Estudo publicado há mais de 50 anos levantou a hipótese, nunca comprovada de fato (apesar de amplamente aceita pela sociedade), de que os ciclos ficariam parecidos por conta de hormônios.
Muitas mulheres, provavelmente, já tiveram a experiência de ficar menstruada ao mesmo tempo em que uma amiga. Na verdade, o que parece ser algum tipo de sabedoria da Mãe Natureza ou uma ligação secreta entre amigas nada mais é do que coincidência.
Contexto: A ideia surgiu a partir de uma pesquisa feita em 1971, quando a pesquisadora norte-americana Martha McClintock supôs que os ciclos menstruais de mulheres sincronizariam quando há bastante convivência, por causa da influência dos feromônios. (Entenda mais abaixo.)
Motivos: A bióloga Mari Krüger explica que, na verdade, quem conta com esse tipo de mecanismo são os animais, e que o cérebro humano busca por coincidências e coisas que reincidem.
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"Fixamos em algo que nos é dito de forma repetitiva e em padrões. Por isso, é fácil acreditar em fake news também", afirma.
São muito dias e muitas mulheres com quem a gente convive. Então, em algum momento, matematicamente, isso vai coincidir. — Mari Krüger, bióloga e divulgadora científica
Edson Ferreira, médico assistente da Divisão de Ginecologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) explica que, nos seres humanos, os feromônios têm um impacto menor porque a própria sexualidade humana é multifatorial, uma vez que o sexo não serve somente para procriação.
"Não somos seres meramente químicos. Tem toda uma situação contextual e sensorial envolvida", diz.
Mari Krüger também ressalta que muitas pessoas tendem a acreditar nisso por parecer ser o "natural", mas esse é um argumento que não é válido.
"Dentro da nossa espécie o que é natural não faz mais sentido. Exemplo: o incesto é algo normal dentro da realidade dos animais. Mas, entre humanos, é antiético e moralmente condenável, além de gerar anomalias genéticas. O que é normal varia de espécie para espécie", explica.
COMUNICAÇÃO ENTRE ANIMAIS
Os feromônios não funcionam na nossa espécie como funcionam em outras. De acordo com Yago Stephano, professor de biologia e divulgador científico, eles atuam de maneira semelhante à comunicação verbal humana, mas são percebidos por outros sentidos, já que é um "cheiro" detectado pelo inconsciente.
É algo que sinaliza coisas como: 'ali tem comida, estão atacando minha colônia, precisamos combater um inimigo'. — Yago Stephano, professor de biologia
Ele diz que esses componentes químicos secretados são liberados de diversas formas, variando conforme o tipo de animal. Na grande maioria dos casos, os animais só conseguem se comunicar com indivíduos da mesma espécie.
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As formigas andam em linha reta porque seguem um
rastro de feromônios. (Foto: Reprodução/Pexels)
A hipótese mais provável que se tem hoje em dia a respeito da interação de feromônios entre a espécie humana é na relação mãe e filho. Um estudo publicado na revista científica American Psychologycal Association sugere que as fêmeas de mamíferos desenvolveram mamilos que são capazes de atrair seus recém-nascidos.
A liberação de estímulos químicos, como os feromônios, faz com que os bebês instintivamente saibam por onde obter a nutrição de que precisam para sobreviver.
O QUE DIZ A MEDICINA
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A teoria surgiu a partir de um estudo feito em 1971, mas nunca
foi comprovada de fato. (Foto: Reprodução/Pexels)
Mais do que cravar se isso é ou não possível, é preciso ir além e pensar qual seria a possível razão para a biologia humana evoluir a ponto de permitir essa influência entre mulheres.
"Precisamos pensar o porquê a natureza gostaria que todas as mulheres menstruassem juntas. E não é só o sangramento, porque, se elas estão menstruando juntas, significa que estão ovulando juntas", reflete Alessandro Scapinelli, ginecologista especialista em ginecologia endócrina.
O médico afirma que é muito difícil confirmar resultados tomando como base análises fisiológicas, ou seja, análises que buscam desvendar o funcionamento do organismo como um todo.
Hoje em dia, é bastante comum que mulheres optem por bloquear a menstruação ou que têm um ciclo artificial, regido pelo uso de métodos contraceptivos hormonais (neste segundo caso, a menstruação ocorre pela privação do uso hormonal e não pelo próprio tempo do organismo).
Ferreira diz que são muitas as variáveis envolvidas a cada ciclo feminino e que a duração pode é afetada por diversos fatores.
Existem tantas influências nesse eixo que a mulher não vai ter seus ciclos com uma duração exata. Se o próprio ciclo individual não é previsível matematicamente, imagine umas influenciando as outras para acontecer em sincronia? — Edson Ferreira, médico assistente da Divisão de Ginecologia do Hospital das Clínicas da USP
Além disso, de acordo com Scapinelli, fatores como alimentação, sono e estresse modificam o ciclo de cada mulher, o que dificulta ainda mais a realização de uma pesquisa sobre o tema, já que as condições individuais de cada uma não são homogêneas.
A medicina tem muitos gaps, nem tudo a gente sabe ou estuda porque há muitos conflitos de interesses com a indústria farmacêutica, que investe no que pode trazer lucro posterior para ela.
— Alessandro Scapinelli, ginecologista especialista em ginecologia endócrina
O SURGIMENTO DO MITO
Em 1971, a pesquisadora Martha McClintock avaliou ciclos menstruais de 135 mulheres para observar as datas das menstruações entre aquelas que tinha uma convivência mais intensa e outras que se encontravam esporadicamente.
Ela acabou descobrindo que a data de início da menstruação era mais próxima entre amigas e colegas de quarto do que entre pares aleatórios de mulheres. Para justificar o achado, a hipótese levantada por Martha era a de que as mulheres trocavam feromônios entre si.
Isso contribuiria para a diversidade biológica da prole e eliminaria a fantasia de um harém, uma vez que, se todas as mulheres estivessem férteis ao mesmo tempo, eram menores as chances de que um único homem pudesse engravidar todas.
O contexto da descoberta de Martha era o da Segunda Onda do feminismo, quando milhares de mulheres na Europa e nos Estados Unidos ingressaram no mercado de trabalho após as duas guerras mundiais. Assim, u a popularizar essa teoria.
a ideia de que a biologia teria seus próprios meios de corroborar com uma perspectiva feminista era bastante atrativa, o que provavelmente ajudo
HIPÓTESE SEDUTORA
No entanto, outros estudos reforçaram o quanto essa hipótese é fraca. O mais recente deles é uma revisão dos estudos anteriores, feita em 2015 e publicada na plataforma de pesquisas acadêmicas ResearchGate. Os autores ressaltam que, apesar de não haver evidências para apoiar a existência do fenômeno, isso é amplamente aceito socialmente, já que a "hipótese é sedutora".
"Poderia ser a prova da alta empatia nos grupos de mulheres, uma conexão com os ciclos lunares. Portanto, uma possível conexão astral, ou a prova de uma comunicação indescritível entre mulheres", concluem os pesquisadores.
Outro, publicado revista científica PubMed, foi feito em 2006 e analisou a questão em duas etapas.
A primeira delas consistiu em coletar dados de 186 mulheres chinesas que viviam em dormitórios compartilhados por mais de um ano, e a segunda foi a revisão do estudo de McClintock, o primeiro reportando a sincronicidade menstrual.
"Descobrimos que a sincronia do grupo naquele estudo estava no nível do acaso", diz a conclusão da pesquisa.
Um terceiro, realizado em 1993 na Universidade do Novo México, EUA, e publicado na revista científica Science, analisou 29 casais de mulheres lésbicas que moravam juntas.
As pesquisadoras concluíram que "não há evidências sólidas de que a sincronia menstrual seja um atributo estável das populações humanas passadas ou contemporâneas".
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Isto é, por mais tentador que seja acreditar que as mulheres possuem uma conexão entre si, nada foi comprovado pela ciência. Pelo menos, por enquanto.
Fonte: G1