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Desigualdade do país tem impacto forte na vacinação, mesmo gratuita, mostra estudo
Foto: Reprodução

Municípios com pior cobertura da campanha de Covid-19, nos últimos dois anos, foram aqueles mais pobres, com menor escolaridade média, e maior população negra

Quando o estudo analisou a terceira dose de reforço, particularmente, foi possível enxergar uma grande diferença. Dividindo todos os municípios do país em cinco grupos usando o critério da educação, o grupo com nível de escolaridade média mais alto teve cobertura de reforço 43% melhor que o grupo no outro extremo, entre adultos. Entre idosos a diferença foi menor (19%), ainda que substancial.

 

Usando a mesma comparação, dividindo os municípios por “quintis” (cinco grupos de mesmo tamanho), o quintil que tinha população mais branca teve uma cobertura de reforço 24% melhor do que aqueles no quintil mais negro. Já na análise por faixa de renda, os municípios no quintil mais rico se saíram 21% melhor.

 

Quando avaliadas as diferenças entre gênero, os pesquisadores também encontraram diferenças grandes. Nesse caso, foi possível consultar os dados diretamente dos registros de vacina, que incluíam sexo e idade. “As mulheres adultas apresentaram taxas de cobertura superiores às dos homens (variando de 118% a 25% mais altas ao longo do período analisado)”, dizem os pesquisadores.

 

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Segundo Lorena Barberia, cientista política da USP e coautora do estudo, a Covid-19 permitiu mostrar um problema de base no programa de vacinação geral do país.

 

— A Covid-19 é uma nova doença, com uma estratégia de vacinação muito complexa, e nessa situação as desigualdades de acesso tendem a se reproduzir de forma magnificada — explicou.

 

NEGACIONISMO 


A troca de comando do governo federal foi marcada por um maior reconhecimento do Estado no papel da vacinação, mas isso por si só não basta para resolver a questão do acesso à vacina, dizem os pesquisadores.

 

O ataque do movimento antivacina e do negacionismo científico, que cresceram na pandemia de Covid-19, foi grave, mas o problema de base que a desigualdade representa pode ser maior.

 

— O desafio de resolver esse problema tem uma complexidade que vai além do Zé Gotinha. Não pode ser simplificado. É um problema que vai precisar de um desenho e de uma estratégia diferenciados para se resolver — afirma Barberia.


Ela e os outros coautores do trabalho colocaram os dados da pesquisa num repositório aberto, que pode ser consultado por gestores de saúde para planejamento na cobertura das lacunas de cobertura vacinal.

 

O diretor do PNI, o infectologista Eder Gatti, afirma que está ciente do desafio a ser enfrentado:

 

— Umas principais causas da queda da cobertura vacinal é o acesso à vacina, ou seja, o acesso ao serviço de saúde, que é muito sensível a determinantes sociais. Infelizmente o nosso país é muito desigual. O sistema deveria ser equânime, mas a desigualdade coloca os mais pobres em desvantagem.

 

O problema em muitos casos, dizem os pesquisadores, não é de disponibilização da vacina por si só, mas de planejamento. Envolve administração de doses fracionadas, logística, transporte e comunicação para fazer populações chegarem até o posto de saúde para vacinação no dia certo, ou alcançá-las com postos móveis. Sobretudo em áreas rurais, isso pode ser difícil.

 

Gatti afirma que está trabalhando para dirimir o problema, e o ministério alocou R$ 150 milhões de orçamento num programa voltado para tal:

 

— A gente está chamando os municípios e oferecendo ferramentas de planejamento. Com elas é possível elaborar estratégias de vacinação que fazem com que o serviço de saúde chegue até o não vacinado, incluindo vacinação fora do sistema de saúde e busca ativa de não vacinados.

 

O ministério diz que começou o trabalho por municípios do Acre e do Amazonas, que possuíam índices piores de cobertura vacinal e risco de reintrodução da poliomielite.

 

— Infelizmente, essa é uma realidade brasileira que ficou mais crítica nos últimos anos. No médio e longo prazo, é preciso uma reestruturação da atenção primária, que envolve valorização de profissionais de saúde, financiamento e estruturação — diz Gatti.

 

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Fonte: O Globo

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