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Brasil é um dos líderes em infraestrutura pública digital e Pix é um exemplo, diz ex-CTO do Reino Unido
Foto: Reprodução

Liam Maxwell avalia que o país, junto com a Índia, é um dos principais exemplos de avanço tecnológico governamental

Um dos responsáveis pelo processo de digitalização que uniu dezenas de serviços públicos no Reino Unido em uma plataforma digital, há mais de uma década, com Government Digital Service (GDS), o britânico Liam Maxwell avalia que o Brasil, junto com a Índia, é um dos principais casos do mundo de estrutura de tecnologia governamental. A escala das iniciativas, o exemplo do Pix e o histórico de sistemas de código aberto para o serviço público são alguns dos motivos.

 

Há quase duas décadas dedicado à área de tecnologia voltada para governos, o especialista, que foi conselheiro e diretor de tecnologia (CTO) do governo britânico, avalia que a inteligência artificial ainda pode ser um componente para ajudar governos e serviços públicos a processar dados de forma mais eficiente. Um dos exemplos, no Brasil, é o caso do sistema criado no Pará, com IA,para monitorar a conformidade de propriedades em áreas florestais.


Desde 2018 a frente da área global que trabalha com o setor público na Amazon Web Services (AWS), o braço de nuvem da gigante do e-commerce, o britânico diz, em entrevista ao GLOBO, durante visita ao Brasil, que o país um "dos países prioritários" para a empresa de Jeff Bezos. A companhia, desde 2011, opera localmente com uma região, nome para infraestrutura de data centers que hospeda dados e serviços.

 

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Como está o Brasil em relação a digitalização de serviços públicos?

 

Eu dirijo a equipe na AWS cujo objetivo é ajudar pessoas em governos a acelerarem suas reformas digitais. Minha experiência é como ex-funcionário público. Fui Chief Technology Officer (CTO) do governo britânico, onde liderei as reformas tecnológicas de 2011 a 2018. Não faço vendas, mas ajudo nas reformas. E o Brasil é um dos meus países prioritários em todo o mundo. Identificamos cada país com base em critérios, que incluem desempenho reconhecido, liderança para realizar as reformas e visão. O Brasil está entre os três primeiros do mundo nesses aspectos.

 

Que tipo de oportunidades a AWS identifica aqui?

 

Investimos no Brasil desde 2011, abrindo regiões, que são grandes investimentos em infraestrutura. A Amazon tem uma presença forte aqui há muito tempo. O Brasil tem sempre adotado uma abordagem proativa para digitalização, independentemente do governo. Vemos pessoas realmente habilidosas e altamente qualificadas. Outro aspecto importante é uma narrativa clara em torno de reformas digitais, como em áreas de arrecadação de impostos. O Brasil também possui infraestrutura pública digital significativa. Um exemplo importante é o PIX, um sistema de pagamento centralizado que funciona com baixos custos de transação e alto volume, com adesão de muitas pessoas. Do ponto de vista dos reformadores, isso é muito poderoso, e o único outro país que fez isso em tal escala é a Índia. Tanto o Brasil quanto a Índia lideram o mundo em infraestrutura pública digital.


Quais projetos que têm com o governo brasileiro?

 

Alguns dos projetos do governo federal são confidenciais, por isso não posso falar. Mas uma das coisas que mais fazemos em todo o mundo é trabalhar de perto com autoridades fiscais. Também temos feito trabalhos com cibersegurança e atuando com instituições financeiras, em questões como de benefícios sociais. Além do governo federal, outra vantagem do Brasil é ter governos locais muito grandes. São Paulo é maior que muitos países da Europa, por exemplo, o que dá escala a projetos em nível estadual também. Outro fator importante é o patrimônio de código aberto que existe no Brasil (desde 2007 o país tem um portal de softwares públicos que podem ser acessados por todos os poderes e por outros países). Há mais cultura de inovação maior aqui do que em outros lugares.

 

Como o setor público pode aproveitar os ganhos com IA?

 

Um bom exemplo no Brasil é que a Amazon lançou, há um ano e meio, algo chamado Q (que opera como chatbot de inteligência artificial), que é uma ferramenta de produtividade dentro de um espaço de trabalho, que permite a interação da IA a partir de tecnologias próprias, sem acessar algo que esteja na internet. No Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) a ferramenta foi usada para coletar informações de sistemas acadêmicos e administrativos para responder a perguntas, por exemplo, sobre retenção de alunos, entre outros indicadores internos. A IA é uma boa maneira de coletar informações para gerenciamento.

 

A transição para a digitalização de dados rurais no Brasil é outro exemplo importante. No Pará, o uso de IA e aprendizado de máquina tem sido usado para monitorar a conformidade ambiental em 20 milhões de hectares de floresta, o que é um avanço significativo. E há muitos casos de uso. Na Ucrânia, estamos usando IA no processo de identificação de minas terrestres, por exemplo. Durante o início da guerra, também trabalhamos com o governo para levar sistemas públicos para a nuvem, para que eles continuassem operando mesmo sob ataque.


E quais são os principais entraves para adoção da inteligência artificial no setor público?

 

No entanto, superar os desafios burocráticos é crucial, pois os governos são projetados para priorizar a lei e a responsabilidade pública, o que pode dificultar a implementação de novas tecnologias. Ter uma infraestrutura de dados é realmente importante. Em muitas organizações ao redor do mundo, podemos identificar que o compartilhamento de dados ou o engajamento com dados ainda é um grande problema. Até porque os governos geralmente são divididos em departamentos isolados, com dificuldade em compartilhar dados, apesar dessas informações estarem lá. Então, um dos componentes é realmente colocar os dados no lugar certo. E isso também significa migrar para a nuvem porque caso contrário você continua tendo armazenamento de dados em nível local, o que naturalmente restringe a capacidade de aproveitar as informações e usá-las de forma eficaz. Essa, eu diria, é a transição pela qual a maioria dos governos está passando no momento.

 

Você mencionou o trabalho para redirecionar os serviços públicos ucranianos para a nuvem no início da guerra. Como foi esse processo?

 

A Ucrânia é um país muito avançado digitalmente. Eles têm um aplicativo que integra todos os serviços do governo. Foi por isso que nos interessamos pela Ucrânia inicialmente, bem antes da guerra. Porque eles foram o primeiro país a dizer que fariam tudo por meio de um aplicativo. Na guerra, queriam garantir que seus registros e serviços estivessem no lugar mais seguro possível. E a nuvem é um lugar onde, ao distribuir os dados, você pode proteger as informações. Então, caso os data centers onde os dados estão armazenados sejam atingidos por um míssil ou por um ataque cibernético, automaticamente migram para a AWS. Isso lhes dá resiliência. No verão passado, por exemplo, todos os exames de ingresso na universidade foram realizados através de nós. E isso aconteceu independentemente de onde as pessoas estavam.

 

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Como garantir segurança ao digitalizar esses serviços com informações tão sensíveis?

 

A segurança dos dados reside com os governos. São informações que não acessamos. Nós, como empresa, cuidamos da segurança da nuvem, mas os governos, com clientes, cuidam de toda a segurança dos dados e das aplicações que executam. É uma separação legal que está nos contratos, mas também física, até o nível do chip. 

 

Fonte: O Globo

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