Apesar de dócil, o roedor é um dos animais hospedeiros do carrapato-estrela, parasita transmissor da doença
A confirmação de quatro mortes por febre maculosa em uma única semana em Campinas (SP) acendeu alerta para os riscos da domesticação de capivaras, um dos animais hospedeiros do carrapato transmissor da doença. No Brasil, além do roedor, o parasita pode estar presente em cavalos, gambás e bois, e a proximidade com os animais merece alguns cuidados, sobretudo em regiões consideradas de risco.
A infecção da doença é transmitida somente pela picada do carrapato da espécie Amblyomma cajennense, popularmente conhecido como carrapato-estrela. Nas capivaras, a febre maculosa não apresenta sintomas, mas para os seres humanos pode ser letal. Associado à Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o médico infectologista José David Urbaéz indica o uso repelentes, calças, camisa de manga longa e sapatos fechados em regiões com maior presença do roedor.
O especialista reforça que, apesar de seu comportamento dócil e aparentar ser domesticável, a capivara deve ser mantida em seu habitat natural para evitar a transmissão de doenças — tanto para o humano quanto para o animal.
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— Existem muitas questões de risco em domesticar animais selvagens. No caso da capivara, um dos riscos é que o roedor porte o carrapato transmissor e a pessoa acabe se infectando. Os animais selvagens têm o habitat bem definido. Nada melhor do que se mantê-los no ambiente natural — comenta Urbaéz.
O biólogo Fabiano de Abreu aponta que, além da migração do carrapato causador da febre maculosa, a espécie também pode transmitir outras doenças, a exemplo de raiva, leishmaniose, leptospirose e tripanossomíase.
— Se a pessoa vive em áreas onde há muitas capivaras, ao passear por zonas onde elas predominam, é importante usar roupas que tapem a pele e claras, para que possa enxergar caso tenha carrapatos pelo corpo e os remova. Demora um tempo para o carrapato em contato com a pele infectar — aponta.
São Paulo é o estado que contabiliza o maior número de casos e óbitos por febre maculosa a cada ano no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. Em 2023, o estado registrou 12 casos, sendo que quatro evoluíram para cura, seis para óbitos e dois continuam em investigação.
As quatro vítimas da doença confirmadas esta semana apresentaram sintomas da febre maculosa após participarem de um evento em 27 de maio na Fazenda Santa Margarida, interior de Campinas. Além dos quatro casos confirmados, o município monitora duas suspeitas, uma mulher de 40 anos, que frequentou o mesmo evento, e uma mulher de 38 anos, que esteve também na fazenda em 3 de junho. Ambas estão internadas.
TRATAMENTO
A doença tem como sintomas iniciais febre, dor de cabeça, dores musculares e desânimo, assim como outras infecções. Embora os efeitos colaterais pareçam passageiros, a doença apresenta alta letalidade se não tratada rapidamente, aponta a infectologista Joana D’Arc, da Rede D’Or.
— A febre maculosa pode ter letalidade baixa ou elevada, depende de como é feito o diagnóstico e da procura do tratamento em momento oportuno. O tratamento realizado logo no início dos sintomas é simples e efetivo, com uso de antibiótico oral.
No caso das vítimas de Campinas, os óbitos aconteceram alguns dias depois do início dos sintomas. Elas apresentaram febre, dores de cabeça e manchas avermelhadas no corpo.
O tratamento deve ser iniciado imediatamente após o diagnóstico. Ele dura geralmente sete dias e, em muitos casos, é necessária a internação. A demora para iniciar a terapia, ou a não utilização dos medicamentos, aumenta o risco já alto de óbito.
— A orientação é administrar o remédio logo após o sintoma inicial, que é a febre. Como é uma febre comum como de outras doenças, como dengue ou hepatite, é comum que o diagnóstico não seja feito de forma correta. Acontece muito de a pessoa só buscar atendimento médico quando está com os sintomas avançados, infelizmente — relata o médico José Urbaéz.
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Fonte: O Globo