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'SEGREDOS DE BASTIDORES': ROBERTO CIDADE FALTA AO DEBATE E TRANSFORMA A AUSÊNCIA EM MAIS UM CAPÍTULO DA DISPUTA PELO SEGUNDO TURNO
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

SEGREDOS DE BASTIDORES

 

*Por Antônio Zacarias - Minha gente, o debate da Band Amazonas de domingo deixou uma coisa muito clara antes mesmo de qualquer candidato terminar sua última fala: em eleição, às vezes, a ausência de um candidato pode falar mais alto do que a presença dos outros.

 

O Roberto Cidade, governador-tampão e candidato à reeleição, decidiu não comparecer.

 

Em nota divulgada de última hora, alegou que os demais candidatos estariam combinados para massacrá-lo.

 

É aí que começa a história que interessa aos bastidores.

 

Afinal, quando um candidato diz que não vai a um debate porque acredita que os adversários estão combinados para atacá-lo, ele não está apenas justificando uma ausência, ele está criando uma narrativa.

 

E o eleitor, naturalmente, começa a fazer outra pergunta: “Mas, se ele não foi, quem ficou com a vantagem?”

 

A CADEIRA VAZIA TAMBÉM DEBATE

 

Minha gente, convenhamos: cadeira vazia em debate eleitoral nunca fica realmente vazia. Ela vira personagem. Não é verdade?

 

Os candidatos presentes podem olhar para aquela cadeira e falar diretamente com o eleitor sobre quem não está ali.

 

Podem questionar, podem criticar, podem provocar e, principalmente, podem dizer aquilo que o ausente não terá oportunidade de responder naquele momento.

 

Isso aconteceu em Manaus em 2024, quando David Almeida faltou ao primeiro debate da Band. A ausência acabou sendo explorada pelos adversários durante o programa e virou um dos assuntos centrais da noite.

 

Agora, em 2026, a história se repete com outro personagem. Só que desta vez o ausente é o Roberto Cidade. E isso tem peso.

 

ROBERTO CIDADE TRANSFORMOU O DEBATE EM UMA DISPUTA SOBRE O DEBATE

 

A justificativa dO Roberto Cidade merece ser observada com atenção.

 

Ao dizer que os adversários estavam combinados para massacrá-lo, ele colocou o debate sob suspeita antes mesmo de entrar no estúdio.

 

Há aí, porém, uma contradição política. Se os adversários realmente estivessem combinados para atacar o Roberto Cidade, o debate poderia ser justamente a oportunidade para ele desmontar a estratégia.

 

Era ali que ele poderia responder, contra-atacar. Enfim, dizer ao eleitor: “Estão todos contra mim porque eu sou o candidato que está crescendo”. Ou: “Eles estão unidos contra mim porque sabem que eu tenho condições de chegar ao segundo turno”.

 

Ou simplesmente: “Podem atacar. Eu vou responder”.

 

Mas o Cidade não foi. E, ao não ir, entregou aos adversários uma coisa que nenhum marqueteiro gosta de entregar: tempo de televisão sem contraponto.

 

QUEM VENCEU?

 

Agora vem a pergunta que todo mundo está fazendo: Quem venceu o debate?

 

Minha resposta é cuidadosa. Não considero correto apontar um vencedor absoluto sem uma avaliação da íntegra do programa, bloco por bloco, pergunta por pergunta, resposta por resposta.

 

Debate não se ganha apenas com uma frase de efeito. Pode haver candidato que seja melhor tecnicamente, outro que seja mais agressivo, outro que tenha melhor desempenho diante das câmeras e outro que consiga produzir a frase que vai viralizar nas redes sociais. São coisas diferentes.

 

Existe, porém, uma leitura política possível. Qual? Toma: quem mais se beneficiou da ausência do Roberto Cidade foi quem conseguiu ocupar o espaço deixado por ele.

 

Afinal, sem o candidato que vinha crescendo nas pesquisas e disputando espaço no segundo pelotão, os demais puderam reorganizar o confronto.

 

O Omar Aziz pôde defender sua liderança; o David Almeida pôde tentar recuperar terreno; a Maria Enxofre do Carmo pôde apresentar-se como alternativa, embora essa sua narrativa esteja indo de mal a pior.

 

Mal orientado, o Cidade (quem é mesmo o marqueteiro dele?), que deveria estar ali para defender seu projeto, ficou fora do ringue.

 

OMAR GANHA TRANQUILIDADE

 

Para o Omar Aziz, a ausência do Roberto Cidade pode ser interpretada como um fator de tranquilidade.

 

Não necessariamente porque o Omar tenha “ganhado” o debate, mas porque deixou de enfrentar diretamente um adversário que vem tentando transformar crescimento em competitividade.

 

O líder de uma eleição geralmente não precisa ganhar todos os debates. Às vezes, basta não perder.

 

Esse é um detalhe importante.

 

O Omar entra nessa fase da disputa com uma vantagem: ele precisa administrar a liderança.

 

Os adversários é que precisam tirar votos dele. Portanto, qualquer debate em que os candidatos do segundo pelotão gastem boa parte do tempo atacando uns aos outros pode acabar favorecendo, indiretamente, quem está na frente.

 

DAVID PRECISA MOSTRAR QUE AINDA ESTÁ NO JOGO

 

Para o David Almeida, o debate tinha outra importância.

 

O David precisa demonstrar ao eleitor que continua sendo uma candidatura competitiva.

 

A questão para ele não é apenas falar bem. É transmitir viabilidade.

 

O eleitor precisa olhar para o David e pensar: “Esse cara pode chegar”.

 

Quando começa a surgir a dúvida sobre quem chegará ao segundo turno, entra em cena um fenômeno que vamos discutir na próxima coluna: o voto útil.

 

Pense numa coisa danada de perigosa. É esse tal de voto útil.

 

O eleitor pode gostar de um candidato e, ainda assim, escolher outro porque acredita que o primeiro não tem força suficiente para vencer.

 

A AUSÊNCIA PODE TER UM PREÇO

 

Aqui está o principal segredo de bastidor da noite de domingo. O Roberto Cidade pode ter evitado aquilo que temia: um debate em que os adversários se unissem para atacá-lo.

 

Mas pode ter criado outro problema: deixou de participar de um momento em que precisava defender seu nome.

 

Quem é mesmo o marqueteiro do Cidade?

 

Que tipo de marqueteiro é esse que não sabe que, em política, não existe espaço vazio; que, se você não ocupa o espaço, alguém ocupa; se você não conta a sua versão, alguém conta a versão dele; se você não responde à acusação, o eleitor pode ouvir apenas a acusação.

 

É por isso que debates são tão perigosos, mas também são tão importantes.

 

CIDADE PODE TER UM ARGUMENTO

 

Agora, vamos fazer justiça ao outro lado. A estratégia do Cidade não é necessariamente absurda. É absurda, mas não necessariamente.

 

Um candidato que acredita que será transformado no alvo de todos pode concluir que não vale a pena participar, principalmente se considerar que seus adversários pretendem transformar o debate numa espécie de “todos contra um”.

 

Só que existe um problema: a política não é julgada apenas pela intenção, é julgada pelo efeito. E o efeito imediato da ausência foi deixar a cadeira vazia. E cadeira vazia, minha gente, em televisão, costuma chamar muita atenção.

 

O DEBATE DE DOMINGO NÃO TERMINOU QUANDO A TRANSMISSÃO ACABOU

 

Esse talvez seja o ponto mais importante: o debate acabou na televisão, mas começou nas redes sociais.

 

Cada campanha ja selecionou os melhores momentos. Cada candidato agora vai dizer que venceu. Cada militante vai publicar seu vídeo. Cada grupo de WhatsApp vai escolher seu “campeão”.

 

Eu ainda não vi, mas certamente já surgiram as pesquisas informais das redes:

 

“Quem venceu?”. “Quem foi melhor?”. “Quem foi pior?”. Quem destruiu quem?”. “Quem passou vergonha?”.

 

Isso tudo faz parte da política moderna, mas existe uma diferença entre viralizar e conquistar voto.

 

Um candidato pode produzir um grande momento nas redes e não alterar sua votação. Da mesma forma, pode ter um desempenho tecnicamente sólido sem produzir nenhum vídeo viral.

 

É por isso que o verdadeiro resultado de um debate só aparece depois.

 

NAS PESQUISAS, A RESPOSTA SERÁ MAIS IMPORTANTE

 

O que realmente interessa agora é observar as pesquisas que vierem depois.

 

Se o Cidade continuar crescendo, sua ausência poderá ser interpretada como uma escolha estratégica que não lhe custou caro.

 

Se estacionar ou cair, os adversários certamente dirão: “Ele não foi porque teve medo do confronto”.

 

Se o Omar mantiver sua liderança, terá conseguido atravessar mais uma etapa sem sofrer dano relevante.

 

Se o David crescer, poderá dizer que recuperou espaço.

 

Se a Maria Enxofre crescer, poderá reivindicar que entrou definitivamente na disputa pelo segundo turno.

 

É assim que o eleitor transforma debate em voto.

 

CONCLUSÃO DE BASTIDOR

 

Minha gente, não vou cometer aqui o erro de decretar, sem uma análise integral e objetiva das falas, que fulano ou sicrano “destruiu” o debate.

 

Isso é torcida. Jornalismo é outra coisa.

 

Uma coisa, no entanto, podemos dizer: o Roberto Cidade não participou do debate porque acreditava que seria massacrado. E, paradoxalmente, sua ausência acabou deixando os adversários livres para falar dele sem que ele pudesse responder.

 

Esse é o grande paradoxo da noite de domingo.

 

Ele tentou fugir do massacre, mas pode ter deixado o palco aberto para que os outros construíssem a narrativa sobre ele.

 

Agora vem a parte mais interessante.

 

A eleição está entrando numa fase em que não basta aparecer nas pesquisas, é preciso parecer competitivo. Não basta ter voto, é preciso parecer capaz de chegar. Não basta atacar, é preciso responder. E não basta estar na disputa, é preciso estar presente quando o eleitor está olhando.

 

Quanto à pergunta que todos me fazem: Quem venceu o debate?

 

Minha resposta é simples: o debate ainda não tem um vencedor definitivo, mas quem certamente ganhou espaço foi quem conseguiu ocupar o espaço deixado pela cadeira vazia do Roberto Cidade.

 

Na política, minha gente, espaço vazio é como água de rio (não importa se a água é do rio Negro ou do Solimões): se alguém não ocupa, a correnteza leva para outro lado.

 

Tô certo ou tô errado?

 

* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.


Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.


Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.


Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.

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