Hoje CEO da Bradesco Asset, ele avalia que o governo pode fazer ajustes após avaliar as repercussões
A decisão de anunciar junto a ampliação da isenção do Imposto de Renda pode comprometer esse objetivo. Hoje CEO da Bradesco Asset, ele avalia que o governo pode fazer ajustes após avaliar as repercussões. Como avalia o pacote apresentado pelo governo?
Tem um pacote de controle de gastos com várias coisas que vão na direção de cumprir o objetivo, que era trazer sustentabilidade para o arcabouço fiscal. Isso reduziria a percepção de risco, na minha visão. Só que acabou sendo um pacote no conceito mais amplo, que já traz o tema da reforma do Imposto de Renda.
Temos visto uma reação de aumento de incerteza muito grande e isso tem se refletido nos preços.Porque esse outro tema (IR) traz também uma carga fiscal, que foi apresentado como neutro, com compensação pela criação do Imposto de Renda mínimo. Qual é a percepção de risco fiscal? É que precisa da tramitação do projeto. O pacote de gastos pode ser reduzido e a compensação pode ser reduzida ou pode nem ocorrer.
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Não é impossível e tem até uma certa probabilidade de o Congresso não querer criar um imposto novo e querer fazer a revisão da tabela. E aí o que era para reduzir o risco fiscal aumenta o risco fiscal. Tudo que estava sendo feito para trazer sustentabilidade para o modelo fiscal. Pode acabar comprometendo esse objetivo. Tudo isso começou com a discussão da retomada do grau de investimento, depois do upgrade da Moody’s, pensando no que precisava ser feito para recuperar o grau de investimento.
(A conclusão) foi fazer o arcabouço ser sustentável para estabilizar a dívida. O que está acontecendo agora é que está trazendo mais incerteza.É, tem que trazer mais credibilidade, tem que reduzir o risco fiscal. E a pergunta é se o pacote todo reduz o risco fiscal. Acho que esse é o debate que a gente tem que fazer e analisar os prós e os contras. O governo argumenta que a isenção do IR só vai acontecer se houver compensação. Não é suficiente?

Tem que bater nisso e seria muito importante não só sair do governo, mas sair dos líderes do Congresso. Se observarmos um movimento de que só vai ter revisão de tabela com compensação, diminui muito a percepção de risco. A percepção hoje é de que o Congresso vai ter dificuldade de criar imposto. E para reajustar a tabela não precisa de compensação, pode passar sozinho. O que fica é o risco fiscal de redução de receita por conta da revisão da tabela do IR. Estava-se esperando um pacote só de contenção de gasto e criou-se uma janela que traz um risco fiscal.
Mas ainda tem como reverter essa reação inicial negativa? Sempre tem. Tem muita conversa, muita costura política. Tem que escutar as pessoas, com o mercado ou os técnicos em geral, com a academia. E ver qual foi a reação e fazer os ajustes. Tem várias pessoas boas de fora do governo que querem o melhor para o país. Mas o risco atrelado à reforma do IR não está agora nas mãos do Congresso? Já foi enviado o projeto? O governo gostaria de fazer ação fiscal para mostrar que consegue sustentar o arcabouço até o fim do mandato e gostaria de fazer o ajuste da tabela. É bem razoável focar primeiro no pacote e, dependendo do sucesso do pacote, começar a discutir a tabela.
Precisa ter uma sustentabilidade fiscal para discutir algum outro risco fiscal. Acho que esse tipo de ajuste pode ser feito, pode ser discutido, pode ser redimensionado. À parte do IR, o pacote de gastos é suficiente para dar sustentabilidade ao arcabouço e controlar a trajetória da dívida? Seria suficiente para dar uma boa sinalização. Seria suficiente para a sustentabilidade do modelo fiscal até o final deste mandato, mas não é suficiente para estabilizar a dívida. Para estabilizar a dívida, precisa de bem mais. Mas estaria na direção correta. Dificilmente a gente teria um pacote grande o suficiente para estabilizar a dívida. É uma construção temporal. Mas, para um primeiro objetivo, que é entregar o déficit zero, traria mais tranquilidade. Teria essa percepção positiva.

Fotos: Reprodução
Vai ser possível economizar R$ 70 bilhões em dois anos? Talvez não seja esse efeito de R$ 70 bilhões, talvez um pouco menos. Se não for R$ 70 bilhões, é R$ 45 bilhões. Mas tem muito esforço que eu acho legal, talvez esse tenha sido todo o trabalho, de fato fazer esse pente-fino para ver onde pode contribuir, qual vai ter efeito. Considerando o governo de esquerda, teoricamente com mais dificuldade de cortar gastos, esse resultado não é satisfatório? É uma construção. O governo percebeu essa necessidade de pautar a discussão de gastos e que a gente teve um ganho muito grande de estar sempre discutindo a necessidade de ter controle fiscal.
O pacote é o choque fiscal positivo que o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, mencionou? Os preços estão falando para a gente hoje que vamos ter uma Selic de 14%, 14,5% no fim do ano que vem. Tem uma questão de risco fiscal, de sustentabilidade da dívida. A revisão da tabela vai gerar alguma pressão inflacionária e vai fazer com que o Banco Central tenha que reagir, subindo os juros. E o BC já considera as expectativas.
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Então hoje está precificada já uma aceleração do passo do BC de alta de juros, para 0,75 pp. Isso prejudica até o próprio objetivo do Executivo. O Executivo quer fazer o reajuste na tabela porque teve inflação que comeu o poder de compra. Com isso, pode gerar inflação, que vai comer o benefício do ajuste da tabela.
Fonte: O Globo