Expressão, que circula nos corredores do próprio governo, mostra preocupação com falas do presidente sobre política externa enquanto percepção doméstica piora
Lula estaria acometido da "síndrome do herói global". A expressão, que circula reservadamente nos corredores do próprio governo, mostra uma preocupação dos aliados do presidente com sua insistência em tratar temas controversos de política externa de forma improvisada, sem ouvir o Itamaraty, e em descompasso com a percepção do eleitorado doméstico sobre os mesmos assuntos. A tal síndrome é apontada como grande responsável pela queda continuada na aprovação do presidente e também do governo, reforçada pela pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira.
A pesquisa mediu diretamente a reação dos brasileiros à fala em que Lula equiparou o horror do Holocausto ao da guerra de Israel em Gaza. A fala foi considerada "exagerada" por 60% dos entrevistados, mas a reação foi ainda mais negativa no eleitorado evangélico, que é amplo, crescente e que já não esteve com Lula em 2022.
Mas não foi a única notícia preocupante da pesquisa. A percepção sobre o momento atual da economia e a expectativa para a mesma daqui para a frente pioraram, num descolamento em relação a indicadores como crescimento de quase 3% do PIB, inflação controlada, juros em queda e emprego em recuperação mostrados pelos dados oficiais.
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Seria muito mais urgente e produtivo para o governo acertar o passo na agenda econômica no Congresso, comunicar melhor as conquistas do primeiro ano de governo na economia e parar de importar crises que não são do Brasil só por conta da afinidade ideológica de Lula.
As declarações do presidente sobre o processo eleitoral na Venezuela são disparatadas, e demonstram uma série de contradições com seu discurso sobre o período em que ficou preso e foi proibido de disputar a eleição de 2022. Além disso, ao comparar a decisão da Justiça da Venezuela, absolutamente aparelhada por Nicolás Maduro, com as da Justiça brasileira, independente, Lula dá razão a um dos discursos mais insistentes dos bolsonaristas, que agora, inclusive, equiparam a inelegibilidade do ex-presidente brasileiro à da oposirora venezuelana Maria Corina Machado.
Além disso, Lula demonstra extrema complacência com o regime autocrático de Maduro ao se fiar na "garantia" do aliado de que haverá observadores internacionais no pleito e de que as eleições serão limpas, contrariando evidências em contrário já manifestadas por organismos como a ONU e ignorando o fato de que observadores foram expulsos do país por Maduro e, agora, uma emissora alemã, a Deutsche Welle, teve o sinal cortado por ele.
Por fim, quando Lula diz que recebeu tantas "garantias" tranquilizadoras de Maduro ao mesmo tempo em que afirma que não tratou com ele sobre a intenção manifestada de anexar o território de Essequibo, hoje pertencente à Guaiana, de novo mostra uma postura de proteção a um aliado, afastada de qualquer manual básico de política externa equidistante, profissional e voltada a evitar conflitos na região.
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Lula parece desfocado, se alternando entre a agenda externa sem ganho para o tal propósito de recolocar o Brasil no centro das decisões e a disposição, manifestada por aliados, de cuidar mais da articulação política. Se a ideia é essa, o que explica a comida de bola gigante do governo ao permitir que o mais canhestro dos bolsonaristas, o extremista Nikolas Ferreira, seja indicado para presidir nada menos que a Comissão de Educação da Câmara? A chance de isso paralisar a agenda do governo para a área é enorme, mas ninguém parece ter soado o alarme com antecedência.
Fonte: O Globo