O ex-jogador de futebol David Beckham revelou, na série documental que leva seu nome e exibida pela Netflix, o quanto fica angustiado com seus próprios rituais de limpeza. O britânico, desde o início dos anos 2000, adota essas práticas em sua rotina, devido ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).
“O fato é que todos estão na cama e eu vou dar uma volta, deixo os interruptores nas posições certas, me certifico que tudo está arrumado. Odeio acordar de manhã e encontrar xícaras, pratos e tigelas sujos”, relatou Beckham, que admite que os rituais são “cansativos”, mas se sente forçado a realizá-los.
O fato é que, somente no Brasil, o TOC afeta mais de 4,5 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Veja também

Saiba por que você não pode usar cotonete para limpar os ouvidos
Vacina contra Covid-19 estará disponível em nove unidades de saúde da prefeitura neste sábado, 25/11
O psicólogo e psicanalista João Victor Bernardo Ferreira, que realiza atendimentos clínicos em Santos, litoral paulista, explica as características principais e a descrição sintomática do transtorno. “Basicamente, se divide em duas classes distintas de fenômenos: a obsessão, que se caracteriza por fenômenos mentais, como pensamentos, ideias, imagens, cenas e impulsos que invadem a consciência contra a vontade da pessoa, de forma repetitiva e estereotipada. As obsessões podem vir acompanhadas de rituais que visam neutralizar a angústia causadas por elas, que seriam as compulsões”, destaca.
“Já as compulsões são caracterizadas por comportamentos repetitivos (como lavar as mãos excessivamente, verificar portas e janelas, alinhar objetos), ou atos mentais (contar, repetir palavras e frases, rezar) executados, geralmente, em resposta à uma obsessão, ou devido à certas regras rígidas do indivíduo causadas pelo TOC”, afirma Ferreira, mestrando em Ciências da Saúde, onde pesquisa a respeito da intersecção entre política e clínica psiquiátrica.
“Os fenômenos obsessivos e compulsivos podem ser tematicamente agrupados e, geralmente, envolvem as seguintes categorias: ‘obsessões de agressão e compulsões relacionadas’; ‘obsessões religiosas, sexuais e compulsões relacionadas’; ‘obsessões de simetria e compulsões de ordenação e arranjo’; ‘obsessões de contaminação e compulsões de limpeza/lavagem’; e ‘obsessões e compulsões de colecionismo’”, esclarece o especialista.
“SIMPLES MANIAS” OU TRANSTORNO?
Uma das dúvidas mais frequentes reside em como diferenciar “simples manias” de um problema mais sério que se transforma em TOC.
“Acabaríamos tendo que adentrar no debate entre normal e patológico. Esse debate é particularmente tênue quando se pensa no diagnóstico de TOC em crianças, tendo em vista que, em algumas fases do desenvolvimento, é completamente esperada a presença de comportamentos repetitivos, rituais e repetições, principalmente envolvendo regras rígidas no ato de brincar, coleções de objetos e rituais específicos necessários para comer, dormir e tomar banho. Esses comportamentos são, em certa medida, esperados e não são considerados patológicos”, conta Ferreira.
No caso do TOC, o psicólogo acredita que três parâmetros essenciais para se indagar a respeito da diferenciação entre um transtorno e uma “simples mania” seriam a duração diária (podendo ocupar horas do dia da pessoa), a intensidade dos fenômenos e o quanto eles interferem nas atividades do indivíduo.
“Quanto à etiologia, essa talvez seja a parte mais complexa de se definir. A psiquiatria – e as abordagens psicológicas que possuem mais afinidade com o paradigma biomédico – defende a influência genética como fator determinante para o surgimento do transtorno. Já para a psicanálise, a gênese da neurose obsessiva – (que não é o mesmo quadro do TOC, mas estou aqui realizando uma aproximação apenas para fins didáticos) – irá se relacionar com a dificuldade em adequar as pulsões de agressividade e as pulsões sexuais com um imperativo moral muito rígido do sujeito, tendo no sintoma obsessivo-compulsivo uma espécie de solução de compromisso entre as diferentes instâncias”, conta.
ESPECIALISTA ESCLARE SE EXISTE UM PADRÃO NO TOC
Em relação à suposta existência de um padrão, ou seja, se determinados TOCs são frequentes ou se repetem em pessoas que não têm relação, Ferreira diz que os aspectos culturais afetam muito mais o conteúdo dos sintomas do que a forma em si.
“Em diferentes culturas o tema principal dos sintomas parece gravitar em torno da questão da limpeza, entendida tanto no sentido literal – limpeza física e do espaço, obsessões ligadas à contaminação –, quanto a limpeza entendida num sentido mais metafórico, aquilo que seria da ordem do ‘sujo’, do ‘imoral’ – aí entram as obsessões ligadas à agressão, exagero do sentimento de responsabilidade, medo dos impulsos sexuais”, relata.
“Os aspectos culturais eu presumo que tenham um efeito mais visível na segunda categoria, a respeito daquilo que seria considerado ‘sujo’ e ‘imoral’ nas obsessões. Obsessões de agressão podem assumir a forma de sacrilégios e blasfêmias com mais frequência em sociedades com um fundamentalismo religioso mais pronunciado, ou talvez o enfoque em obsessões sexuais possa ser mais presente em culturas com menos liberdade sexual. A ‘escolha’ sintomática inconsciente acabará tendo tanto aspectos culturais, quanto aspectos voltados à própria história de vida do sujeito”, explica Ferreira.
RITUAIS OBSESSIVOS COMPULSIVOS PODEM SER ALTERADOS
O psicólogo menciona Freud para explicar se é possível trocar de TOC. “Ao descrever os principais mecanismos de defesa da neurose obsessiva – (novamente, uma aproximação com o TOC por razões didáticas, apesar de um quadro não ser 100% equivalente ao outro e se tratarem de conceitos diagnósticos distintos) – ele descreve como o deslocamento está no cerne da gênese desse quadro. Freud afirma que os sintomas possuem um sentido inconsciente que têm relação com a história de vida do sujeito, mesmo que o próprio sujeito desconheça, e a formação sintomática seria justamente a ‘solução de compromisso’ deste conflito advindo da história do sujeito. No caso do sintoma obsessivo, a solução viria justamente na capacidade de deslocar este conflito para algo banal e corriqueiro, presente nos pensamentos e atos repetitivos”.
Ele lembra o que Freud afirmava em suas conferências introdutórias: “O neurótico obsessivo pode apenas deslocar, trocar, substituir uma ideia tola por outra que de algum modo é mais atenuada, proceder de uma cautela ou proibição a outra, realizar um cerimonial em lugar de outro. Ele pode deslocar a obsessão, mas não eliminá-la. A possibilidade do deslocamento de todos os sintomas para algo bastante diverso de sua configuração original é uma característica central de sua enfermidade” (1917, p. 282).
Em resumo, diz Ferreira, é possível que os rituais obsessivos compulsivos sejam alterados ao longo da trajetória do sujeito, mas isso não pode ser generalizado para todos os casos.
RELAÇÃO ENTRE TOC E CULPA
Questionado se as pessoas que sofrem de TOC se sentem angustiadas ou aliviadas após cumprirem as tarefas do respectivo ritual, o psicólogo diz: “A culpa talvez seja o sentimento mais basilar no quadro de TOC. Parte da culpa presente no TOC vem justamente do rígido imperativo moral do indivíduo que sofre desse transtorno, que, costumeiramente, se sente culpado pelas cenas intrusivas que vêm à sua consciência, principalmente quando os pensamentos obsessivos envolvem ideias de agressão. Os rituais compulsivos vêm, então, também como uma forma de afastar a ideia intrusiva e obsessiva, isolando, assim, o sentimento de culpa e trazendo um certo alivio para a angústia”, ressalta o profissional.
CURA E TRATAMENTO
O profissional ressalta, ainda, que a discussão a respeito do conceito de cura também é um tanto quanto complexa e muito presente no meio psicanalítico.
“Para todos os efeitos irei falar apenas de tratamento. Os pormenores do tratamento sempre se darão no ‘um a um’, pois não há como prever quais rumos o processo analítico irá tomar. Em casos mais graves, onde os rituais compulsivos e os pensamentos obsessivos se tornam impeditivos para a vida regular da pessoa, a psiquiatria irá recomendar a intervenção farmacológica utilizando inibidores da recaptação de serotonina (IRS), mas, mesmo esta etapa, varia de caso a caso. O psiquiatra responsável irá avaliar qual a melhor medicação e como o paciente reage ao remédio”, revela Ferreira.
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram
Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram
O profissional vai além: “É recomendado, não obstante a intervenção farmacológica, que o indivíduo inicie um processo terapêutico com um psicólogo. As abordagens comportamentais irão trabalhar de forma mais pragmática e ‘psicoeducativa’, focando numa mudança de comportamento que vise a prevenção dos rituais. Já as abordagens psicanalíticas irão tencionar a investigação dos possíveis conflitos inconscientes que estariam no cerne do surgimento dos sintomas, através de uma restituição da história do sujeito no setting analítico. Independentemente da abordagem escolhida pelo sujeito, o processo terapêutico se faz essencial no tratamento e na remissão dos sintomas”, completa Ferreira.
Fonte:Revista Fórum