Promover um ambiente em que as pessoas se sintam seguras para falar sobre saúde mental é fundamental
Quando a tristeza se torna insuportável e a esperança se esvai, para alguns, o suicídio pode parecer a única saída. E assim, essa epidemia silenciosa continua sendo uma das principais causas de morte em todo o mundo. Mais pessoas morrem como resultado de suicídio do que devido a HIV, malária, câncer de mama, guerras e homicídios. São quase 800 mil mortes anuais, o que significa uma a cada 40 segundos.
Mais homens morrem assim do que mulheres. As taxas de suicídio caíram nos 20 anos entre 2000 e 2019, em todo o mundo, com exceção nas Américas, que registram aumento de 17%.
O Brasil está entre os países com taxas moderadas a altas. Devemos redobrar ainda mais a atenção pelo agravamento de sua ocorrência no contexto da Covid-19, com a queda do status socioeconômico, o aumento de doenças mentais como depressão, ansiedade, e esquizofrenia, e o incremento do uso de medicamentos psicotrópicos e de drogas ilícitas.
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Embora alguns países tenham colocado a prevenção ao suicídio em sua agenda prioritária, apenas 38 nações são conhecidas por terem uma estratégia nacional de prevenção. É necessária uma aceleração significativa na redução para cumprir a meta dos objetivos do desenvolvimento sustentável de uma redução de um terço na taxa global de suicídio até 2030. O Brasil vive hoje uma escassez de políticas públicas relacionadas ao tema.

Um dos relatos mais antigos de suicídio vem das antigas epopeias e textos religiosos. Por exemplo, no Antigo Testamento, o rei Saul comete suicídio após ser gravemente ferido em batalha para evitar ser capturado pelos filisteus. Em textos greco-romanos, temos várias referências a suicídios. Um dos mais famosos é o de Ájax, um herói da Ilíada de Homero, que se mata por desonra.
O suicídio representa a tragédia do sofrimento humano, frequentemente eclipsado pelo estigma e pela incompreensão. A compreensão sobre o suicídio vai além do reconhecimento da dor; trata-se de vislumbrar os gritos silenciosos de desespero que são muitas vezes mascarados por sorrisos aparentemente serenos e garantias de que “tudo está bem”.
É imperativo, portanto, desmistificar os véus que circundam essa questão e fomentar uma sociedade que acolha e apoie, ao invés de julgar e estigmatizar. A narrativa predominante muitas vezes relaciona o suicídio a um momento específico de crise, negligenciando os processos subjugados que levam à sua contemplação.
Nessa perspectiva, é vital a disseminação de informações que visam à educação da sociedade, que precisa estar apta a identificar sinais de alerta e oferecer um suporte inicial, direcionando ao auxílio profissional quando necessário. Em contrapartida, os sistemas de saúde devem estar preparados para acolher esses indivíduos em situações críticas.

Foto: Reprodução
Além de propor uma sociedade mais empática e consciente, uma revolução também se faz necessária nas escolas. Deve-se combater a cultura do revanchismo, da competição, e buscar a saúde mental, em sua concepção mais ampla. O individualismo exacerbado e a busca exagerada por reconhecimento são questões que impedem o bem-estar em comunhão consigo mesmo.
Deve-se incluir no plano de desenvolvimento da sociedade a filosofia, a educação, a arte, a cultura, a comunicação e a criação de políticas de estado. Promover um ambiente em que as pessoas se sintam seguras para falar sobre saúde mental é fundamental. Podemos todos contribuir para um ambiente livre de julgamentos e aberto à conversa.
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O suicídio é prevenível e todos nós temos um papel a desempenhar. Ao encorajarmos a abertura, ao ouvirmos com empatia e ao nos educarmos sobre saúde mental, podemos construir uma comunidade onde o apoio está prontamente disponível para aqueles que enfrentam a escuridão da desesperança. Podemos ser farol potencial de esperança na vida de alguém.
Fonte: O Globo