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A resposta que Caiado foi obrigado a dar a Bolsonaro no ringue da direita em Goiânia
Foto: Reprodução

Disputa entre ex-presidente e do governador de Goiás para viabilizar seus apadrinhados antecipa disputa presidencial de 2026

Pré-candidato a presidente em 2026 e alvo de uma ofensiva de Jair Bolsonaro neste segundo turno em Goiânia, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), deixou claro na última sexta-feira que não deixará os ataques passarem batidos. O ex-presidente tem aproveitado a disputa entre seu candidato, Fred Rodrigues (PL), e o empresário Sandro Mabel (União Brasil), apoiado por Caiado, para tentar minar a imagem do governador.

 

O exemplo mais enfático da postura de Caiado foi um vídeo publicado na semana passada nas redes sociais em que, num tom duro e sem esconder a expressão de indignação, Caiado respondeu a peças que viralizaram associando seu nome e o de Mabel ao PT.

 

“Isso é de uma canalhice sem tamanho, típico desses falsos políticos de celular. Os mesmos que se escondem nas redes para atacar as pessoas sem nunca ter feito nada pela cidade”, disparou o governador.

 

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Como mostrou o colunista Lauro Jardim, o ex-presidente enviou a aliados no WhatsApp uma montagem que dizia “Jornal O Globo diz que Caiado vai pedir ajuda ao PT para ajudar Mabel contra o bolsonarismo em Goiânia”.

 

Na mensagem, Bolsonaro fazia referência a uma reportagem do GLOBO sobre a decisão do partido do presidente Lula de se declarar oficialmente neutro nas cidades em que o segundo turno é disputado por direitistas, mas na prática trabalhar por candidatos que concorrem contra bolsonaristas – caso de Mabel na capital goiana e de Eduardo Pimentel (PSD), em Curitiba (PR), que tem como rival Cristina Graeml (PMB).

 

Mabel, antes favorito nas pesquisas e favorecido pela máquina estadual, acabou atrás de Rodrigues no primeiro turno e por pouco não avançou para a segunda rodada – apenas 22 mil votos o separaram da terceira colocada, Delegada Adriana Accorsi (PT).

 

A migração dos eleitores da petista para o candidato do União Brasil é considerada chave para bater o bolsonarismo, mas uma aproximação pública seria um constrangimento para o governador, opositor histórico do petismo e aliado de longa data do agronegócio.

 

“Vocês me conhecem. Primeiro, não sou recém convertido à direita. Nunca votei no Lula, ao contrário do nosso adversário. Vou sim mostrar a todos os eleitores de Goiânia quem tem condições para governar”, disparou Caiado.

 

A alfinetada é uma referência à declaração pública de Fred Rodrigues de que Lula foi seu primeiro voto para presidente, em 2002, quando o petista se elegeu pela primeira vez para o Palácio do Planalto. Segundo o candidato do PL, ele votou “contra” o PT na eleição seguinte, em 2006, quando Lula se reelegeu.

 

A estratégia se Caiado não é gratuita. Além de responder a Bolsonaro, Caiado visa produzir uma espécie de “vacina” contra outra arma da direita contra Mabel: seu apoio aos governos Lula e Dilma Rousseff no passado, quando integrava, ironicamente, o PL – que na época se chamava Partido da República (PR). Enquanto deputado, defendeu a prorrogação do segundo mandato de Lula, o que não se concretizou, e apoiou a candidatura da sucessora.

 

Para explorar o antipetismo, Bolsonaro voltou a associar Caiado e, indiretamente, Mabel ao PT durante um ato eleitoral em Goiânia na última sexta-feira (11) — já depois que o governador publicou seu vídeo nas redes sociais.

 

“O União Brasil, aqui do chefe, do rosnador, tem ministério do PT. Quem está com o PT, não tem moral para falar nada”, disparou Bolsonaro, em referência aos ministérios do Turismo, das Comunicações e da Integração e Desenvolvimento Regional, pastas sob a cota do partido do governador.

 

“Quando você vê um candidato a prefeito na surdina fazer acordos secretos com o PT, boa coisa não virá”, disse em outro momento de seu discurso.

 

'VACINAS'


Na tentativa de sensibilizar o eleitor propenso a votar em Mabel, Caiado também buscou retratar Fred Rodrigues como um candidato inexperiente ao dizer temer que Goiânia fique “à mercê de uma gestão amadora e irresponsável” no vídeo divulgado na semana passada. Rodrigues, de 39 anos, foi deputado estadual por menos de um ano e acabou cassado pela Justiça Eleitoral em 2023 por irregularidades na prestação de contas de sua fracassada disputa para vereador em 2020.

 

“Goiânia não suporta mais quatro anos com um novo Rogério Cruz no comando da cidade”, declarou Caiado, em referência ao atual prefeito de Goiânia.

 

Filiado ao Solidariedade, Cruz disputou a reeleição e terminou em sexto lugar, com apenas 20 mil votos, amargando um alto índice de rejeição. O prefeito concorreu na eleição passada pelo Republicanos como vice do ex-governador Maguito Vilela (MDB), que contraiu Covid-19 e foi internado durante a eleição. Vilela tomou posse remotamente na UTI do hospital onde estava internado, em São Paulo, mas faleceu 12 dias depois.

 

BANDEIRAS BOLSONARISTAS


Em paralelo, Caiado tem intensificado a divulgação de índices de segurança pública, como a redução de 97% nas ocorrências de roubo de cargas, e a defesa do agronegócio. São bandeiras caras ao eleitor de direita em Goiás, e que também têm sido abordadas por Bolsonaro no estado.

 

No mesmo ato de campanha de Fred Rodrigues em que associou o governador ao PT na última sexta, o ex-presidente fez referência a um projeto de lei sancionado dois meses após a reeleição de Caiado que criou uma contribuição obrigatória sobre produtos agropecuários para financiar obras de infraestrutura, como rodovias, medida que desagradou produtores e foi apelidada de “taxa do agro”.

 

“Ele prometeu não taxar o agro. Tão logo foi reeleito, taxou o agro. Falta de hombridade, falta de honrar a própria palavra. Se não pode fazer, não prometa. Na campanha não é vale tudo, não. Um político vale pela sua palavra. Se alguém por aqui tem obsessão pela presidência, é um direito dela. Eu não tenho obsessão pela presidência. Eu tenho paixão pelo meu Brasil”, afirmou Bolsonaro.

 

Caiado anunciou em abril passado que disputará a presidência em 2026, apesar da participação de seu partido, o União Brasil, no governo Lula. Com Jair Bolsonaro inelegível até 2030 pela condenação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, o governador busca preencher a lacuna deixada pelo ex-presidente no segmento da direita.

 

Conforme revelou a colunista Bela Megale em fevereiro, Caiado chegou a manter conversas com o PL com vistas a uma eventual filiação ao partido, mas a ideia foi vetada peremptoriamente por Bolsonaro, que o classifica como “traidor”. No início da pandemia de Covid-19, em março de 2020, o governador, que é médico de formação, criticou duramente o então presidente por boicotar medidas de isolamento social e chegou a romper com o então aliado dizendo que “não tem mais diálogo com esse homem”.

 

Apesar disso, declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno de 2022 contra Lula, que acabou eleito. Em fevereiro passado, Caiado esteve no ato bolsonarista na Avenida Paulista pela anistia dos golpistas do 8 de janeiro convocado após a operação Tempus Veritatis da Polícia Federal, que mirou o ex-presidente e aliados por uma suposta trama para impedir a posse de Lula em 2023. Além dele, apenas dois outros governadores compareceram – Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Jorginho Mello (PL-SC).

 

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Apesar das tentativas de reaproximação, a disputa pela prefeitura de Goiânia demonstra que uma reconciliação parece cada vez mais improvável. O ex-presidente já mostrou que, se quiser disputar em 2026, Caiado não terá espaço na raia do bolsonarismo.
 

Fonte: O Globo

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