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'SEGREDOS DE BASTIDORES': ROBERTO CIDADE GANHA DUAS DORES DE CABEÇA: CASSAÇÃO NA MESA E OMAR DENTRO DO SEU HORÁRIO ELEITORAL
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

*Por Antônio Zacarias - Minha gente, a eleição para o Governo do Amazonas saiu do palanque e foi parar com força no tribunal. E o Roberto Cidade ganhou duas dores de cabeça praticamente de uma vez.

 

A primeira: a Procuradoria Regional Eleitoral apresentou parecer pedindo a cassação dos registros do Roberto Cidade e de seu vice, Serafim Corrêa, por suposto uso eleitoral do programa Governo Presente.

 

A segunda: o Omar Aziz conseguiu direito de resposta contra uma propaganda do Cidade que o associava à Operação Maus Caminhos.

 

Traduzindo: o David atacou pelo Governo Presente. O Omar reagiu pela Maus Caminhos. E o Cidade ficou no meio dos dois fogos.

 

CALMA: CIDADE NÃO FOI CASSADO

 

É bom que fique bem claro que o Roberto Cidade não foi cassado.

 

Aconteceu o seguinte: o Ministério Público Eleitoral apresentou parecer favorável ao pedido de cassação feito pela coligação do David Almeida.

 

Quem decidirá é o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas.

 

Antes da decisão, o Cidade poderá apresentar sua defesa e, dependendo do que o TRE decidir, recorrer.

 

Portanto, nada de sair dizendo que o governador já perdeu o registro. Não perdeu.

 

Mesmo assim, não dá para fingir que o parecer não é sério. É sério, sim, e muito.

 

A Procuradoria pediu multa máxima e cassação do registro do Cidade.

 

No caso do Serafim Corrêa, o pedido decorre da unidade da chapa, sem atribuição de participação direta na conduta investigada.

 

O PROBLEMA É O “GOVERNO PRESENTE”

 

A confusão gira em torno do programa Governo Presente.

 

Que programa é esse? É aquele grande mutirão em que o Estado reúne consultas, exames, entrega de óculos, crédito, serviços para produtores e vários outros atendimentos.

 

Outra coisa: o Ministério Público não está dizendo que o programa é ilegal. Prestem atenção nisso.

 

O problema apontado é outro. A acusação sustenta que o Roberto Cidade teria usado essas ações para promover sua imagem pessoal durante a campanha. E aí mora a encrenca.

 

Uma coisa é o Estado entregar benefício. Outra é o candidato aparecer como se estivesse entregando o benefício do próprio bolso.

 

CIDADE APARECEU DEMAIS?

 

Segundo o parecer, foram analisadas nove edições do Governo Presente realizadas entre maio e julho, além de um evento no Vasco Vasques em agosto.

 

A Procuradoria sustenta que o Cidade participou pessoalmente da entrega de benefícios, apareceu em posição de destaque e teve sua imagem exaltada por aliados.

 

Fotos e vídeos também teriam ido parar rapidamente nas redes sociais. É exatamente isso que o TRE terá de analisar.

 

O Cidade estava simplesmente cumprindo sua agenda como governador? Ou o governador acabou servindo de vitrine para o candidato?

 

Essa é a pergunta.

 

GOVERNO É GOVERNO. CAMPANHA É CAMPANHA

 

Essa linha é fina. Muito fina.

 

Governador não deixa de governar porque virou candidato. Hospital não fecha, programa social não para, crédito não acaba. Serviço público continua.

 

Há, porém, uma regra básica: dinheiro público não pode virar propaganda eleitoral disfarçada.

 

Afinal, o benefício pertence ao Estado, não ao governador. Muito menos ao candidato.

 

Se o cidadão recebe um cartão, um óculos ou um serviço público, não está recebendo favor de político nenhum. Está recebendo algo financiado com dinheiro público. Ponto.

 

CIDADE DIZ QUE NÃO HOUVE ABUSO

 

A defesa do Cidade sustenta que o Governo Presente não nasceu agora. E realmente não nasceu. Foi herdado do governo Wilson Lima.

 

A defesa também argumenta que não houve pedido de voto, número de candidato ou condicionamento de benefício a apoio eleitoral.

 

A tese é simples: o Cidade estava trabalhando como governador. E governador pode acompanhar ações do próprio governo.

 

É um argumento que o TRE terá de considerar. O Ministério Público, porém, entende que o Roberto Cidade foi além da presença institucional.

 

Agora caberá à Justiça decidir quem tem razão.

 

O ALERTA JÁ TINHA VINDO

 

Antes mesmo desse parecer, a Justiça Eleitoral já havia colocado limites na participação do Cidade no Governo Presente.

 

Determinou que ele não entregasse pessoalmente cartões, kits e outros benefícios.

 

Também restringiu situações em que pudesse aparecer como personagem principal das ações.

 

Não era cassação. Era um freio. O recado, porém, estava dado: o programa podia continuar, mas o candidato não podia virar o dono da festa.

 

Agora a discussão ficou muito mais séria.

 

SERAFIM ENTROU NO PACOTE

 

O Serafim Corrêa não é apontado como participante direto das condutas atribuídas ao Cidade. Mesmo assim, seu registro também entrou no pedido de cassação.

 

Por quê? Porque governador e vice formam uma chapa. Se a Justiça entender que ocorreu irregularidade grave capaz de atingir o registro do candidato a governador, a consequência pode alcançar o vice.

 

Em português bem claro: na. urna, os dois entram juntos. No problema jurídico, também podem sair juntos.

 

DAVID ACERTOU ONDE DÓI

 

Foi a coligação do David Almeida que apresentou a ação. E o David escolheu justamente um dos pontos mais delicados da candidatura do Cidade: a máquina estadual.

 

O Cidade é governador e candidato. Tem secretaria, programa social, obra, evento, entrega, estrutura, prefeito aliado.

 

Tudo isso gera exposição. E tudo isso também será fiscalizado pelos adversários.

 

O David percebeu esse flanco. Foi ao TRE. E agora possui um parecer do Ministério Público favorável à tese de sua coligação.

 

Mas cuidado: parecer não é sentença. Se o David exagerar e começar a dizer que o Cidade já foi cassado, poderá transformar uma vantagem política numa informação falsa.

 

OMAR GANHOU O MICROFONE DO CIDADE

 

Enquanto o David atacava pelo Governo Presente, o Omar travava outra batalha.

 

A campanha do Cidade colocou no ar uma propaganda chamada “Maus Caminhos”, associando Omar à conhecida operação.

 

A defesa dI Cidade sustentou que estava apresentando fatos históricos e exercendo crítica política.

 

O Omar respondeu que a peça escondia informações posteriores importantes e criava no eleitor a impressão de que ainda existiriam acusações criminais contra ele.

 

A Justiça concordou com o pedido do Omar naquele caso.

 

Resultado: a propaganda foi interrompida e o Omar ganhou direito de resposta.

 

Mais do que isso: o Omar poderá responder usando o tempo da própria coligação do Cidade.

 

Aí dói, né? Sobretudo na reta final da campanha.

 

ATACOU E PERDEU TEMPO

 

Em reta final, cada segundo de televisão vale ouro.

 

O Cidade utilizou seu tempo para atacar o Omar.

 

Agora parte desse espaço será usada pelo próprio Omar para responder. É prejuízo em dobro.

 

O Cidade perde a mensagem que queria transmitir e o Omar ganha uma vitrine que originalmente pertencia ao adversário.

 

Em eleição apertada, isso importa. E muito.

 

A última pesquisa Projeta mostrou o Omar com 25,80% e o Cidade com 24,36%.

 

A diferença está dentro da margem de erro. Ou seja: os dois estão brigando voto a voto.

 

Nesse cenário, ninguém quer entregar um minuto de televisão para o adversário. Muito menos de graça.

 

CIDADE LEVA FOGO DOS DOIS LADOS

 

Olhem a situação. O David bate pela máquina pública. O Omar rebate pela propaganda. O Cidade precisa responder aos dois.

 

Para o David, terá de mostrar que o Governo Presente não foi usado eleitoralmente.

 

Para o Omar, terá de explicar a propaganda sobre a Maus Caminhos.

 

É uma posição desconfortável, principalmente porque estamos na reta final.

 

Campanha gosta de passar os últimos dias atacando, não respondendo.

 

Quando o candidato passa o dia explicando decisão judicial, sobra menos tempo para falar de proposta.

 

AGORA É TUDO NO CRONÔMETRO

 

Faltam poucos dias para a votação. E nessa altura qualquer problema cresce.

 

Uma decisão judicial vira manchete, a manchete vira vídeo, o vídeo vai para o WhatsApp, o WhatsApp chega ao eleitor.

 

Quando a campanha percebe, passou o dia inteiro discutindo algo que não estava no planejamento.

 

É por isso que o jurídico virou praticamente outro comitê eleitoral.

 

Tem marqueteiro fazendo propaganda e advogado tentando manter a propaganda no ar.

 

Tem candidato fazendo discurso e advogado lendo cada palavra antes de ela virar processo.

 

Na reta final, minha gente, até vírgula dá confusão.

 

CONCLUSÃO DE BASTIDOR

 

Minha gente, o Cidade ganhou duas bombas para desarmar.

 

A primeira veio do David. O Ministério Público Eleitoral pediu a cassação da chapa por suposto uso eleitoral do Governo Presente.

 

A segunda veio do Omar. A Justiça concedeu direito de resposta contra a propaganda que relacionava o senador à Operação Maus Caminhos.

 

O Cidade não foi cassado. Isso precisa ficar muito claro.

 

O TRE ainda vai decidir o processo do Governo Presente.

 

Uma coisa, porém, é inegável: o desgaste político já começou.

 

O David conseguiu colocar a máquina estadual no banco dos réus do debate eleitoral.

 

O Omar conseguiu transformar um ataque do Cidade em espaço para sua própria resposta.

 

O segredo de bastidor é simples:

 

O Cidade agora luta em duas frentes: contra o David, precisa defender o Governo Presente. Contra o Omar, precisa defender sua propaganda.

 

Tudo isso acontece quando o Omar e o Cidade aparecem tecnicamente empatados na pesquisa Projeta.

 

Na reta final, candidato quer usar o tempo para pedir voto.

 

O Cidade terá de gastar uma parte dele explicando processo. E o Omar, para piorar a dor de cabeça do adversário, ainda ganhou o direito de fazer essa discussão dentro do horário do Cidade.

 

*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.


Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.


Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.


Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.

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