Idealizador do conceito de powershoring, Jorge Arbache vê oportunidade para empresas chinesas em meio a guerra comercial
O economista Jorge Arbache diz que Wall Street já acordou para o "powershoring", ou seja, para as vantagens da produção próxima de fontes de energia limpa, em países como o Brasil.
A expressão foi usada por ele para batizar o insight que teve há cerca de dois anos, diante das pressões geopolíticas por "nearshoring" --a produção próxima dos mercados compradores, como os Estados Unidos buscam no México, para reduzir sua exposição à China.
O Brasil oferece, na visão de Arbache, uma alternativa melhor na forma de energia limpa e abundante. "Quem tem falado muito [em powershoring] são banqueiros de Wall Street", diz ele. "O BNP Paribas, por exemplo, falou que a grande agenda de crescimento para a América Latina, para eles, é powershoring. O HSBC falou a mesma coisa. O Citi, também."
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Faltam os chineses. Arbache veio a Pequim para tentar convencer aqueles que ele vê como grandes beneficiários potenciais de seu insight. "O Brasil pode ser uma opção válida e importante de destino de fábricas chinesas que querem seguir entrando em mercados ocidentais e estar em compliance [conformidade] ambiental", diz ele. "Esse tema deverá ganhar relevância para os chineses nos próximos meses. Temos que saber explorar a oportunidade."
Ele foi por cinco anos, até o mês passado, vice-presidente do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF). "A China passa por uma espécie de guerra econômica com os EUA e agora a Europa, que se traduz em discriminação e protecionismo", diz, citando veículos elétricos e outros setores. "Ela precisa buscar novos modelos e novas alianças para romper esse tipo de política. Uma solução é produzir em terceiros países."
Outra é buscar respostas ao protecionismo que argumenta com a pegada de carbono dos produtos chineses. Dá como exemplo o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM, na sigla em inglês). "É uma política europeia que olha o impacto de emissão e compara com o que eles usam como benchmark [referência]. Uma forma de a China pegar um atalho é produzir num país onde a matriz elétrica já é verde."
O Brasil, diz, tem uma matriz 90% verde e tem muita água. "Água para a gente não é restrição, neste momento pelo menos. E quase todos os processos produtivos que são intensivos em energia também são intensivos em água." Lista aço, celulose, alumínio, cerâmica, vidro, fertilizante.
No país, conta a favor ainda o custo da energia. "Preço, disponibilidade, se a energia é segura e verde são fatores determinantes de onde uma planta [fábrica] vai estar localizada. Antigamente era mão de obra barata. Acabou, hoje é energia."
Professor da UnB, ele sublinha que, para o próprio Brasil, trata-se de produtos importantes por gerarem emprego urbano. "O setor dinâmico da economia brasileira hoje está na áreas rurais: o agro e as minas, minério, petróleo. Eles geram poucos empregos urbanos e, voltados à exportação, pagam relativamente poucos impostos." A principal justificativa interna para o powershoring, diz, vem daí.
Relaciona entre as vantagens comparativas do Brasil não só energia verde e água, mas estar ancorado em minerais críticos, "que representam a transição", e em biocombustíveis e bioeconomia. "Não se vai inventar a roda. Você já tem vantagem comparativa. Precisa agora converter em competitividade."
Falando à Folha pouco depois de uma palestra para executivos chineses e brasileiros no centro de Pequim, em que apresentou powershoring como "uma estratégia corporativa para a era da descarbonização", o economista afirmou que "isso aqui é tudo microeconomia, não precisa nada de político, em princípio nem tem investimento estatal".
Mas o governo brasileiro acompanha de perto. No ano passado, organizou uma conferência com ministros e outras autoridades, intitulada O Powershoring e a Neoindustrialização Verde do Brasil. Segundo Arbache, "nos seis eixos da nova política, Nova Indústria Brasil, o quinto conceito, o da energia limpa e industrialização, é powershoring".
A expressão é corrente entre dirigentes da Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), além do próprio Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
O presidente da Apex, Jorge Vianna, que também viajou a Pequim, diz que "powershoring significa que existe hoje uma grande oportunidade para o Brasil, pois mundialmente e cada vez mais as empresas querem produtos com energia limpa".
Diz que "é importante também incluir a área de minerais críticos encontrados no Brasil, fundamentais para a produção de energia limpa".
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Falta combinar com os chineses. Arbache sugere uma experiência para as próprias gigantes chinesas de aço, que também enfrentam protecionismo, agora oriundo das concorrentes brasileiras, que pressionam o governo. "Você tem conexões altamente atrativas para produzir aço no Brasil, para dali ele ser exportado", diz. "De imediato, não tem as restrições geopolíticas, e o aço sai verde."
Fonte: Folha de São Paulo