Um ano após as mortes, inquérito descreve poder de influência de Colômbia, mandante do crime, em três municípios do Amazonas
Um ano após o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, que tiveram os corpos esquartejados e queimados no Vale do Javari, na Amazônia, a Polícia Federal se debruça sobre uma nova linha de investigação. O inquérito apura a existência de uma organização criminosa por trás do homem apontado como mandante do crime e tenta estabelecer uma relação entre Ruben Villar Coelho, o Colômbia, e prefeituras do Amazonas que ficam na fronteira do Peru e da Colômbia.
Três municípios da área de influência de Colômbia, que precisa de respaldo político para manter a pesca ilegal na região, estão no foco da PF: Atalaia do Norte, Tabatinga e Benjamin Constant. Os investigadores fazem uma escrutínio de doações eleitorais oficiais e por caixa 2 feitas pelo acusado a políticos locais.
Uma delas teria acontecido, segundo a Polícia Federal, por meios informais à campanha do hoje prefeito de Atalaia do Norte, Denis de Paiva (Patriota). Não há registro de doações legais de Colômbia a ele. Porém, a PF desconfia do uso da microempresa ASM, de Anderson Souza Matias, que seria ligado ao mandante dos assassinatos de Bruno e Dom.
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PREFEITO NEGA RELAÇÃO
O fio da meada é puxado de licitações da empresa, que somaram de R$ 2 milhões entre 2021 e 2022. As concorrências envolviam uma série de itens que não são do ramo alimentício, que consta como atividade principal no cadastro da Receita Federal, e muito menos são típicos de uma distribuidora de bebidas, como informa a fachada da empresa no Centro da cidade. Anderson não foi localizado pelo GLOBO, mas o prefeito Denis nega ter qualquer relação com Colômbia ou com a pesca ilegal. Ele admitiu, entretanto, conhecer Anderson e disse se lembrar de algumas licitações.
— Pode pesquisar sobre mim e a minha história. Muitas das pessoas que mandavam em Atalaia eram de fora, traficantes, agiotas e grandes comerciantes de Benjamin e Tabatinga. A nossa vitória não agradou a eles — rebate o prefeito.
Para a PF, entretanto, há uma organização criminosa transnacional por trás da execução de Bruno e Dom. Essa organização envolveria a prática de crimes de sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, desvio de recursos públicos e corrupção.
De acordo com as investigações, Colômbia patrocina campanhas a prefeituras da região com doações oficiais simbólicas de R$ 5 mil e grandes aportes por meio de caixa 2. Uma dessas pequenas doações foi para a campanha do então candidato David Nunes Bemerguy (MDB), atual prefeito de Benjamin Constant, onde Colômbia possui endereço comercial. Logo após a prisão de Amarildo Costa de Oliveira, o Pelado, David designou o procurador do município Davi Barbosa de Oliveira para defender o acusado. No mesmo dia, o prefeito de Atalaia do Norte determinou que a defesa fosse reforçada pelo procurador Ronaldo Caldas. Depois da repercussão da notícia, os dois resolveram sair do caso. Davi não respondeu aos pedidos de entrevista do jornal.
Bruno Araújo Pereira e Dom Phillips iam da comunidade ribeirinha São Rafael até Atalaia do Norte
Irmão do prefeito de Benjamin Constant, Saul Nunes Bemerguy administra a cidade de Tabatinga, outra área de influência de Colômbia na mira da PF. Saul chegou a ser afastado do cargo em julho de 2021 após ser alvo da Operação Magüta da Polícia Federal, que investigava esquema de fraudes em licitações da prefeitura. Foi em Tabatinga que o colaborador da Funai, Maxciel dos Santos Pereira, foi assassinado, em 2019, após participar, em apoio a Bruno Pereira, da apreensão de toneladas de pirarucu das embarcações de Colômbia. Saul não quis se pronunciar sobre as suspeitas da PF.
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Fonte: O Globo