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Amazônia tem previsão de maior seca da história; efeitos devem ser sentidos até meados de 2024
Foto: Reprodução

Fenômeno é provocado por combinação de El Niño com aquecimento excepcional do Atlântico; rios da Bacia do Rio Madeira são os mais atingidos

Condições climáticas muito diferentes que as observadas em outros anos estão por trás da seca extrema que castiga a Amazônia, alertam cientistas. A seca deve atingir uma área ainda maior e pode vir a se prolongar até o fim do primeiro semestre de 2024, causando uma tragédia humana e ambiental na região amazônica e com desdobramentos para o clima de outras partes do país.

 

Gilvan Sampaio, coordenador geral de Ciências da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), afirma que o El Niño tem levado a culpa sozinho, mas não é ele o principal responsável neste momento pela estiagem severa no Sudoeste amazônico e sim aquecimento excepcional do Oceano Atlântico Tropical Norte.

 

O El Niño, porém, deve intensificar seus efeitos já na primavera. Combinados, os efeitos dos dois fenômenos podem provocar uma seca longa e devastadora, talvez a pior dos registros.

 

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O Amazonas está sofrendo uma severa seca que está afetando a navegação e a distribuição de combustível e alimentos para o interior do estado — Foto: Michael Dantas / AFP

 

— Temos a pior combinação possível. Se as condições atuais do Atlântico Tropical Norte permanecerem e o El Niño continuar a se intensificar, esta poderá ser a pior seca da Amazônia. E o mesmo pode acontecer no Semi-Árido nordestino em 2024 — enfatiza Sampaio.

 

A seca severa já fez o nível dos principais rios do Sul do Amazonas ficar abaixo da média histórica para esta época do ano, o período de estiagem. Um período naturalmente difícil se tornou dramático, com comunidades sem água e isoladas, pois a navegação se tornou difícil ou impossível em vários pontos de rios importantes, como Madeira, Juruá e Purus.

 

No estado do Amazonas, o mais atingido, 60% da população rural retira a água para o consumo humano diretamente, sem tratamento, de rios, igarapés, lagos ou açudes, segundo dados do IBGE. Apenas 10% da população do estado tem acesso à rede de água encanada.


— Em especial, a seca na Bacia do Rio Madeira deve piorar em virtude de o Atlântico Tropical Norte estar muito quente. Ou seja, lá não é o El Niño, que ainda está no início. Tudo indica que será uma situação semelhante ou até pior do que em 2005 no Sudoeste da Amazônia — destaca Sampaio.

 

O Atlântico superaquecido também foi a causa da devastadora seca de 2005, uma das piores registradas na Amazônia, só superada pela de 2010. Porém, diferentemente de 2023, 2005 não foi um ano de El Niño e em 2010 o Atlântico não estava tão quente quanto agora, diz Sampaio.

 

Por isso, este ano, com a combinação dos dois oceanos aquecidos a tendência é de uma seca generalizada no bioma.

 

— Este ano o Atlântico está ainda mais quente do que em 2005. Além disso, a combinação do Atlântico mais quente com o El Niño, que também reduz as chuvas na Amazônia, pode levar a uma seca de extensão e severidade ainda maior — frisa Sampaio.


À medida que o El Niño se fortalece, seus efeitos começam a ser sentidos com maior intensidade na Amazônia e a previsão é que as condições de seca avancem do Sudoeste para o Leste e o Norte da região ao longo da primavera e do verão. E perdurem pelo primeiro semestre de 2024.

 

Todo o Atlântico Norte e não apenas o Tropical tem estado excepcionalmente quente este ano. Anomalias de quase 2 graus Celsius na temperatura se manifestam em tempestades. Em setembro, o Atlântico Norte gerou o dobro do número de ciclones que o Pacífico, mesmo estando este em momento de El Niño. O Pacífico somou 37 ciclones contra 74 do Atlântico Norte.

 

A Bacia do Rio Madeira é a mais afetada pela atual seca e seus rios estão abaixo da cota mínima histórica. Sampaio explica que o aquecimento do Atlântico intensifica um fenômeno natural e que regula o clima no Sudoeste da Amazônia.

 

Normalmente, o ar que sobe para a atmosfera no Atlântico Tropical Norte desce no Centro-Sul da Amazônia nessa época do ano.

 

As águas mais quentes intensificam esse padrão de circulação atmosférica. O ar quente do oceano sobe com maior intensidade e também desce com força sobre a terra. É um sistema de alta pressão atmosférica, que aquece o ar por compressão e inibe a formação de nuvens e, consequentemente, de chuva.

 

Vista aérea do Rio Negro com níveis de água muito baixos no Distrito de Cacau Pirera, em Iranduba, estado do Amazonas, em 25 de setembro de 2023 — Foto: Michael Dantas / AFP

Foto: Reprodução

 

SECA SEVERA TAMBÉM NO NORDESTE

 

Sampaio chama atenção para os efeitos do El Niño no Semi- Árido nordestino, sobretudo, a partir de 2024.

 

— O El Niño está se intensificando e a previsão atual aponta para situação de seca severa em 2024 nessa região — salienta o cientista.

 

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As chuvas devem continuar muito intensas no Sul do Brasil na primavera e no verão. O calor segue forte em quase todo o país. Sampaio também destaca a possibilidade de eventos de chuva extrema nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul. O volume de precipitação mensal pode até ficar abaixo da média, mas há risco de temporais com chuvas muito intensas e concentradas. 

 

Fonte: O Globo

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