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12 horas? Argentina apaga 178 anos de luta operária
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Para contextualizar a gravidade deste projeto, é imperativo resgatar a história

Por Plínio Cesar A. Coêlho -A proposta do presidente Javier Milei de estender a jornada de trabalho legal na Argentina para até 12 horas diárias não é apenas um passo para trás; é um salto brutal de quase dois séculos rumo à selvageria capitalista do início da Revolução Industrial. Tal medida, apresentada sob a falsa bandeira da "liberdade" ou "produtividade", é, na verdade, uma afronta direta à história da luta operária e à dignidade humana.

 

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Para contextualizar a gravidade deste projeto, é imperativo resgatar a história. No século XIX, durante a Revolução Industrial, não era raro que trabalhadores, incluindo crianças, fossem submetidos a jornadas extenuantes que chegavam a 16, 17 e até 18 horas por dia.

 

Foi neste cenário de exploração brutal que, em 1847, na Inglaterra, berço do capitalismo industrial mais voraz, a classe trabalhadora conseguiu uma vitória civilizatória: a Lei Fabril (Ten Hours Act). Esta legislação estabeleceu um limite de 10 horas diárias para jovens e mulheres na indústria têxtil.

 

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O que a proposta de Milei sugere é impor um aumento de 50% na jornada diária (passando de 8 para 12 horas) e permitir jornadas que a Europa industrializada já considerava excessivas e desumanas há 178 anos.

 

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A Lei das Dez Horas foi o começo de uma jornada de progresso, pavimentando o caminho para o padrão universal das Oito Horas Diárias ("8 horas para o trabalho, 8 horas para o descanso, 8 horas para o que quisermos"). Milei, ao propor 12 horas, não está modernizando a economia; está transformando a Argentina em um museu de horrores sociais, negando os frutos de séculos de batalhas por direitos básicos.

 

A ESCRAVIDÃO DA PRODUTIVIDADE E O CUSTO HUMANO

 

É um mito econômico refutado que jornadas mais longas geram maior produtividade. Pelo contrário, a exaustão física e mental inerente a 12 horas de trabalho contínuo – possivelmente seis dias por semana – leva ao burnout, ao aumento de acidentes de trabalho e à queda drástica na qualidade da produção.

 

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Fotos: Reprodução

 

O custo social e de saúde pública dessa proposta é incalculável. Jornadas de 12 horas estão diretamente ligadas ao aumento de doenças crônicas (cardiovasculares e metabólicas), transtornos de ansiedade e depressão. A pressão constante de um regime de trabalho exaustivo não só deteriora a saúde mental e física do indivíduo, como também onera o sistema de saúde do Estado. A Argentina estaria trocando um suposto ganho marginal de produção por uma epidemia de esgotamento e doenças ocupacionais, transferindo o custo da exploração diretamente para a sociedade.

 

Esta medida ignora os avanços da ciência e da ergonomia para servir exclusivamente aos interesses do capital mais predador. Ao invés de discutir a redução progressiva da jornada (tendência observada em países desenvolvidos, como a França e a discussão global sobre a semana de 4 dias), a Argentina opta pelo caminho da exaustão.

 

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Trabalhar 12 horas não deixa espaço para a vida cívica, para o lazer, para o convívio familiar, para a educação ou para o descanso reparador. É uma política que visa transformar o trabalhador em uma mera engrenagem exaurida, desprovida de agência e dignidade. A proposta de 12 horas é a negação do progresso social e um ultraje à memória dos mártires da jornada de 8 horas. Se aprovada, a Argentina não terá apenas uma crise econômica, mas uma crise humanitária de trabalho. 

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