Presidente dos EUA homenageou 14 pessoas que agiram para preservar a democracia do país frente às tentativas trumpistas de reverter o voto popular em 2020
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, marcou o segundo aniversário do ataque ao Capitólio homenageando 14 pessoas que agiram para preservar a democracia do país frente ao episódio, alertando para os riscos do negacionismo e do conspiracionismo. Até agora, mais de 900 pessoas foram presas por suposto envolvimento com o maior teste ao sistema de freio e contrapesos da História recente americana.
Em uma cerimônia na Sala Leste da Casa Branca, Biden disse aos homenageados — três deles mortos durante o incidente — que "há dois anos em 6 de janeiro, nossa democracia foi atacada, não há outro jeito de dizer":
— Tudo isso foi oxigenado pelas mentiras sobre a eleição de 2020. Mas neste dia há dois anos, nossa democracia se sustentou porque nós, o povo, como a Constituição se refere a nós, não hesitamos — afirmou o presidente, referindo-se a retórica falsa de fraude promovida pelo ex-presidente Donald Trump para tentar se manter no poder, ecoada por aliados e apoiadores. — Nós, o povo, aguentamos.
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Os comentários de Biden coincidem com o quarto dia de caos na Câmara, cuja maioria foi retomada pelos republicanos nas eleições parlamentares de novembro: têm 222 assento, contra 13 dos republicanos. Os parlamentares do partido, contudo, não conseguem chegar a um consenso sobre quem eleger para presidir a Casa, impasse que já dura mais de 10 rodadas de votação e que muitos democratas dizem ser um resquício do 6 de janeiro.
O californiano Kevin McCarthy, o favorito, teve seu nome barrado por cerca de 20 correligionários, que em sua maioria são trumpistas ferrenhos e questionadores da lisura do pleito de 2020. Conseguiu reverter alguns votos nesta sexta, mas ainda assim aquém do necessário para eleger-se, prolongando uma situação sem precedentes desde a Guerra Civil americana que ressalta a polarização política no país e a pouca margem para debate.
Durante a cerimônia, Biden concedeu as chamadas Presidencial Citizens Medals, ou Medalhas Cidadãs Presidenciais, a segunda maior honraria concedida para civis no país, atrás apenas da Medalha da Liberdade. Elas são dadas para quem "realizou obras ou serviços exemplares para seu país ou seus concidadãos".
O presidente às concedeu para nove policiais, entre eles três que morreram em decorrência do ataque à sede do Congresso, violência que coincidiu com a sessão conjunta que confirmaria a vitória de Biden no pleito de dois meses antes. As turbas foram insufladas por Trump, constatou uma comissão independente da Câmara que investigou os fatos por dois anos e recomendou ao Departamento de Justiça que o ex-mandatário seja formalmente acusado por insurreição, obstrução de procedimentos oficiais, conspiração para promover fraude e por fazer declarações falsas.
A recomendação não é vinculante, mas por si só carrega bastante simbolismo: foi a primeira vez que o Congresso recomendou um processo criminal contra um ex-presidente. O Departamento de Justiça também realiza suas próprias investigações sobre o ataque, e na quinta-feira um colega de um dos policias mortos abriu um processo contra o ex-presidente e dois manifestantes que estavam no local e agrediram o policial.
Biden também deu medalhas a cinco funcionários locais que foram alvo de violência, mas resistiram às pressões de Trump e seus aliados para reverter o voto popular. Entre eles, Ruby Freeman e Shaye Moss, sua filha, que ajudavam a realizar a eleição em Atlanta, na Geórgia, e foram alvo de ameaças de apoiadores de Trump que as acusaram falsamente de fraudar o voto.
Biden também concedeu a honra a Al Schmidt, que era comissário eleitoral na cidade de Filadélfia, na Pensilvânia, e Jocelyn Benson, que foi secretária de Estado em Michigan durante a eleição, cargo que no estado é responsável por coordenar a realização do pleito. O quinto homenageado foi Rusty Bowers, também do Arizona. Todos os três estados foram chave para a vitória do democrata.
— Uma turba violenta de insurrecionistas agrediu os agentes responsáveis pela execução da lei, vandalizou halls sagrados, perseguiu funcionários eleitos, tudo com o propósito de tentar reverter a vontade do povo e usurpar a transferência pacífica de poder — disse Biden.
Os três mortos homenageados eram todos policiais. Brian Sicknick era policial do Capitólio e teve um derrame um dia após o ataque, enquanto Howard Liebengood cometeu suicídio em 9 de janeiro. Jeffrey Smith, funcionário da Polícia Metropolitana de Washington, também tirou sua própria vida após tentar proteger o Capitólio.
Quando o ataque completou um ano em 2021, Biden expressou maior preocupação com o futuro do país. Na época, disse que "enquanto estamos aqui hoje — um ano após 6 de janeiro de 2021 — as mentiras que levaram à ira e à loucura que vimos neste lugar não se abaterem". No segundo aniversário, contudo, o tom do presidente foi de maior otimismo:
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— Não somos uma terra de reis e ditadores, autocratas e extremistas — disse Biden. — Como vemos nos homenageados de hoje, somos uma nação e nós, o povo cuja fibra foi fortalecida, renovamos nossa fé e reforçamos nossa causa. Não há nada aquém da nossa capacidade se agirmos juntos.
Fonte: O Globo