Sob artilharia de críticas de um dos principais aliados de Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia, governador de São Paulo faz novos acenos ao ex-presidente
Em meio ao fogo amigo consumado na esteira das discussões a respeito da sucessão eleitoral de Jair Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), voltou a acenar ao seu padrinho político neste fim de semana.
Se na quinta-feira Tarcísio tinha deixado bolsonaristas incomodados ao se declarar "agradecido" à ex-presidente Dilma Rousseff — em cujo governo ele foi diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), o governador agora se reafirmou bolsonarista.
Em um evento do grupo Esfera, realizado no Guarujá (SP) no sábado, Tarcísio foi questionado pelo mediador do debate se ele era bolsonarista. Ao seu lado se sentavam os ministros Alexandre Silveira (Minas e Energia) e Bruno Dnatas (Tribunal de Contas da União) e do empresário Rubens Ometto Silveira Mello, sócio-fundador da Cosan.
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— A primeira pergunta que a gente tem que saber é o que é ser bolsonarista. Eu sou bolsonarista. Vou continuar sendo bolsonarista. Isso significa que eu sou conservador, eu sou liberal e acredito em um Brasil que vai ter economia de mercado — respondeu o governador.
A declaração contradiz com outra feita em dezembro de 2022, após Bolsonaro ser derrotado por Lula e se prestar a uma reclusão completa no Palácio do Planalto, quando Tarcísio dissera nunca ter sido um "bolsonarista raiz".
Na última quinta-feira, o governador fez um esforço para tentar se afastar do holofote colocado sobre a briga pelo espólio eleitoral de Bolsonaro. Durante uma palestra feita em evento da gestora de investimentos Galápagos Capital, ele disse não ter o "menor interesse" na eleição de 2026.
Tarcísio relembrou sua trajetória e disse que é muito grato por "todas as portas" que Bolsonaro abriu a ele, e por isso sobe em carros de som e participa de eventos com o ex-presidente.
— Ele sabe a gratidão que tenho por ele, foi um cara que me abriu todas as portas, valorizou muito meu trabalho. E aí tem umas coisas que ‘por que você subiu no carro de som com o Bolsonaro? Qual foi o cálculo político?’ Nenhum, subi porque ele é meu amigo e eu gosto dele. ‘Ah, você vai disputar’, não tô pensando em eleição de 2026, não tenho menor interesse nisso, zero, de verdade. Meu interesse hoje é fazer a diferença aqui em São Paulo — declarou.
Sem citar nomes, Tarcísio rebateu críticas recentes feitas por "um pastor". Em entrevista ao GLOBO publicada na última terça-feira, o pastor Silas Malafaia fez críticas ao governador ao sugerir que ele tenta se cacifar como o nome do bolsonarismo para 2026.
— Outro dia um pastor aí chegou e me descascou porque eu quero isso, não vou ajudar o Bolsonaro, tal. O cara não me conhece.
A crítica de Malafaia é endossada por outros aliados de Bolsonaro, de forma menos pública. Isso porque há uma expectativa de que o ex-presidente consiga reverter a inelegibilidade, contraída após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reconhecer, em junho de 2023, a prática de abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação durante reunião realizada no Palácio da Alvorada com embaixadores estrangeiros no dia 18 de julho do ano anterior.
Partido de Bolsonaro, o PL vem exigindo o compromisso com a aprovação de um projeto de lei anistiando Bolsonaro como condição para o apoio do partido aos candidatos à presidência da Câmara dos Deputados. Como antecipou O GLOBO, já foram feitas reuniões com Elmar Nascimento (União Brasil-BA), Antonio Brito (PSD-BA) e Marcos Pereira (Republicanos-SP). Tendo êxito na empreitada, essa ala espera ver Bolsonaro disputando com Lula mais uma vez a cadeira no Palácio do Planalto.
Tarcísio nunca afirmou publicamente que pretende disputar a Presidência da República em 2026, mas seus detratores no entorno de Bolsonaro costumam enxergar seus movimentos como pretensão eleitoral. Ao lado da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os governadores Romeu Zema (MG), Ronaldo Caiado (GO) e Ratinho Júnior (PR), o governador paulista é cotado como um dos possíveis herdeiros na direita bolsonarista.
Desde que assumiu o governo, Tarcísio se equilibra entre a liturgia do cargo que ocupa e a pressão por se portar como Bolsonaro — que, enquanto presidente, tratou adversários como inimigos e amontoou controvérsias ao desmontar políticas públicas de seus antecessores e atacar desafetos com grosserias. Por isso, encontros com petistas, ainda mais os que são fotografados, costumam render ao ex-ministro da Infraestrutura desconfiança entre apoiadores do ex-presidente.
Em janeiro de 2023, ao longo dos desdobramentos dos ataques aos prédios dos Três Poderes após a derrota eleitoral de Bolsonaro, por exemplo, Tarcísio foi criticado por se reunir com o presidente Lula em Brasília, assim como os outros 26 governadores. Em círculos virtuais bolsonaristas, foi chamado de "traidor".
Seus encontros com o presidente Lula e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), principalmente Alexandre de Moraes, o espaço dado a Gilberto Kassab no governo e a defesa de projetos do governo federal, como a reforma tributária, atraíram a mira do bombardeio bolsonarista — que ganha especial força nas redes sociais.
Recentemente, Bolsonaro mirou artilharia contra Kassab, principal conselheiro político de Tarcísio. Como O GLOBO mostrou, o ex-presidente costuma enviar recados para seus aliados por meio de sua lista de transmissão no WhatsApp, por onde compartilha fotos, vídeos e mensagens sobre temas diversos. Kassab é citado em um dos disparos.
“O Kassab, pelos seus 3 ministérios, apoia as políticas do PT, como a ideologia de gênero, maconha, aborto, censura, defesa do MST, destruição da família, defesa do Hamas, desarmamento, fim da propriedade privada, etc”, escreveu Bolsonaro sobre o secretário de Governo de Tarcísio e presidente nacional do PSD.
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Correligionários sustentam que o ex-presidente tem intensificado os ataques a Kassab para desgastá-lo perante o bolsonarismo, por temer que o dirigente possa concorrer como vice de Tarcísio em uma eventual tentativa de reeleição ao governo de São Paulo em 2026. Nesse cenário, Kassab poderia assumir o Palácio dos Bandeirantes caso o ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro renuncie ao cargo para disputar a Presidência da República mais à frente.
Fonte: O Globo