo Governo do Amazonas, ainda é cedo para saber.
Mas uma coisa já ficou evidente nos primeiros movimentos do novo prefeito:
Renato Júnior decidiu começar seu governo com a mão estendida — inclusive para quem, até ontem, estava do outro lado da trincheira política.
Na política, porém, a mão estendida pode significar duas coisas: convite ao diálogo ou teste de força.
O tempo — e os próximos movimentos de Brasília e do Palácio do Governo — dirão qual das duas leituras prevalecerá.
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.